‘O Sal da Terra’ – Um filme para sempre

A primeira vez que ouvi Sebastião Salgado ele conversava com o jornalista Roberto D’avila. Parei tudo o que eu estava fazendo para me concentrar naquele homem de sobrancelhas brancas e tão expressivas. Cada frase soou como um presente e, depois de ouvi-lo, o meu amor pela vida ficou um tantinho maior.

Eu já conhecia o trabalho de Sebastião, mas nunca tinha escutado sua voz.  Meus olhos derramaram lágrimas e compreenderam o motivo da intensa beleza de seus registros: ele fotografa com o coração e tem como grande auxiliar a vastidão de sua alma. Um poeta de olhares profundos, que fala sobre a vida e suas tantas faces, ora maravilhosas, ora devastadoras.

Sebastião Salgado – Iguana-marinha (detalhe), Galápagos, 2004.

Sebastião Salgado – Iguana-marinha (detalhe), Galápagos, 2004.

A forma como Sebastião traduz o mundo nos coloca em nosso devido lugar. De maneira sensível e extremamente respeitosa, ele adentra comunidades de humanos, macacos, morsas, crocodilos, tartarugas e nos reconecta às nossas raízes. Viemos todos de uma mesma célula, somos uma grande comunidade, que está vinculada pela história da origem da vida.  Mas raramente nos lembramos disso.

Para Sebastião Salgado, que já esteve entre tantos grupos de animais, o humano é o mais cruel e feroz de todos; coloca-se como ‘principal’ dentro do cenário do mundo e se vê no direito de destruí-lo. Devasta florestas, polui rios, destrói seus semelhantes, extingue outras espécies, num movimento claro de esquecimento: não nos vemos como parte da natureza e acreditamos ser superiores a uma árvore ou a uma iguana. Doce ilusão.

Estamos todos juntos nesse planeta e devemos respeita-lo, pois ser humano também é ser terra, água, fogo e ar. A vida humana está intimamente ligada a todas as outras formas de vida: uma formiga, uma árvore e uma onça têm absolutamente tudo a ver conosco. Mas nos desligamos desse pensamento e nos tornamos brutais e ferozes.

No documentário “O Sal da Terra”, que conta a história da vida e obra de Sebastião Salgado, esse olhar nos acompanha o tempo inteiro. E, por isso, merece visto. É um recado para a humanidade. E essa tem sido a grande herança dos projetos de Sebastião: por meio de sua fotografia ele nos prova que a humanidade está à beira do abismo; não conseguimos resolver o problema da fome, realizamos as mais frias e sanguinárias guerras, arrancamos plantas e animais de seu habitat e, nesse movimento, provocamos nossa autodestruição.

Após as tantas denúncias que realizou ao longo de sua carreira, Sebastião declarou não ter mais forças, nem vontade, de continuar. Muitas de suas missões concentraram-se na tragédia humana e ele retratou as mais inimagináveis atrocidades (Veja aqui a obra completa do fotógrafo).

Exatamente por ter presenciado, ao longo de tantos anos de trabalho, tragédias que feriram sua alma, Sebastião decidiu voltar ao ofício, agora com uma linda homenagem ao Planeta Terra. Por meio de seu Projeto “Genesis”, ele mostrou que existem partes do mundo que ainda estão “a salvo” e, com o surgimento do Instituto Terra, em Minas Gerais, sua terra natal, nos deu um lindo recado: é possível reconstruir o mundo.

A vida se renova e nós precisamos entender qual o nosso papel nesta renovação. É preciso preservar o mundo e, para isso, devemos olhar, principalmente, para nossas crianças. Qual educação estamos dando a elas? Uma educação que valoriza e respeita a natureza? O que precisamos para mudar esse mundo que está à beira do abismo, marcado pela fome, desigualdade, consumismo e pela autodestruição? Precisamos, basicamente, nos reconectar às nossas raízes. A mudança é possível e a educação pode nos auxiliar nessa caminhada.

Por isso, finalizo com a mensagem que ‘O Sal da Terra’ é um filme para ser visto por crianças, por adultos, por idosos, por todos aqueles que participam do mundo e aqueles que um dia participarão: um filme para sempre.

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O nosso dever no mundo

Qual legado você quer deixar para as próximas gerações?

Já parou para refletir sobre essa questão? Vivemos na inércia do presente e muitas vezes nos esquecemos de pensar sobre o nosso papel na sociedade, e mais, esquecemos de nos questionar sobre o nosso dever no mundo.

Parece que o individualismo e egoísmo tornaram-se características hegemônicas no comportamento das pessoas. Nos fechamos em nossos interesses e assim reduzimos drasticamente as possibilidades de contribuirmos para o desenvolvimento social. Não nos preocupamos com o todo, mas apenas com o nosso umbigo.

Se pensarmos que estamos no mundo de passagem, que nosso tempo de vida é ínfimo se comparado com a história da humanidade, o mínimo que podemos fazer é deixar como legado às próximas gerações algo melhor do que encontramos, afinal, nós partimos, mas o mundo fica e com ele ficam os reflexos de nossas ações em vida.

Talvez não poderemos presenciar os resultados de nossos atos, mas se trabalharmos em prol da humanidade, do meio ambiente e das coisas do mundo como um todo, poderemos ter a certeza que fizemos algo digno, que poderá refletir de forma positiva no futuro.

Vamos pensar no que já realizamos e no que ainda podemos realizar. Vivemos em sociedade, temos que ouvir os outros e reconhecer que somos parte de uma corrente; cada um dá ao mundo um pouco de si e assim, de forma colaborativa, construímos a história humana.

Nós partimos, mas a humanidade segue, o mundo segue. E, por isso, é tão essencial que nos perguntemos: Que mundo  queremos deixar para as próximas gerações?

Sugestões de leitura

  • A Condição Humana (Hannah Arendt)
  • O Cuidado com o Mundo: diálogo entre Hannha Arendt e alguns de seus contemporâneos (Sylvie Courtine-Denamy)