Memórias de infância

Talvez esse seja um dos textos mais especiais deste blog, pois ele fala sobre a infância de uma pessoa maravilhosa que, com sua extrema sensibilidade, me ensinou a amar o mundo. São as memórias de infância do meu pai.

Após ler um texto que publiquei recentemente, ele me presenteou com o relato abaixo.

Compartilho aqui (com a devida autorização) pois trabalho – diariamente – defendendo mais infâncias como a de meu pai: repletas de afeto, natureza, diversidade, e distantes do consumismo.

Que honra poder ler tantas belezas e compreender as raízes que tornam meu pai o homem imenso que é.

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Por Pablo Yirula

O artigo “Do que as crianças precisam?” me trouxe muitas lembranças de infância. Uma infância sem abundâncias materiais, mas muito rica em aprendizagem, em experiências diversas, em convivências (sem restrições) com a natureza e os membros da comunidade.

Alguns fatos ainda estão muito vivos na minha memória, fizeram e ainda fazem parte da minha existência. As lembranças começam quando eu tinha por volta de 4 anos de idade.

Como filho de emigrante ucraniano, passei meus primeiros anos de vida em uma comunidade que estava sob o comando da “matriarca” da família, minha avó Sophia. A família era numerosa e havia um “bando” de crianças na comunidade, que vinham de diversos países: Ucrânia, Alemanha, Rússia, Polônia.

Lembro-me que, apesar da minha pouca idade, sempre acompanhava os mais velhos (que deviam ter por volta de sete anos de idade!). Vivíamos em consonância com a natureza, reconhecíamos os passarinhos pelo canto, conhecíamos os peixes que nadavam no rio pouco profundo, de águas claras e transparentes. Ficávamos horas observando os movimentos destes peixes, sem entender como conseguiam viver dentro da água sem se afogar, já que nós aguentávamos prender a respiração embaixo d’água somente por um curto tempo!

Os adultos ensinavam, especialmente para os meninos, as diferentes línguas faladas na comunidade e também a matemática. Esta última abrangia e esclarecia muitos “segredos” que a natureza e o universo escondiam a olhos nus.

Na escola, nos comunicávamos uns com o outros aprendendo o idioma das diferentes culturas: falávamos alemão, ucraniano, polonês, russo. O espanhol, língua do país que nos acolheu (a Argentina), era chamada de “língua nacional” e fazia parte da matéria principal. Ela que unificava o convívio entre tantos povos diferentes.

A vida fluía com liberdade e uma inocência sem qualquer desejo de consumo; não existia o desejo de possuir mais do que o outro. Os brinquedos eram fabricados por nós mesmos! Brincávamos com cavalos feitos de vara de árvore e charretes em miniatura. Vivíamos em contato com a terra, que tinha cor forte, vermelha! Era muito bom senti-la sob nossos pequenos pés descalços.

Jogávamos futebol com uma bola feita de pano, gritávamos de felicidade quando alguém fazia um gol, sem que outros se sentissem, por isso, perdedores. Deitávamos na grama de barriga pra cima, todos juntos, formando um círculo, e observávamos o céu com seus milhões de pontinhos cintilantes que se chamavam “estrelas”! Víamos as “manchas” das galaxias.

Alguns nos falavam que esses pontinhos luminosos no céu eram as almas dos mortos. Outros, porém, nos explicavam o que eles realmente significavam. Passávamos a noite nos perguntando como poderia ser o universo, sem entender com clareza essa palavra.

Nossas dúvidas despertavam uma curiosidade enorme, queríamos desvendar o verdadeiro significado do universo. Eu lembro, com muita clareza, que alguém nos explicava como funcionava nosso sistema solar, escutei pela primeira vez, com 6 anos de idade, o nome de Albert Einstein.

Construíamos nossos “telefones” com duas latinhas, um furo no meio e uma linha de algodão (que pegávamos escondida dos olhos da mãe ou da vovó). Era um prazer imenso escutar, a uma distância de 10-15 metros, a voz do nosso interlocutor! Surgiam novamente muitas perguntas sobre como isto podia acontecer, até que nosso “velho professor” nos explicava porque isto acontecia. Até hoje lembro o nome desta pessoa que nos ensinou tantas coisas maravilhosas, nos introduzindo em um mundo cheio de segredos, porém com tantas explicações.

Era o Sr. Jacob Würgles. Acho que era de origem suíça. Ele fabricava rádios e nos fazia escutar emissoras de outros países pelas ondas curtas; sempre nos explicando que isto acontecia através de ondas eletromagnéticas. Suas explicações eram tão claras que ficávamos de olhos arregalados ao conseguir compreender o porquê das coisas.

Nunca esquecerei  de quando fizemos nossos próprios rádios. Chamávamos de “rádio a galena” que, na verdade, consistia em um diodo (também construído por nós com enxofre e chumbo derretido). Fazíamos a bobina de ressonância, e o Sr. Jacob nos dava um “condensador”, além de nos emprestar fones de ouvido. Algumas vezes conseguíamos escutar ou sintonizar uma emissora de rádio ou escutar somente barulhos. Que maravilha! Sabíamos como e porque aconteciam as coisas, nada era segredo, tudo se explicava!

Eu me sentia tão atraído por estas maravilhas! O Sr. Jacob também me explicava como funcionavam as válvulas; ganhei até um livro dos anos 1939 sobre o assunto. Tenho este livro até hoje. Que belas lembranças!

Este senhor era um sábio! Ele também nos ensinou a usar a régua de cálculo (a máquina de calcular da época). Com esta régua fazíamos multiplicação, divisão, elevávamos a potência, calculávamos raiz quadrada, funções trigonométricas. Sempre tudo muito bem explicado e com a paciência de alguém que transmitia conhecimentos sem pedir nada em troca.

O Sr. Jacob morava sozinho, em meio a livros, rádios, fios. Era um “eremita”. Nunca soube porque levava uma vida dessa maneira. Alguns falavam que era um nazista que vivia com outra identidade. Só sei que seus ensinamentos mudaram a vida de muitos de nós.

Entre meus 7 ou 8 anos, ganhei um pequeno livro com a teoria da relatividade de Einstein, devo ter lido infinitas vezes sem compreender 1% do que lia, mas sabia praticamente de cor o conteúdo daquele livrinho.

Einstein virou o meu “Deus”, inclusive ate hoje sou fã dele como cientista. Tenho tudo o que pude e posso adquirir sobre ele! Livros, quadros com fotos em minha parede, etc. Só que hoje entendo um pouquinho melhor a profundidade da sua teoria. Quando fiquei sabendo que ele tinha morrido, em 1955, fiquei triste durante muitos dias, olhando a fotografia dele na capa do livro que eu tinha.

Um outro fato que me marcou muito foi observar  – nas noites claras – a passagem do satélite “sputnik”, lançado pelos russos. Ficávamos naquela mesma posição em que observávamos as estrelas e os planetas e, assim, víamos aquela luz que se deslocava rapidamente no céu e que emitia um sinal de “ Pip, pip…”. Que coisa mais extraordinária! O Sr. Jacob tinha um rádio com a frequência que captava este sinal. Que maravilha, que sensação de … não sei explicar.

Como éramos felizes, sem saber o significado de felicidade! Esta é uma conclusão que tiro hoje, ao relembrar meu passado. Não tínhamos ideia do que era consumismo, nos sentíamos felizes sabendo que no dia seguinte teríamos tantas coisas novas para aprender!

Festas de aniversário não eram para ganhar presentes. Eram encontros muito especiais. Nesses dias, as mães convidavam toda turma, meninos e meninas. Ordenhávamos o leite da melhor vaca, se raspava em cada casa um pouco de chocolate, de uma barra especialmente comprada para essa data. Então, mexíamos o leite quente que derretia o chocolate! Era uma grande festa! Aguardávamos com ansiedade o aniversário de alguém da colônia para saborear esse delicioso chocolate, que vinha acompanhado por um pedaço pão, feito no forno da própria casa. Que saudades!

Gostaria de continuar contando muitas outras lembranças, estão todas guardadas na minha mente, porém daria um livro muito extenso. Os detalhes permanecem vivos!

As crianças, olhando para minha retrospectiva pessoal, precisam de liberdade! Viver em contato com a natureza, aprender a língua para se comunicar e se informar, apreender matemática para entender muitos dos “segredos” do universo. Precisam do carinho de uma família. Precisam de um bom orientador, um professor, um guia. Precisam de cuidado!

Foto: Flickr

Alimentos orgânicos na merenda escolar

Entre os dias 10 e 13 de junho o Pavilhão da Bienal do Ibirapuera, em São Paulo, recebeu o 11º Fórum Internacional de Agricultura Orgânica e Sustentável, consolidado como o mais importante evento da América Latina para pensar o setor orgânico e agroecológico.

Com 122 expositores, o Fórum busca, além de mostrar em primeira mão o que o mercado oferece em termos de produtos e serviços, criar um espaço para debates que visam pensar o futuro dos orgânicos no Brasil e no mundo, com foco não apenas em tendências de mercado, mas também em políticas públicas, como é o caso da Lei 16.140/2015, sancionada em março deste ano pelo prefeito Fernando Haddad e que estabelece a priorização da compra de orgânicos na alimentação escolar do Município de São Paulo.

photoConsiderada um grande avanço não só para a área da saúde, mas também para a educação, economia e meio ambiente, a nova lei é resultado de um trabalho conjunto, articulado pela Plataforma de Apoio a Agricultura Orgânica, constituída por diversas organizações da Sociedade Civil, e abraçado pelo poder público, pelas cooperativas de agricultores familiares e por demais envolvidos e interessados no tema. O processo de regulamentação da lei, que tem prazo de 180 dias, deve ser concluído em meados de setembro.

A nova lei é de extrema importância, ao passo que impacta diretamente as crianças, contribuindo para seu desenvolvimento pleno e saudável. A qualidade da alimentação, como indica a própria Organização Mundial da Saúde (OMS), está intimamente relacionada ao aparecimento ou prevenção de doenças e, inclusive, ao desenvolvimento cognitivo e emocional. Crianças com dietas equilibradas e saudáveis saberão dar valor ao alimento, respeitarão a natureza e poderão reproduzir hábitos saudáveis às futuras gerações.

:. Sobre o debate

No dia 10/06/15, especialistas de diferentes áreas se reuniram no Pavilhão da Bienal para discutir os impactos diretos da agricultura orgânica na saúde, educação, meio ambiente e economia. Esta percepção holística do tema é fundamental, pois comprova a urgência em reavaliarmos os hábitos alimentares adotados (e naturalizados) por grande parcela da população e, mais do que isso, os impactos destes hábitos para as novas gerações.

Saúde

O que a criança está ingerindo para formar e desenvolver seu sistema nervoso central e imunológico’? Com essa pergunta, a nutricionista clínica Denise Carreiro evidenciou a importância da boa alimentação na infância. “Entre o 3º mês de gestação e os 18 meses, o cérebro está em plena formação e desenvolvimento, por isso, é tão importante que as crianças consumam comida de verdade”.

A diferença entre a ‘comida de verdade’ e a ‘comida industrializada’ foi o fio condutor da fala da especialista, que citou a ligação direta entre a má alimentação (e a consequente falta de nutrientes) e o surgimento de doenças crônicas não transmissíveis e, até mesmo, transtornos como hiperatividade e déficit de atenção: “Se dermos os nutrientes necessários às crianças, não haverá necessidade alguma de darmos ritalina ou antidepressivos a elas”.

A nutricionista enfatizou, porém, que esses nutrientes só podem ser encontrados de forma plena em alimentos orgânicos, que não tiveram qualquer contato com agrotóxicos ou demais químicos, e ela reconhece: “O brasileiro, antes de não comer orgânicos, não tem o hábito de comer frutas, verduras e legumes. Primeiro é preciso ensinar o brasileiro a comer comida de verdade e, depois, introduzi-lo aos orgânicos”.

O desafio é grande e precisa ser endereçado o quanto antes, já que dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam um aumento de 600% nos casos de doenças crônicas não transmissíveis no mundo, associadas à alimentação inadequada.  Frente a esses dados, a OMS alerta que os filhos deverão viver menos do que os seus pais – e com menor qualidade.

Educação

Para transformar esse cenário, a educação aparece como espaço promissor. A criança é indutora de transformações e, se desde cedo, for apresentada a novas possibilidades alimentares, teremos a chance de reverter a crise alimentícia que atinge não apenas o nosso país, mas o mundo.

Foi pensando neste potencial transformador da educação que o Instituto 5 elementos desenvolveu o projeto ‘Dedo Verde na Escola’, que teve aplicação piloto nas EMEIs Escola de Educação Infantil Dona Leopoldina e Ricardo Gonçalves, com financiamento de FEMA – Fundo Especial de Meio Ambiente de São Paulo. O projeto, coordenado pela pedagoga Mônica Pliz, consiste em implementar hortas orgânicas pedagógicas nas escolas e está sendo discutido pelo GT que trabalha na regulamentação da Lei 16.140/2015, para que chegue a toda rede municipal de ensino.

Mônica afirma que o projeto demanda mudança de postura, que começa no momento em que a comunidade escolar passa a enxergar o espaço da escola de forma diferente, entendo que ali pode e deve entrar mais vida. “Hoje as escolas reproduzem os espaços urbanos, são cinzas e duras, não acolhem as pessoas ou demais seres vivos. Mesmo nas escolas que têm parques, os alunos não podem brincar  na natureza, pois irão se sujar”.

Isso os distancia da natureza de uma forma total e absoluta e o potencial transformador da escola se perde. “As hortas orgânicas propiciam a aprendizagem sobre os ciclos da natureza e despertam na criança o respeito aos seres vivos; crianças que antes matavam insetos passam a entender que eles são essenciais para as hortas e, portanto, para o alimento que irão ingerir na hora do almoço”. Segundo Mônica, o Projeto Dedo Verde, que inclui também a construção de terrarios, composteiras e minhocarios, tem um impacto transformador, inclusive, nas relações interpessoais, que ficam mais amorosas, respeitosas e pacientes.

Meio ambiente

Dois produtores orgânicos também deram seus depoimentos. Fernando Ataliba, do Sitio Catavento, é militante do movimento orgânico e está nesse mercado há mais de 20 anos. Ele trouxe ao debate reflexões sobre os impactos da agricultura no meio ambiente e ressaltou que a agricultura tradicional, que funciona em grande escala, desmatando, usando grandes máquinas e utilizando insumos químicos, contribui para a alteração do ciclo das aguas, resultando, inclusive, em crises hídricas, tal qual vivenciamos atualmente. Na agricultura orgânica, o solo, por sua vez, é vivo, e as características são praticamente iguais as das florestas nativas: “A agricultura orgânica tem uma postura humilde frente à natureza, ela venera os mecanismos naturais e aprende com eles”.

Economia

Nelson Krupinski, da Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre (COOTAP), que reúne aproximadamente 2mil famílias agricultoras, afirmou que o mercado orgânico é promissor e está crescendo. A COOTAP é a maior produtora brasileira de arroz orgânico do Brasil e fornecedora de produtos para alimentação escolar de várias cidades brasileiras. Em São Paulo, atende 20 prefeituras, inclusive, a capital. A ideia é que esse movimento se expanda e leis como a 16.140/2015 favorecem esse fortalecimento. Além de impactar diretamente a saúde das crianças da rede municipal de ensino, a lei impacta a geração de renda e manutenção do homem no campo.

Departamento de Alimentação Escolar e a compra de orgânicos

No dia 11 de junho, segundo dia de debate sobre o tema, o Departamento de Alimentação Escolar (DAE) expôs o trabalho que vem desenvolvendo junto à rede municipal de ensino, que contempla aproximadamente 1 milhão de crianças (O Ensino Médio não entra nesta conta, pois está sob gestão do Governo do Estado).

Danuta Chmielewska, assessora do DAE, contou aos presentes que produtos in natura já contemplam grande parte das compras realizadas pelo departamento e que, após a Lei nº 11.947, aprovada em 2009, as compras realizadas diretamente com agricultores orgânicos foi favorecida. A lei de 2009 estabelece que pelo menos 30% de todo o recurso do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para alimentação escolar deve destinar-se à compra direta de produtores da agricultura familiar.

Com isso, em 2012, o DAE realizou a primeira compra deste caráter e, desde então, vem articulando estratégias para tornar os pratos das crianças 100% orgânicos. Em 2012, 1% do FNDE destinou-se a compra direta da agricultura familiar e, em 2014, 17% dos recursos foi destinado para esse fim. Para 2015, a estimativa é que 28% dos recursos sejam direcionados à agricultura familiar. Um grande avanço que certamente crescerá com o apoio da legislação.

Para o DAE, porém, o alimento que chega a escola deve ir além do prato, entrando também nas discussões em sala de aula. Assim, já existem conversas para que as escolas reconheçam e valorizem o processo da agricultura familiar e incluam o tema em suas práticas pedagógicas.

‘O Sal da Terra’ – Um filme para sempre

A primeira vez que ouvi Sebastião Salgado ele conversava com o jornalista Roberto D’avila. Parei tudo o que eu estava fazendo para me concentrar naquele homem de sobrancelhas brancas e tão expressivas. Cada frase soou como um presente e, depois de ouvi-lo, o meu amor pela vida ficou um tantinho maior.

Eu já conhecia o trabalho de Sebastião, mas nunca tinha escutado sua voz.  Meus olhos derramaram lágrimas e compreenderam o motivo da intensa beleza de seus registros: ele fotografa com o coração e tem como grande auxiliar a vastidão de sua alma. Um poeta de olhares profundos, que fala sobre a vida e suas tantas faces, ora maravilhosas, ora devastadoras.

Sebastião Salgado – Iguana-marinha (detalhe), Galápagos, 2004.

Sebastião Salgado – Iguana-marinha (detalhe), Galápagos, 2004.

A forma como Sebastião traduz o mundo nos coloca em nosso devido lugar. De maneira sensível e extremamente respeitosa, ele adentra comunidades de humanos, macacos, morsas, crocodilos, tartarugas e nos reconecta às nossas raízes. Viemos todos de uma mesma célula, somos uma grande comunidade, que está vinculada pela história da origem da vida.  Mas raramente nos lembramos disso.

Para Sebastião Salgado, que já esteve entre tantos grupos de animais, o humano é o mais cruel e feroz de todos; coloca-se como ‘principal’ dentro do cenário do mundo e se vê no direito de destruí-lo. Devasta florestas, polui rios, destrói seus semelhantes, extingue outras espécies, num movimento claro de esquecimento: não nos vemos como parte da natureza e acreditamos ser superiores a uma árvore ou a uma iguana. Doce ilusão.

Estamos todos juntos nesse planeta e devemos respeita-lo, pois ser humano também é ser terra, água, fogo e ar. A vida humana está intimamente ligada a todas as outras formas de vida: uma formiga, uma árvore e uma onça têm absolutamente tudo a ver conosco. Mas nos desligamos desse pensamento e nos tornamos brutais e ferozes.

No documentário “O Sal da Terra”, que conta a história da vida e obra de Sebastião Salgado, esse olhar nos acompanha o tempo inteiro. E, por isso, merece visto. É um recado para a humanidade. E essa tem sido a grande herança dos projetos de Sebastião: por meio de sua fotografia ele nos prova que a humanidade está à beira do abismo; não conseguimos resolver o problema da fome, realizamos as mais frias e sanguinárias guerras, arrancamos plantas e animais de seu habitat e, nesse movimento, provocamos nossa autodestruição.

Após as tantas denúncias que realizou ao longo de sua carreira, Sebastião declarou não ter mais forças, nem vontade, de continuar. Muitas de suas missões concentraram-se na tragédia humana e ele retratou as mais inimagináveis atrocidades (Veja aqui a obra completa do fotógrafo).

Exatamente por ter presenciado, ao longo de tantos anos de trabalho, tragédias que feriram sua alma, Sebastião decidiu voltar ao ofício, agora com uma linda homenagem ao Planeta Terra. Por meio de seu Projeto “Genesis”, ele mostrou que existem partes do mundo que ainda estão “a salvo” e, com o surgimento do Instituto Terra, em Minas Gerais, sua terra natal, nos deu um lindo recado: é possível reconstruir o mundo.

A vida se renova e nós precisamos entender qual o nosso papel nesta renovação. É preciso preservar o mundo e, para isso, devemos olhar, principalmente, para nossas crianças. Qual educação estamos dando a elas? Uma educação que valoriza e respeita a natureza? O que precisamos para mudar esse mundo que está à beira do abismo, marcado pela fome, desigualdade, consumismo e pela autodestruição? Precisamos, basicamente, nos reconectar às nossas raízes. A mudança é possível e a educação pode nos auxiliar nessa caminhada.

Por isso, finalizo com a mensagem que ‘O Sal da Terra’ é um filme para ser visto por crianças, por adultos, por idosos, por todos aqueles que participam do mundo e aqueles que um dia participarão: um filme para sempre.

Escolas verdes: o mundo precisa delas

De forma crescente vemos surgir, ao redor do mundo, movimentos que buscam propor novos modelos educacionais. O grande questionado é o modelo ‘bancário’ de ensino, que foi definido por Paulo Freire como aquele modelo que consiste numa educação repressora, em que o educador deposita conteúdos no educando, sem reconhece-lo como sujeito autônomo.

Questionar esse modelo é necessário. Uma educação que não faz do aluno protagonista de seu próprio aprendizado jamais será transformadora.

O educador deve promover encontros, instigar, despertar a curiosidade sem, jamais, entregar fórmulas prontas e fechadas: é preciso abrir pontes para a reflexão e para a experiência. Só assim o jovem saíra da escola com criticidade e autonomia suficientes para compreender seu papel no mundo.

Mas, como criar modelos de aprendizagem que consigam dar à educação a capacidade de formar sujeitos livres, autônomos e capazes de transformar a comunidade em que estão inseridos? O designer canadense John Hard nos dá a resposta, com a sua “Green School”, fundada em 2006, em Bali, na Indonésia.

green-school-baliConhecida como a ‘escola mais verde do mundo’, a Green School oferece uma educação natural, holística e centrada nos alunos. Possui um currículo que combina o padrão acadêmico com aprendizagem experimental.

Na escola, os alunos, vindos de diversas partes do mundo, também têm acesso a currículos de Estudos Verdes e de Artes Criativas. A Green School prepara os alunos para serem pensadores críticos e criativos, confiantes para defender a sustentabilidade do mundo e do seu ambiente.

A estrutura física da escola é um dos grandes modelos de arquitetura sustentável do mundo. Toda feita em bambu, 80% da energia elétrica consumida é captada através de painéis solares. John Hardy, e sua esposa, Cynthia Hardy, moram em Bali há mais de 30 anos e reconheceram no local uma oportunidade única para criar algo verdadeiramente inspirador e fora das limitações estruturais, conceituais e físicas de muitas escolas tradicionais.

A Green School é a grande referência de escola verde no mundo, mas não a única. Nos EUA, por exemplo, já são 118 escolas que seguem esse modelo de aprendizagem. No Brasil, porém, o modelo ainda está emergindo. A primeira escola verde brasileira foi instalada na zona oeste do Rio, em 2011. Resultado de uma parceria público-privada, o Colégio Estadual Erich Walter Heine está localizado no bairro de Santa Cruz, que possui um dos IDHs mais baixos da capital.

Com painéis solares, reaproveitamento da água da chuva, iluminação natural, ecotelhado e área para reciclagem, a escola mostra que o modelo inovador já está dando frutos: alunos já estão levando as práticas sustentáveis para o dia a dia de suas famílias; estão, assim, disseminando os valores da sustentabilidade em suas comunidades e têm tudo para, no futuro, se tornarem grandes líderes verdes, que serão capazes de endereçar problemas que hoje afetam seriamente o nosso planeta, como o aquecimento global e a crise hídrica.

A escola foi a primeira da América Latina a ganhar o selo Leed School, que lhe dá reconhecimento internacional de escola sustentável. Também é importante ressaltar que essa foi a primeira escola brasileira a buscar o LEED e a primeira escola pública do mundo a tomar essa iniciativa.

Para ler mais sobre Escolas Verdes, acesse os links:

Sustentabilidade: por uma nova educação, por um novo modo de vida.

crianca-naturezaA sustentabilidade é um tema importante a todos que queiram permanecer neste planeta  – no presente – e garantir um futuro possível às próximas gerações. É um tema amplo, que abrange não somente questões ambientais, mas sociais e econômicas.

Trata-se de um triângulo que opera em harmonia e, se provocarmos desequilíbrio entre essas três esferas, teremos crises extremamente graves e desafiadoras; inclusive, já estamos vivenciando algumas: crise hídrica, temperaturas extremas, enchentes, verticalização intensa das cidades e pouco espaço para o verde.

Será sustentável viver num mundo que, cada vez mais, preza pelos interesses econômicos sem priorizar as demais esferas tão (ou mais) importantes à vida na terra?

Precisamos cuidar de nossa morada e trazer a sustentabilidade para o centro da vida de todos, ela deve estar no dia a dia das pessoas, deve ser um modo de vida. Como cidadãos, precisamos cuidar do mundo que nos acolhe há tantos milhões de anos e deixa-lo habitável aos nossos filhos e netos.

Mas, como incorporar essa visão da sustentabilidade no modo de vida – e nos hábitos – das pessoas? O ideal é que se tenha uma educação voltada à valorização da natureza, da justiça e da igualdade, desde cedo. Crianças devem compreender seu papel no mundo e descobrir as formas de torná-lo um lugar melhor a todos.

Já existem muitas iniciativas que apresentam propostas interessantes nesse sentido. Uma delas é o projeto “Pequeno Sustentável”, um portal na internet sobre sustentabilidade e formas de (re)pensar a educação junto com as crianças e adolescentes.

Por meio de notícias, dicas, vídeos, fotos, artes, discussões, conversas e questionamentos, o site propõe importantes reflexões sobre os temas abordados e convoca pessoas de todas as idades para a construção de um mundo melhor. Os conteúdos são atualizados diariamente pela equipe, e também abre espaço para publicações e notícias de leitores de qualquer lugar do planeta.

Realizar ações e atividades sustentáveis, participar de eventos e movimentos socioambientais, se reunir para trocar ideias, (re)pensar a educação e multiplicar boas práticas, também fazem parte do projeto.

Entre os valores essenciais do projeto, estão: soliedariedade, cidadania, cultura de paz, consciência socioambiental, entre outros.

Se você se interessou pela iniciativa, tem interesse em participar ou ter acesso aos conteúdos divulgados, visite o site e curta a página no facebook.

 

 

 

 

Criança e Natureza: pelo caminho das toras

“Tem caracol, tem minhoca, tatu-bola, taturana

Tinha uma borboleta e um bicho-folha

E o ‘Gui’ até queria que tivesse um bicho-papão, mas não tinha não

Caminho longo de água, cheio de bambus e pedras

Dá pra andar descalço nas toras

E dizem que no final, das toras tem um touro

E até, cheirinho de café.”

O trecho acima é da música ‘Caminhos’, feita em 1993 por Gustavo Kurlat e por seus alunos, na época com 6 anos. Ela nasceu a partir de uma atividade cujo nome era o mesmo da música. Nessa atividade, as crianças foram convidadas a construírem um caminho e a colocarem nele tudo aquilo que desejassem.

O caminho ficou pronto após muitas mãos (zinhas) trabalharem em conjunto e, até hoje, existe, para contar história e para permitir que outras crianças passeiem descalças nas toras e descubram as borboletas, tatu-bolas e taturanas.

criança-naturezaFui uma das crianças que participaram da construção desse caminho e foi essa vivência, entre tantas outras, que plantou em mim a certeza de que sem natureza eu não poderia ser, não poderia acontecer e não conseguiria viver.

Assim foi para mim e, por isso, acredito na ideia de que é preciso deixar as crianças brincarem ao ar livre, deixar que sintam os cheiros e as texturas, os gostos e as cores da natureza. Deixar que “escutem a cor dos passarinhos”, como diria o poeta Manoel de Barros.

Vivências ao ar livre são fundamentais não apenas durante a infância, mas ao longo de toda a vida. Se cuidarmos de nossa relação com a natureza desde cedo, teremos a possibilidade de nos tornarmos adultos mais sensíveis às coisas do mundo, que respeitam e amam a natureza e tudo o que dela faz parte; adultos que prezam pela preservação da vida e por toda a sua diversidade.

Estar em contato com aquilo que é natural nos faz plenos e inteiros e, para uma criança, que está desenvolvendo cognições e construindo referenciais, sentir-se inteira é fundamental, pois isso lhe dará segurança e a possibilidade de vivencias únicas, capazes de marcar sua vida, e de influenciar suas escolhas futuras.

A natureza nos ensina os mais preciosos valores e nos transmite as mais genuínas sensações. É do contato com ela que entendemos o significado das palavras “preservação”, “respeito”, “tranquilidade”, “beleza”, “cuidado” e “amor”. Tudo isso está na natureza, tudo isso está em nós, mas, se nos desconectarmos e nos distanciarmos de nossa essência, corremos o risco de ficarmos frios, maniqueístas e superficiais.

É importante que guiemos nossas crianças pelo caminho das toras, afinal, a natureza é raiz – a nossa raiz – e devemos rega-la, acaricia-la e ama-la. Sempre e mais!

Sites bacanas sobre o tema:

Slow Kids: crianças e adultos em sintonia com a natureza e com a arte

Com programação gratuita para pais e filhos, o evento no Parque Burle Marx estimula a desaceleração, o contato com a natureza e a sustentabilidade.

No domingo, dia 09 de novembro, das 14h às 18h, o Parque Burle Marx, em São Paulo, receberá pais e filhos para participarem de mais uma edição do Slowkids. Uma série de atividades, brincadeiras e oficinas está programada, além do show “Brasileirinhos”, do músico Paulo Bira, com composições inspiradas pela fauna brasileira. A proposta do SlowKids é desacelerar as crianças do universo tecnológico e incentivar brincadeiras ligadas à natureza e a criatividade ao lado dos pais.

Slow Kids: crianças e adultos em sintonia com a natureza e com a arte

A programação para as crianças é bem variada. Além do show, que começa às 16h, as oficinas e atividades convidam as crianças a brincarem com a natureza e se aproximarem da arte e suas diversas expressões.

Confira as atividades que acontecerão durante toda a tarde:

Silk em camisetas: o artista Aleba irá silkar camisetas com desenhos  que passeiam pelo universo das bicicletas;

Roda de Leitura: sentadas sob  árvores,  as crianças poderão ter acesso à livros Mediadores de leitura as acompanharão nessa viagem ao universo das letras.

Ser Criança é Natural, por Instituto Romã: as crianças brincam para descobrir o mundo. As crianças farão passeios monitorados de aproximação e contato com a natureza. Brincando com a natureza cria-se vínculos com o mundo, além de um sentimento de respeito pelo meio-ambiente;

Arte para Bebês, por Susana Soares: nesta oficina, bebês e crianças de 01 a 05 anos farão experimentações com tintas naturais. Além de favorecer o desenvolvimento sensorial e motor, essa vivência possibilita a exploração de materiais atóxicos, ao mesmo tempo em que estimula o estabelecimento de laços afetivos;

Cara de quintal: um ambiente em sintonia com a natureza, o espaço é criado com elementos que permitem a imaginação voar solta. A partir daí, performances, música, e muita interação transformam o momento desta intervenção;

Oficina de troca de brinquedos: uma oportunidade única de aproximar as crianças, praticar o desapego e compartilhar suas experiências e seus brinquedos;

Brincadeiras tradicionais, por Instituto Brincante-Brincantinho: os educadores trazem diversas cantigas e brincadeiras de roda tradicionais da cultura brasileira;

Todas as ações programadas levam não somente diversão às crianças, mas estimulam o pensamento sobre o meio ambiente, a coleta de resíduos recicláveis, a criatividade e as relações sociais.

Para completar a tarde, uma área com food bikes será instalada no parque. A deliciosa Padaria Alegria, por exemplo, terá sua food bike por lá; além dela, o Slow Kids contará com o Bike Café ,Tangerine Petit de papinhas orgânicas, Bolo Cherrie, de bolinhos individuais); Made in Natural, de snacks naturais e orgânicos; e a Bela do Dia, de lindos arranjos de flores (não haverá venda de bebida alcoólica). O Slow Kids faz parte da 8ª. Semana Ticket de Cultura e Esporte.

Sobre o SlowKids

O SlowKids surgiu da parceria de Tatiana Weberman, diretora da agência Respire Cultura e idealizadora do SlowMovie, e Juliana Borges, diretora de produção da produtora Maria Farinha Filmes, com o intuito de incentivar a integração – criança e natureza, tendo como base os conceitos de sustentabilidade e desaceleração. As atividades levam cultura e arte ao ar livre para crianças de grandes centros urbanos, como São Paulo. Hoje na terceira edição, o Slowkids é realizado em parceria com o Instituto Alana, e já aconteceu no Parque da Água Branca e no Museu da Casa Brasileira.

Sobre o Instituto Alana

O Instituto Alana é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, que reúne projetos na busca pela garantia de condições para a vivência da plena da infância. Criado em 2002, o Instituto conta hoje com sete projetos próprios e quatro com parceiros, e é mantido pelos rendimentos de um fundo patrimonial desde 2013. Tem como missão “honrar a criança”.

Sobre a produtora Respire Cultura

Foi criada com o objetivo de realizar eventos culturais que, por meio de atividades e experiências artísticas, oferecem ao público uma nova forma de relacionamento entre pessoas, marcas e o espaço público. Conectada à sustentabilidade e à vida, a Respire Cultura tem como missão redescobrir maneiras de articular projetos culturais que dialoguem com a cidade. Mais informações: http://www.respirecultura.com.br

Tatiana Weberman

Tatiana Weberman é produtora cultural e, desde 2011, desenvolve em São Paulo um trabalho de ocupação do espaço público através de arte. Criou o SlowMovie, experiência  de cinema ao ar livre com piquenique, música e arte, que já está indo para sua sexta edição e conta hoje com um público de mais de duas mil pessoas. Desenvolveu, em parceria com o Instituto Alana, o SlowKids, evento para crianças em parques e praças de São Paulo com o mesmo propósito do SlowMovie, porém com uma programação infantil. Seu foco é sempre trazer experiências para espaços públicos, conectando as pessoas e a cidade.

Juliana Borges

Coordena a  produção da Maria Farinha Filmes, produtora audiovisual  que tem como foco contar impactantes e inspiradoras histórias que provoquem transformação.  Desde o início da Maria Farinha em 2008 Juliana assina a direção de produção das seguintes obras: o polêmico documentário “Criança , a Alma do Negócio” ,  o longa metragem documental internacional “Muito Além do Peso”, selecionado para 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2012. Nesse ano estreou surpreendente longa documental “Tarja Branca, a revolução que falta”, onde também, dirigiu a produção.  No momento trabalha na produção do filme do Território do Brincar,  dirigido pelos cineastas David Reeks e Renata Meirelles que será lançado em 2015.

Programação:

14h às 18h – oficinas e atividades simultâneas (live silk em camisetas, brincadeiras de roda, leituras de histórias, troca de brinquedos, passeios pelas árvores e etc.)

14h às 18h – food bikes

16h às 17h – Show “Brasileirinhos”, do cantor Paulo Bira

18h – encerramento

slow-kids