Memórias de infância

Talvez esse seja um dos textos mais especiais deste blog, pois ele fala sobre a infância de uma pessoa maravilhosa que, com sua extrema sensibilidade, me ensinou a amar o mundo. São as memórias de infância do meu pai.

Após ler um texto que publiquei recentemente, ele me presenteou com o relato abaixo.

Compartilho aqui (com a devida autorização) pois trabalho – diariamente – defendendo mais infâncias como a de meu pai: repletas de afeto, natureza, diversidade, e distantes do consumismo.

Que honra poder ler tantas belezas e compreender as raízes que tornam meu pai o homem imenso que é.

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Por Pablo Yirula

O artigo “Do que as crianças precisam?” me trouxe muitas lembranças de infância. Uma infância sem abundâncias materiais, mas muito rica em aprendizagem, em experiências diversas, em convivências (sem restrições) com a natureza e os membros da comunidade.

Alguns fatos ainda estão muito vivos na minha memória, fizeram e ainda fazem parte da minha existência. As lembranças começam quando eu tinha por volta de 4 anos de idade.

Como filho de emigrante ucraniano, passei meus primeiros anos de vida em uma comunidade que estava sob o comando da “matriarca” da família, minha avó Sophia. A família era numerosa e havia um “bando” de crianças na comunidade, que vinham de diversos países: Ucrânia, Alemanha, Rússia, Polônia.

Lembro-me que, apesar da minha pouca idade, sempre acompanhava os mais velhos (que deviam ter por volta de sete anos de idade!). Vivíamos em consonância com a natureza, reconhecíamos os passarinhos pelo canto, conhecíamos os peixes que nadavam no rio pouco profundo, de águas claras e transparentes. Ficávamos horas observando os movimentos destes peixes, sem entender como conseguiam viver dentro da água sem se afogar, já que nós aguentávamos prender a respiração embaixo d’água somente por um curto tempo!

Os adultos ensinavam, especialmente para os meninos, as diferentes línguas faladas na comunidade e também a matemática. Esta última abrangia e esclarecia muitos “segredos” que a natureza e o universo escondiam a olhos nus.

Na escola, nos comunicávamos uns com o outros aprendendo o idioma das diferentes culturas: falávamos alemão, ucraniano, polonês, russo. O espanhol, língua do país que nos acolheu (a Argentina), era chamada de “língua nacional” e fazia parte da matéria principal. Ela que unificava o convívio entre tantos povos diferentes.

A vida fluía com liberdade e uma inocência sem qualquer desejo de consumo; não existia o desejo de possuir mais do que o outro. Os brinquedos eram fabricados por nós mesmos! Brincávamos com cavalos feitos de vara de árvore e charretes em miniatura. Vivíamos em contato com a terra, que tinha cor forte, vermelha! Era muito bom senti-la sob nossos pequenos pés descalços.

Jogávamos futebol com uma bola feita de pano, gritávamos de felicidade quando alguém fazia um gol, sem que outros se sentissem, por isso, perdedores. Deitávamos na grama de barriga pra cima, todos juntos, formando um círculo, e observávamos o céu com seus milhões de pontinhos cintilantes que se chamavam “estrelas”! Víamos as “manchas” das galaxias.

Alguns nos falavam que esses pontinhos luminosos no céu eram as almas dos mortos. Outros, porém, nos explicavam o que eles realmente significavam. Passávamos a noite nos perguntando como poderia ser o universo, sem entender com clareza essa palavra.

Nossas dúvidas despertavam uma curiosidade enorme, queríamos desvendar o verdadeiro significado do universo. Eu lembro, com muita clareza, que alguém nos explicava como funcionava nosso sistema solar, escutei pela primeira vez, com 6 anos de idade, o nome de Albert Einstein.

Construíamos nossos “telefones” com duas latinhas, um furo no meio e uma linha de algodão (que pegávamos escondida dos olhos da mãe ou da vovó). Era um prazer imenso escutar, a uma distância de 10-15 metros, a voz do nosso interlocutor! Surgiam novamente muitas perguntas sobre como isto podia acontecer, até que nosso “velho professor” nos explicava porque isto acontecia. Até hoje lembro o nome desta pessoa que nos ensinou tantas coisas maravilhosas, nos introduzindo em um mundo cheio de segredos, porém com tantas explicações.

Era o Sr. Jacob Würgles. Acho que era de origem suíça. Ele fabricava rádios e nos fazia escutar emissoras de outros países pelas ondas curtas; sempre nos explicando que isto acontecia através de ondas eletromagnéticas. Suas explicações eram tão claras que ficávamos de olhos arregalados ao conseguir compreender o porquê das coisas.

Nunca esquecerei  de quando fizemos nossos próprios rádios. Chamávamos de “rádio a galena” que, na verdade, consistia em um diodo (também construído por nós com enxofre e chumbo derretido). Fazíamos a bobina de ressonância, e o Sr. Jacob nos dava um “condensador”, além de nos emprestar fones de ouvido. Algumas vezes conseguíamos escutar ou sintonizar uma emissora de rádio ou escutar somente barulhos. Que maravilha! Sabíamos como e porque aconteciam as coisas, nada era segredo, tudo se explicava!

Eu me sentia tão atraído por estas maravilhas! O Sr. Jacob também me explicava como funcionavam as válvulas; ganhei até um livro dos anos 1939 sobre o assunto. Tenho este livro até hoje. Que belas lembranças!

Este senhor era um sábio! Ele também nos ensinou a usar a régua de cálculo (a máquina de calcular da época). Com esta régua fazíamos multiplicação, divisão, elevávamos a potência, calculávamos raiz quadrada, funções trigonométricas. Sempre tudo muito bem explicado e com a paciência de alguém que transmitia conhecimentos sem pedir nada em troca.

O Sr. Jacob morava sozinho, em meio a livros, rádios, fios. Era um “eremita”. Nunca soube porque levava uma vida dessa maneira. Alguns falavam que era um nazista que vivia com outra identidade. Só sei que seus ensinamentos mudaram a vida de muitos de nós.

Entre meus 7 ou 8 anos, ganhei um pequeno livro com a teoria da relatividade de Einstein, devo ter lido infinitas vezes sem compreender 1% do que lia, mas sabia praticamente de cor o conteúdo daquele livrinho.

Einstein virou o meu “Deus”, inclusive ate hoje sou fã dele como cientista. Tenho tudo o que pude e posso adquirir sobre ele! Livros, quadros com fotos em minha parede, etc. Só que hoje entendo um pouquinho melhor a profundidade da sua teoria. Quando fiquei sabendo que ele tinha morrido, em 1955, fiquei triste durante muitos dias, olhando a fotografia dele na capa do livro que eu tinha.

Um outro fato que me marcou muito foi observar  – nas noites claras – a passagem do satélite “sputnik”, lançado pelos russos. Ficávamos naquela mesma posição em que observávamos as estrelas e os planetas e, assim, víamos aquela luz que se deslocava rapidamente no céu e que emitia um sinal de “ Pip, pip…”. Que coisa mais extraordinária! O Sr. Jacob tinha um rádio com a frequência que captava este sinal. Que maravilha, que sensação de … não sei explicar.

Como éramos felizes, sem saber o significado de felicidade! Esta é uma conclusão que tiro hoje, ao relembrar meu passado. Não tínhamos ideia do que era consumismo, nos sentíamos felizes sabendo que no dia seguinte teríamos tantas coisas novas para aprender!

Festas de aniversário não eram para ganhar presentes. Eram encontros muito especiais. Nesses dias, as mães convidavam toda turma, meninos e meninas. Ordenhávamos o leite da melhor vaca, se raspava em cada casa um pouco de chocolate, de uma barra especialmente comprada para essa data. Então, mexíamos o leite quente que derretia o chocolate! Era uma grande festa! Aguardávamos com ansiedade o aniversário de alguém da colônia para saborear esse delicioso chocolate, que vinha acompanhado por um pedaço pão, feito no forno da própria casa. Que saudades!

Gostaria de continuar contando muitas outras lembranças, estão todas guardadas na minha mente, porém daria um livro muito extenso. Os detalhes permanecem vivos!

As crianças, olhando para minha retrospectiva pessoal, precisam de liberdade! Viver em contato com a natureza, aprender a língua para se comunicar e se informar, apreender matemática para entender muitos dos “segredos” do universo. Precisam do carinho de uma família. Precisam de um bom orientador, um professor, um guia. Precisam de cuidado!

Foto: Flickr