As crianças da feira

Dia de feira. As ruas ganham novas cores e sons, ganham uma diversidade e uma alegria que, por aqui, só vemos, com tamanha intensidade, aos domingos. A feira é um jeito bonito de celebrar a vida e, por isso, sempre descemos, para comer tapioca, comprar flores e também peixe e pimenta. Ao voltar pra casa, porém, não carregamos conosco somente sacolas de compras, mas, principalmente, sorrisos, agrados, olhares e carinho: tudo isso a feira nos dá de presente, para começarmos a semana com o espírito leve e em paz com a vida.

Neste domingo minha atenção voltou-se às crianças da feira. São muitas e, cada uma em sua individualidade, possui diferentes maneiras de vivenciar aquele mundo tão colorido.

pés-feiraExiste uma dupla de garotos que sempre está por lá. São ligeiros e, para eles, a feira é espaço de trabalho e diversão. Ajudam os que vão às compras a carregarem suas sacolas e, com o dinheiro que ganham, compram pastel! Eles também circulam entre as barracas e, vire e mexe, ressurgem entre os toldos listrados, ora com uma laranja nas mãos, ora com uma melancia bem vermelhinha e suculenta. O caminhar deles é de quem conhece bem o chão em que pisam, têm a malemolência que nos faz entender que aquele lugar a eles pertence; são parte da feira e para ela se entregam de corpo inteiro. Que bonito ver a agilidade e esperteza desses garotos. Eles sabem se virar e, todo domingo, estão ali, correndo, com desenvoltura, atrás dos seus sonhos.

Mas, nem todas as crianças sentem-se tão à vontade na feira.

Aquele ruivinho, filho do dono da barraca de grãos, estava bastante emburrado hoje. Sentado em frente à loja do pai, com uma expressão nitidamente aborrecida, parecia aguardar algo que tardaria a chegar. O pai, irritado com a indisposição do filho, pergunta em alto e bom tom: “Por que você não ficou em casa?”. A resposta não veio. Talvez não tenha ficado em casa por que queria passar o domingo com o pai, talvez ele goste da feira, mas, naquele momento, já não estava mais se sentindo à vontade. Aquele espaço, com tantas pessoas estranhas, que não param de chegar, de perguntar, de experimentar e de comprar pode ter contribuído para o aborrecimento do menino, que, por um segundo, deve ter pensado “Por que eu não fiquei em casa?” Agora já era tarde demais.

Por ali também vemos muitas crianças que mostram o desejo de correr entre as barracas, mas, os adultos que as acompanham não parecem felizes com a ideia. O impulso frente às tantas cores e sons é imediato: querem correr em direção daquilo que as encanta! E na feira, é verdade, existem muitos encantos! Ficar parado é difícil. Vemos muitas mães e pais segurando mãos e braços dos filhos, para que não ‘escapem e se percam’. Ao segurar, porém, não seguram somente o corpo da criança, mas também a possibilidade da experiência e da descoberta. Seguram os sonhos!

Outros pais, contudo, deixam suas crianças viverem a feira com mais liberdade: elas ajudam na condução do carrinho, vão até as barracas, escolhem o que querem, chamam os pais para mostrar o que descobriram: se apropriam da feira e, é nítido, sentem-se parte de toda aquela alegria.

A feira é espaço pequeno, mas carrega consigo infinitas histórias e possui encantos que constroem um cenário bonito e acolhedor para as diferentes infâncias que ali se encontram. Todo domingo, crianças trazem ainda mais alegria para esse mundo colorido e nos mostram que, além de comprar legumes e frutas, a feira também é um belo lugar para brincar, correr e se encantar. Entre os lugares que merecem ser vividos pela criança, está a feira: ela nos recebe de braços abertos; é um abraço gostoso em meio à cidade que, tantas vezes, nos diz “não”.

NOTA: Esse texto foi produzido para o módulo “Brincar e a cultura da criança”, ministrado pela educadora Renata Meirelles, no curso de pós-graduação “Infância, Educação e Desenvolvimento Social”, do Instituto Singularidades. A proposta é deixar nascer em nós, adultos, um olhar sensível à infância e, por meio dessa observação cuidadosa e delicada, nos deixar encantar pelo universo (tão rico!) da criança. Precisamos cuidar das crianças a partir do que elas têm a nos dizer: ao observa-las, com atenção e sensibilidade, somos capazes de entender o que elas precisam, o que produzem e o que são. Com esse olhar cuidadoso, entendemos que a criança é encantada pelo mundo e seus detalhes, que ela se entrega, de corpo e alma, a tudo aquilo que realiza. Todos já fomos criança um dia, mas, muitas vezes, nos esquecemos disso. Ao voltarmos nosso olhar à elas, temos a chance de recuperar as belezas da infância e de (re)aprender com elas a sentir e viver o mundo de forma genuína e criativa.

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