Criança, do latim “creare”.

Em uma breve retomada etimológica da palavra ‘criança’, descobrimos que sua origem vem do latim ‘creare’, do mesmo radical que derivam as palavras ‘criação’ e ‘criatividade’. Uma raiz bastante pertinente, que dialoga intimamente com o universo da infância.

Em seu contato com o mundo, as crianças são extremamente imaginativas. Estão, a todo o momento, atentas e curiosas ao seu entorno, numa relação constante de construções e desconstruções. Elas transformam-se em pássaro, monstro e flor, simultaneamente. De uma caixa de papelão, fazem um castelo, inventam histórias para as borboletas e para o sol; criam seus mundos.

Porém, será que nós, adultos, estamos permitindo que as crianças exerçam essa criatividade, que lhes é tão inata, de forma livre e espontânea? Em uma sociedade conduzida pela lógica do capital, essa pergunta é importante e cabe, principalmente, aos grandes centros urbanos, em que a dinâmica do consumo já se naturalizou, influenciando o ritmo de vida de muitos.

Vivemos sob discursos que se direcionam claramente ao consumismo. A ideia central é consumir, descartar, consumir novamente e entrar de cabeça neste ciclo, responsável por alimentar e sustentar indústrias dos mais distintos produtos e serviços.

Dentro desta lógica, deixamos de ser autores e nos tornamos exclusivamente proprietários; usufruímos daquilo que nos é apresentado como necessário e, assim, mergulhamos numa dinâmica consumista. Precisamos estar atentos e questionar se realmente necessitamos de tudo aquilo que o discurso do consumo nos propõe, principalmente quando pensamos nas crianças e em como estamos lidando com a questão do consumismo na infância.

A indústria voltou-se com empenho ao público infantil, principalmente a partir da década de 60, quando estudiosos do marketing perceberam que a construção do consumidor começava ainda na infância e que crianças influenciavam, inclusive, decisões de compra dos adultos.  Estudo realizado em 2015 pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) com mães das 27 capitais apontou que seis em cada dez mães (64,4%) atendem aos apelos dos filhos quando eles pedem algum produto considerado desnecessário, como brinquedos, roupas e doces.

O mercado diz que tais produtos são fundamentais para a vivência de uma infância plena e feliz, e aos educadores (leia-se pais, professores e demais adultos que participam da vida da criança) resta questionar esse discurso da necessidade, apresentado em cada propaganda e embalagem de produto infantil.

Cachorros-robô que latem e pedem carinho; bonecas e suas vozes mecânicas; replicas de celulares, casinhas e comidinhas de plástico. Todos envoltos por embalagens ‘extraordinárias’, carregadas de promessas que levam à ideia da felicidade. São brinquedos com tantas funções, que o manual de instruções se faz necessário, trazendo o passo a passo sobre como utilizá-los.

Além disso, o brinquedo oferecido pela indústria vem repleto de sentidos e significados, intimamente ligados aos valores, símbolos e crenças do mundo dos adultos. Assim, antes de pagarmos pelas imensas embalagens e seus produtos de plástico, precisamos entender o que significa o brincar na vida de uma criança: será que ele ocorre apenas na presença destes brinquedos industrializados?

A brincadeira é a forma como a criança se expressa, como ela descobre o mundo e como descobre a si mesma. Durante o brincar a criança acessa seu imaginário; cria, recria, monta e desmonta, entra em contato com seus sentimentos e vontades; investiga, constrói hipóteses, organiza suas fantasias e exerce a sua criatividade.

Brincar traz a possibilidade de autoria e autonomia, é um percurso necessário e extremamente rico; é a própria linguagem infantil. Ao entregarmos um brinquedo repleto de botões e funções pré-determinadas tiramos a riqueza do percurso, oferecemos o pronto, empobrecendo as possibilidades de criação; a criança vira proprietária e não construtora.

O excesso de brinquedos industrializados também contribui para o distanciamento com os materiais simples que estão presentes ao seu redor, como os elementos da natureza. Com brinquedos extremamente rebuscados em termos de funções e tecnologia, as brincadeiras tendem a limitar-se a espaços internos e, assim, a criança perde a oportunidade de explorar os tantos sentidos que a natureza oferece e que são tão fundamentais ao enriquecimento dos processos de aprendizagem e ao próprio desenvolvimento humano.

A criança, sobretudo entre os 0 e 6 anos, período definido como ‘primeira infância’, precisa de experiências táteis e principalmente, afetivas; são essas as recordações e as vivências que, para ela, serão inesquecíveis. A educadora e antropóloga Adriana Friedmann, em seu livro ‘ Linguagens e Culturas Infantis’ provoca: “A infância é, ou deveria ser, um período de experimentações, sensações, sabores, cores, brincadeiras. Mas, no mundo atual, o que está interferindo para que esta infância não seja vivida de forma plena e saudável?”.

É preciso cuidar para que as crianças não vivenciem somente experiências de ter, que as tornem exclusivamente proprietárias. Elas necessitam de tempo, espaço e liberdade para potencializar sua linguagem mais genuína, que é o brincar. Deixemos que elas criem, e ergam seus próprios mundos.

A escola como espaço para o exercício da criatividade

A capacidade de criar mora em todos nós. A complexidade do cérebro humano nos permite refletir sobre o que nos toca e transformar o meio em que vivemos; somos capazes de criar soluções inovadoras às questões que nos circundam.  Possuímos uma inteligência criativa, que manifesta-se de forma nítida durante os processos de aprendizagem e pode ser vista, como essência do humano, no comportamento das crianças.

As crianças, em sua relação com o mundo, são extremamente imaginativas. Estão, a todo o momento, criando e recriando. Suas falas e perguntas são instigantes; elas saem do senso comum, pegam os adultos de surpresa, trazem reflexões que só podem existir quando há espaço para se expressar livremente, sem amarras ou julgamentos.

A criança nos ensina que para explorar a capacidade criativa é preciso estar livre de pré-conceitos, respeitar o próprio tempo e estar aberto àquilo que o mundo tem a oferecer. Para criar, precisamos nos encantar com o que nos cerca e ter espaço para escutar aquilo que, de mais profundo, vive em nós e, claro, espaço para que possamos manifestar a nossa criatividade.

O processo criativo exige flexibilidade, disponibilidade, paciência, entrega e escuta e, quando valorizado e colocado em prática, nos dá autonomia e autoconfiança, aspectos fundamentais ao desenvolvimento e autoconhecimento. A criação nos empondera perante o mundo e nos torna autores e, por isso, deve ser um exercício constante, em todas as fases da vida, em todos os momentos e situações.

Para uma criança, é mais fácil trazer a criatividade para o dia a dia, pois existe maior liberdade em relação às amarras sociais. Já o adulto está tomado pelos estereótipos sociais e pelos julgamentos morais; vive de acordo com aquilo que a sociedade espera, muitas vezes sem respeitar seu próprio tempo, ou questionar-se se é possível fazer diferente.

Sim, a sociedade – e as instituições – nos moldam e, exatamente por isso, precisamos exercitar nossa criatividade: para inovar o dia a dia e não só, mas a vida em sociedade e as instituições que a regem. Precisamos, portanto, educar nossas crianças para que possam ser agentes autônomos, de transformação.

Educar, contudo, é um desafio inquestionável. O educador deve apresentar o mundo à criança e o mundo, como sabemos, tem algumas regras. Assim, nos perguntamos: como educar sem impor as amarras sociais, já tão assimiladas por nós, adultos?

Ao educar, precisamos lembrar que a educação deve ser libertadora e valorizar a autonomia e a criatividade da criança. É preciso tempo, escuta, delicadeza. A escola – e demais ambientes de convívio da criança – deve proporcionar esse acolhimento, pois assim estará cuidando do desenvolvimento integral do aluno e possibilitando espaços para a expressão da criatividade.

Mas, por que a criatividade é tão importante? Pois nela vive o potencial transformador do ser humano.

Escola como espaço para exercício da criatividade

Para a psicóloga Regina Drumond, o ambiente é um elemento chave no processo de despertar e fazer aflorar o potencial criativo de todo o ser humano, assim, escolas pouco flexíveis, com programações rígidas, professores autoritários, salas de aula fechadas não soam como um ambiente acolhedor, que incentive a criatividade.

É preciso repensar o modelo tradicional de ensino e dar aos alunos a possibilidade de aprendizagem pela experiência, além de espaço para construírem obras das quais serão autores.

Sim. A criatividade é vital; sem ela não nos desenvolvemos, nem como indivíduos nem como sociedade. Se criarmos uma cultura que valorize o processo criativo dentro das instituições de ensino, poderemos fazer a diferença no mundo; tornando estas crianças e jovens protagonistas de suas vidas e escolhas e capazes de transformar suas comunidades em lugares mais amigáveis e justos.

Referência:

Este texto foi escrito para o Blog WPensar, parceiro do Educomunicação.

Parceria Educomunicação+WPensar

criança-criatividadeAcreditamos que trabalhar em rede é essencial. Pessoas que compartilham valores comuns podem e devem pensar juntas. Por isso, selamos uma parceria com o Blog WPensar, canal para disseminação de informações voltado a educadores.

Estamos certos que parcerias como essa enriquecem a reflexão sobre o modelo educacional que queremos e possibilitam o alcance de resultados com maior impacto.

A cada 20 dias, iremos publicar textos na página do WPensar, com o objetivo de possibilitar reflexão sobre os diversos temas que tangem a educação e o desenvolvimento da criança, seja no ambiente escolar, ou fora dele.

Nosso texto de estreia já está no ar!

O tema escolhido discorre sobre a importância da criatividade para o desenvolvimento da criança e lança a pergunta: como educar de forma libertadora, livre das amarras sociais, já tão presentes na vida dos adultos? O desafio é grande e a reflexão, extremamente necessária! LEIA NA ÍNTEGRA!

Poema com “participação” de Domingos Oliveira

Vamos exercitar a criatividade e sensibilidade? Escolha um diretor de cinema e peça para os seus alunos escreverem um poema utilizando os nomes dos filmes! A proposta também funciona com autores de livros.

Além de divertida, a atividade abre campo para discussões sobre diferentes formas de manifestações artísticas!

Abaixo segue o meu poema. A obra do diretor brasileiro Domingos Oliveira foi minha fonte de inspiração!

Poema com “participação” de Domingos Oliveira

Nas controvérsias de estradas distintas
Passeio em busca de antigos “AMORES”

São vidas que um dia se uniram
E que hoje, separaram-se guardando rancores.

“A CULPA” seguirá sempre comigo
Guardada em meu peito; tecendo tragédias.

Porque me deixei vencer por “FEMINICES” alheias?
Porque lhe fiz conhecer as “DELICIOSAS TRAIÇÕES DO AMOR”?

Posso ter “TODAS AS MULHERES DO MUNDO”, mas de que me adianta?
Se entre tantas, você é a única que me rouba carinhos sinceros!

“SEPARAÇÕES” fizeram-se inevitáveis
Sofri como quem deixa escapar uma última gota de água no deserto

“TEU TUA”, eu repetia incessantemente.

Eu te possuía em pensamentos, eu me possuía em solidão.
Cai em prantos, sem mais te encontrar.

Conheci “AS DUAS FACES DA MOEDA”

Vivi paixões com ardor
Amei você sem limites
E entre esses dois sentimentos, conheci a dor.

Dor que lateja em meu peito
Que arranca-me a felicidade, trazendo consigo a certeza de um término.

* Os trechos destacados ao longo do poema são títulos de filmes de Domingos Oliveira. O diretor produziu 11 longas no decorrer de sua carreira; no poema citei 8. Os que se encontram ausentes são: “CARREIRAS”, “É SIMONAL” e “EDU CORAÇÃO DE OURO”.