Criança, do latim “creare”.

Em uma breve retomada etimológica da palavra ‘criança’, descobrimos que sua origem vem do latim ‘creare’, do mesmo radical que derivam as palavras ‘criação’ e ‘criatividade’. Uma raiz bastante pertinente, que dialoga intimamente com o universo da infância.

Em seu contato com o mundo, as crianças são extremamente imaginativas. Estão, a todo o momento, atentas e curiosas ao seu entorno, numa relação constante de construções e desconstruções. Elas transformam-se em pássaro, monstro e flor, simultaneamente. De uma caixa de papelão, fazem um castelo, inventam histórias para as borboletas e para o sol; criam seus mundos.

Porém, será que nós, adultos, estamos permitindo que as crianças exerçam essa criatividade, que lhes é tão inata, de forma livre e espontânea? Em uma sociedade conduzida pela lógica do capital, essa pergunta é importante e cabe, principalmente, aos grandes centros urbanos, em que a dinâmica do consumo já se naturalizou, influenciando o ritmo de vida de muitos.

Vivemos sob discursos que se direcionam claramente ao consumismo. A ideia central é consumir, descartar, consumir novamente e entrar de cabeça neste ciclo, responsável por alimentar e sustentar indústrias dos mais distintos produtos e serviços.

Dentro desta lógica, deixamos de ser autores e nos tornamos exclusivamente proprietários; usufruímos daquilo que nos é apresentado como necessário e, assim, mergulhamos numa dinâmica consumista. Precisamos estar atentos e questionar se realmente necessitamos de tudo aquilo que o discurso do consumo nos propõe, principalmente quando pensamos nas crianças e em como estamos lidando com a questão do consumismo na infância.

A indústria voltou-se com empenho ao público infantil, principalmente a partir da década de 60, quando estudiosos do marketing perceberam que a construção do consumidor começava ainda na infância e que crianças influenciavam, inclusive, decisões de compra dos adultos.  Estudo realizado em 2015 pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) com mães das 27 capitais apontou que seis em cada dez mães (64,4%) atendem aos apelos dos filhos quando eles pedem algum produto considerado desnecessário, como brinquedos, roupas e doces.

O mercado diz que tais produtos são fundamentais para a vivência de uma infância plena e feliz, e aos educadores (leia-se pais, professores e demais adultos que participam da vida da criança) resta questionar esse discurso da necessidade, apresentado em cada propaganda e embalagem de produto infantil.

Cachorros-robô que latem e pedem carinho; bonecas e suas vozes mecânicas; replicas de celulares, casinhas e comidinhas de plástico. Todos envoltos por embalagens ‘extraordinárias’, carregadas de promessas que levam à ideia da felicidade. São brinquedos com tantas funções, que o manual de instruções se faz necessário, trazendo o passo a passo sobre como utilizá-los.

Além disso, o brinquedo oferecido pela indústria vem repleto de sentidos e significados, intimamente ligados aos valores, símbolos e crenças do mundo dos adultos. Assim, antes de pagarmos pelas imensas embalagens e seus produtos de plástico, precisamos entender o que significa o brincar na vida de uma criança: será que ele ocorre apenas na presença destes brinquedos industrializados?

A brincadeira é a forma como a criança se expressa, como ela descobre o mundo e como descobre a si mesma. Durante o brincar a criança acessa seu imaginário; cria, recria, monta e desmonta, entra em contato com seus sentimentos e vontades; investiga, constrói hipóteses, organiza suas fantasias e exerce a sua criatividade.

Brincar traz a possibilidade de autoria e autonomia, é um percurso necessário e extremamente rico; é a própria linguagem infantil. Ao entregarmos um brinquedo repleto de botões e funções pré-determinadas tiramos a riqueza do percurso, oferecemos o pronto, empobrecendo as possibilidades de criação; a criança vira proprietária e não construtora.

O excesso de brinquedos industrializados também contribui para o distanciamento com os materiais simples que estão presentes ao seu redor, como os elementos da natureza. Com brinquedos extremamente rebuscados em termos de funções e tecnologia, as brincadeiras tendem a limitar-se a espaços internos e, assim, a criança perde a oportunidade de explorar os tantos sentidos que a natureza oferece e que são tão fundamentais ao enriquecimento dos processos de aprendizagem e ao próprio desenvolvimento humano.

A criança, sobretudo entre os 0 e 6 anos, período definido como ‘primeira infância’, precisa de experiências táteis e principalmente, afetivas; são essas as recordações e as vivências que, para ela, serão inesquecíveis. A educadora e antropóloga Adriana Friedmann, em seu livro ‘ Linguagens e Culturas Infantis’ provoca: “A infância é, ou deveria ser, um período de experimentações, sensações, sabores, cores, brincadeiras. Mas, no mundo atual, o que está interferindo para que esta infância não seja vivida de forma plena e saudável?”.

É preciso cuidar para que as crianças não vivenciem somente experiências de ter, que as tornem exclusivamente proprietárias. Elas necessitam de tempo, espaço e liberdade para potencializar sua linguagem mais genuína, que é o brincar. Deixemos que elas criem, e ergam seus próprios mundos.

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Memórias de infância

Talvez esse seja um dos textos mais especiais deste blog, pois ele fala sobre a infância de uma pessoa maravilhosa que, com sua extrema sensibilidade, me ensinou a amar o mundo. São as memórias de infância do meu pai.

Após ler um texto que publiquei recentemente, ele me presenteou com o relato abaixo.

Compartilho aqui (com a devida autorização) pois trabalho – diariamente – defendendo mais infâncias como a de meu pai: repletas de afeto, natureza, diversidade, e distantes do consumismo.

Que honra poder ler tantas belezas e compreender as raízes que tornam meu pai o homem imenso que é.

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Por Pablo Yirula

O artigo “Do que as crianças precisam?” me trouxe muitas lembranças de infância. Uma infância sem abundâncias materiais, mas muito rica em aprendizagem, em experiências diversas, em convivências (sem restrições) com a natureza e os membros da comunidade.

Alguns fatos ainda estão muito vivos na minha memória, fizeram e ainda fazem parte da minha existência. As lembranças começam quando eu tinha por volta de 4 anos de idade.

Como filho de emigrante ucraniano, passei meus primeiros anos de vida em uma comunidade que estava sob o comando da “matriarca” da família, minha avó Sophia. A família era numerosa e havia um “bando” de crianças na comunidade, que vinham de diversos países: Ucrânia, Alemanha, Rússia, Polônia.

Lembro-me que, apesar da minha pouca idade, sempre acompanhava os mais velhos (que deviam ter por volta de sete anos de idade!). Vivíamos em consonância com a natureza, reconhecíamos os passarinhos pelo canto, conhecíamos os peixes que nadavam no rio pouco profundo, de águas claras e transparentes. Ficávamos horas observando os movimentos destes peixes, sem entender como conseguiam viver dentro da água sem se afogar, já que nós aguentávamos prender a respiração embaixo d’água somente por um curto tempo!

Os adultos ensinavam, especialmente para os meninos, as diferentes línguas faladas na comunidade e também a matemática. Esta última abrangia e esclarecia muitos “segredos” que a natureza e o universo escondiam a olhos nus.

Na escola, nos comunicávamos uns com o outros aprendendo o idioma das diferentes culturas: falávamos alemão, ucraniano, polonês, russo. O espanhol, língua do país que nos acolheu (a Argentina), era chamada de “língua nacional” e fazia parte da matéria principal. Ela que unificava o convívio entre tantos povos diferentes.

A vida fluía com liberdade e uma inocência sem qualquer desejo de consumo; não existia o desejo de possuir mais do que o outro. Os brinquedos eram fabricados por nós mesmos! Brincávamos com cavalos feitos de vara de árvore e charretes em miniatura. Vivíamos em contato com a terra, que tinha cor forte, vermelha! Era muito bom senti-la sob nossos pequenos pés descalços.

Jogávamos futebol com uma bola feita de pano, gritávamos de felicidade quando alguém fazia um gol, sem que outros se sentissem, por isso, perdedores. Deitávamos na grama de barriga pra cima, todos juntos, formando um círculo, e observávamos o céu com seus milhões de pontinhos cintilantes que se chamavam “estrelas”! Víamos as “manchas” das galaxias.

Alguns nos falavam que esses pontinhos luminosos no céu eram as almas dos mortos. Outros, porém, nos explicavam o que eles realmente significavam. Passávamos a noite nos perguntando como poderia ser o universo, sem entender com clareza essa palavra.

Nossas dúvidas despertavam uma curiosidade enorme, queríamos desvendar o verdadeiro significado do universo. Eu lembro, com muita clareza, que alguém nos explicava como funcionava nosso sistema solar, escutei pela primeira vez, com 6 anos de idade, o nome de Albert Einstein.

Construíamos nossos “telefones” com duas latinhas, um furo no meio e uma linha de algodão (que pegávamos escondida dos olhos da mãe ou da vovó). Era um prazer imenso escutar, a uma distância de 10-15 metros, a voz do nosso interlocutor! Surgiam novamente muitas perguntas sobre como isto podia acontecer, até que nosso “velho professor” nos explicava porque isto acontecia. Até hoje lembro o nome desta pessoa que nos ensinou tantas coisas maravilhosas, nos introduzindo em um mundo cheio de segredos, porém com tantas explicações.

Era o Sr. Jacob Würgles. Acho que era de origem suíça. Ele fabricava rádios e nos fazia escutar emissoras de outros países pelas ondas curtas; sempre nos explicando que isto acontecia através de ondas eletromagnéticas. Suas explicações eram tão claras que ficávamos de olhos arregalados ao conseguir compreender o porquê das coisas.

Nunca esquecerei  de quando fizemos nossos próprios rádios. Chamávamos de “rádio a galena” que, na verdade, consistia em um diodo (também construído por nós com enxofre e chumbo derretido). Fazíamos a bobina de ressonância, e o Sr. Jacob nos dava um “condensador”, além de nos emprestar fones de ouvido. Algumas vezes conseguíamos escutar ou sintonizar uma emissora de rádio ou escutar somente barulhos. Que maravilha! Sabíamos como e porque aconteciam as coisas, nada era segredo, tudo se explicava!

Eu me sentia tão atraído por estas maravilhas! O Sr. Jacob também me explicava como funcionavam as válvulas; ganhei até um livro dos anos 1939 sobre o assunto. Tenho este livro até hoje. Que belas lembranças!

Este senhor era um sábio! Ele também nos ensinou a usar a régua de cálculo (a máquina de calcular da época). Com esta régua fazíamos multiplicação, divisão, elevávamos a potência, calculávamos raiz quadrada, funções trigonométricas. Sempre tudo muito bem explicado e com a paciência de alguém que transmitia conhecimentos sem pedir nada em troca.

O Sr. Jacob morava sozinho, em meio a livros, rádios, fios. Era um “eremita”. Nunca soube porque levava uma vida dessa maneira. Alguns falavam que era um nazista que vivia com outra identidade. Só sei que seus ensinamentos mudaram a vida de muitos de nós.

Entre meus 7 ou 8 anos, ganhei um pequeno livro com a teoria da relatividade de Einstein, devo ter lido infinitas vezes sem compreender 1% do que lia, mas sabia praticamente de cor o conteúdo daquele livrinho.

Einstein virou o meu “Deus”, inclusive ate hoje sou fã dele como cientista. Tenho tudo o que pude e posso adquirir sobre ele! Livros, quadros com fotos em minha parede, etc. Só que hoje entendo um pouquinho melhor a profundidade da sua teoria. Quando fiquei sabendo que ele tinha morrido, em 1955, fiquei triste durante muitos dias, olhando a fotografia dele na capa do livro que eu tinha.

Um outro fato que me marcou muito foi observar  – nas noites claras – a passagem do satélite “sputnik”, lançado pelos russos. Ficávamos naquela mesma posição em que observávamos as estrelas e os planetas e, assim, víamos aquela luz que se deslocava rapidamente no céu e que emitia um sinal de “ Pip, pip…”. Que coisa mais extraordinária! O Sr. Jacob tinha um rádio com a frequência que captava este sinal. Que maravilha, que sensação de … não sei explicar.

Como éramos felizes, sem saber o significado de felicidade! Esta é uma conclusão que tiro hoje, ao relembrar meu passado. Não tínhamos ideia do que era consumismo, nos sentíamos felizes sabendo que no dia seguinte teríamos tantas coisas novas para aprender!

Festas de aniversário não eram para ganhar presentes. Eram encontros muito especiais. Nesses dias, as mães convidavam toda turma, meninos e meninas. Ordenhávamos o leite da melhor vaca, se raspava em cada casa um pouco de chocolate, de uma barra especialmente comprada para essa data. Então, mexíamos o leite quente que derretia o chocolate! Era uma grande festa! Aguardávamos com ansiedade o aniversário de alguém da colônia para saborear esse delicioso chocolate, que vinha acompanhado por um pedaço pão, feito no forno da própria casa. Que saudades!

Gostaria de continuar contando muitas outras lembranças, estão todas guardadas na minha mente, porém daria um livro muito extenso. Os detalhes permanecem vivos!

As crianças, olhando para minha retrospectiva pessoal, precisam de liberdade! Viver em contato com a natureza, aprender a língua para se comunicar e se informar, apreender matemática para entender muitos dos “segredos” do universo. Precisam do carinho de uma família. Precisam de um bom orientador, um professor, um guia. Precisam de cuidado!

Foto: Flickr

O direito ao amor

Declaração Universal dos Direitos das Crianças (UNICEF)

Princípio VI – Direito ao amor e à compreensão por parte dos pais e da sociedade.

Amor; um sentimento que deve ser garantido a todas as crianças do mundo! Só assim elas poderão viver o presente em harmonia, e serão capazes de conduzir um amanhã semeado por sonhos, justiça e igualdade.

Estamos falando sobre um direito mas, sobretudo, de um alimento para a vida.

Uma criança amada e amparada terá forças para lidar com as dificuldades do mundo e crescerá com a capacidade de acreditar em si mesma e nos outros. Valorizará o respeito às diferenças e o bem ao próximo.

Nós, adultos, precisamos, a todo o momento, e sem descanso, dar exemplos de carinho e amor às crianças, criando espaços de escuta e compreensão. Parece simples, parece natural, mas, infelizmente, ainda vemos pais batendo nos filhos, punindo, gritando; ainda vemos adultos individualistas e egocêntricos.

Somos todos educadores e nossa responsabilidade com o mundo é contínua: ao educar crianças, estamos cuidando delas e do mundo, simultaneamente.

Sem o afeto, porém, não conseguiremos construir um mundo mais digno e bonito de se viver. A vida é delicada e o amor está entre os principais combustíveis para a sobrevivência humana.

Que todas as crianças tenham seus direitos respeitados e possam ser verdadeiramente amadas, por todos aqueles que participam da sociedade.

Foto: Pixabay

 

 

 

Experiências perdidas

Ontem conheci uma garota muito simpática. Entre um assunto e outro, ela me contou que fora professora durante alguns anos em uma escola voltada à classe alta (super alta! muito alta!) de São Paulo. Com uma mensalidade ‘salgada’, a escola atende famílias de milionários paulistanos. Até aí, nada tão problemático, mas, quando o excesso de dinheiro vem acompanhado do excesso de ignorância e ausência de criticidade, questões graves podem surgir. Muitas destas famílias parecem mergulhar a fundo na lógica do consumo, defendendo e perpetuando valores supérfluos, que reafirmam comportamentos preconceituosos, excludentes e pouco acolhedores.

A própria escolha pela escola dos filhos parece estar baseada na lógica do consumo. A instituição de ensino da qual falamos tornou-se um status importante entre os milionários de São Paulo e, colocar os filhos ali tem um peso simbólico considerável. Em entrevistas com diretoras, parece que são poucos os pais que indagam sobre o Projeto Pedagógico adotado pela escola, mas todos afirmam “meu filho tem que estudar aqui”.

Não pretendo criticar ou discutir o projeto da escola, até porque não o conheço em profundidade. Quero pensar sobre os ambientes pelos quais essas crianças circulam. Os relatos que ouvi me assustaram. Tive a impressão de serem ambientes que tendem a marginalizar e transfigurar valores importantes ao desenvolvimento humano, como a empatia e a tolerância, e impor enormes barreiras para que essas crianças e jovens experimentem o mundo livremente, a partir das diferentes interações com seu entorno.

picjumbo.com_IMG_5498Algumas crianças dessa escola, por exemplo, são proibidas (pelos pais) de estabelecer contatos próximos com aqueles que não pertencem a sua classe social. Tomei conhecimento da história de um casal que proibia a filha de 4 anos a entrar na cozinha da própria casa e estabelecer qualquer contato com os empregados. Meu coração partiu nesse momento. Foi ai que eu entendi como o dinheiro, somado à ignorância, pode privar crianças a experimentarem o mundo e todas as suas surpresas, belezas e diversidade. O dinheiro, somado a valores mesquinhos, pode ser tão grave quanto a falta dele.

Privar uma criança de entrar na cozinha da própria casa? O que sustenta esta regra? Proibir que conheça seu próprio lar, que aprenda como é feito o alimento que consome todos os dias, que conheça quem está fazendo a sua comida e que possa fazer junto… Impedir que descubra texturas, sabores e cheiros, que conheça o processo de preparação do alimento, até que ele chegue ao prato. Quantas privações, quantas experiências perdidas! E por quais motivos?

A mesma reflexão cabe à proibição do contato com os empregados da casa. Uma escolha insustentável, que perpetua uma lógica excludente, limitando e empobrecendo o mundo e as experiências da criança. A troca e a convivência entre os seres humanos – principalmente entre aqueles que dividem o mesmo espaço – deve ser algo natural e saudável, capaz de trazer inúmeros aprendizados, como o desenvolvimento da empatia e da capacidade de negociação.

Muitos pais, ao impedirem essas vivências, ferem a infância dos filhos com seus valores invertidos e equivocados. As crianças, vítimas destes contextos, tendem a reproduzir as falas e os comportamentos dos pais, assumindo-os como verdades, e correm o grave risco de tornarem-se adultos egoístas, preconceituosos e consumistas. É preciso cuidar dessas crianças, preservar suas infâncias e seus futuros!

Essa situação me fez reviver uma experiência de anos atrás. Eu estava na casa de uma amiga cuja família é muito rica. Muitas coisas na dinâmica daquela casa me chamavam a atenção; uma delas era o fato de ter um interfone no quarto, que tocava diretamente na cozinha. Bastava tirar o telefone do gancho, pedir um suco e, em poucos minutos, o pedido estava lá (sim, parecia mais um hotel!). Mas o que me chocou profundamente foi a fala da irmã da minha amiga. Ela se aproximou de mim e perguntou: “Você sabe qual carro o meu pai tem?” Eu respondi: “Não”. E ela retrucou: “Uma Mercedes”. Essa menina tinha por volta de 5 anos. Eu também era criança na época, devia ter 12 anos. Quando ouvi aquilo fiquei sem reação e, depois de muito tempo, entendi que, naquele momento, eu senti compaixão. Como uma criança, com aquela idade, poderia estar com essa narrativa? Algo muito errado estava acontecendo ao seu redor.

E tive novamente essa sensação durante a conversa de ontem.

Mães que, após darem a luz ‘colocam peito’, minicomputadores como lembrancinhas em festas infantis, bullying com aqueles que não possuem avião ou casa fora do país; ‘andar de ônibus’? ‘fazer a própria comida’? – Fatos e perguntas que fazem parte da realidade dessas crianças e que contribuem para o seu desenvolvimento como ser humano. E, que ser humano será esse? O excesso parece causar esvaziamentos profundos e não podemos permitir que esse processo afete a infância, fase tão importante na construção daquilo que seremos no e para o mundo.

Precisamos de pessoas inteiras, que sejam tolerantes, amigáveis, compreensivas e transformadoras. Ambientes com tantas cercas e dogmas, com certeza não são os mais saudáveis para o desenvolvimento pleno de nossas crianças.

Slow-Parenting: entenda o movimento dos pais sem pressa

Qual a sua lista de atividades para hoje? Provavelmente, será imensa e o tempo disponível não dará conta das tantas tarefas a serem cumpridas.  Se você morar em um grande centro urbano, então, esqueça. A probabilidade de realizar tudo aquilo a que se propôs será ainda menor, já que o ritmo da cidade e as expectativas geradas em torno do ‘fazer’ são incompatíveis com aquilo que está ao alcance de uma pessoa ‘comum’, dentro das suas 24h diárias.

Vivemos em um mundo que valoriza a velocidade, a produtividade e a quantidade. É preciso entregar o máximo possível, em tempo recorde. Trata-se da lógica capitalista, que rege a sociedade de consumo, na qual estamos todos inseridos.

Esse ritmo veloz interfere em nossa relação com o mundo e com nossos pares, afeta, inclusive, a possibilidade de conhecermos – e respeitarmos – nosso próprio tempo. Viver sob essa constante pressão também abre caminhos para que sentimentos como a ansiedade, a angústia e a desmotivação se manifestem.

Dentro dessa dinâmica acelerada, a competitividade assume papel relevante. São muitas empresas, muitos produtos, muitos funcionários, muitas tarefas: é preciso ser o melhor, sempre. E esse recado é reforçado pelo discurso publicitário, que cria expectativas irreais, ao apresentar um modelo de “perfeição” para tudo e todos que participam da sociedade. A “família perfeita”, o “pai perfeito”, a “mãe perfeita”, o “filho perfeito”, o “funcionário perfeito”, a “casa perfeita”, o “carro perfeito” e daí em diante.

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Para desacelerar a rotina das crianças, os pais precisam pensar em como estão organizando suas próprias vidas.

É preciso ser perfeito. Os pais vivem essa pressão e, pensando em preparar o filho para o mundo, também desejam que eles alcancem a perfeição. Contudo, a ideia de perfeição construída pela indústria da propaganda, em dialogia com o mercado, pode ser extremamente cruel e não endereçar as reais necessidades do humano, tanto em sua fase adulta, como também na infância.

Pensando em dar o melhor aos filhos, os pais estão incentivando o superagendamento da infância. Crianças de 3 anos dividem-se entre a escola, aulas de natação, inglês e música. Mas, será realmente necessário estabelecer essa rotina intensa e corrida? Será que o ritmo da criança acompanha as exigências de horários e atividades desta agenda?

Para a psicóloga Adriana Fóz, coordenadora do Projeto Cuca Legal (UNIFESP), é preciso respeitar o tempo da criança. “Até os 5 anos os estímulos têm que ser mais naturais e, dos 6 aos 12, pode-se pensar em aprender de forma mais sistematizada, porém, sempre respeitando o ritmo e as escolhas da própria criança”, afirma a psicóloga.

Esse respeito ao tempo da criança exige um exercício profundo, que deve começar quando o bebê ainda está na barriga. Os pais mostram-se ansiosos desde a concepção do filho e criam muitas expectativas em torno da maternidade/paternidade e da vida futura desta criança que, diga-se de passagem, mal chegou ao mundo. Na cabeça deles, precisam ser “superpais” e criar ‘superfilhos’.

Esse comportamento conversa com o modelo de vida que nos é imposto (e que deve ser questionado). Alguns estudiosos, como o jornalista canadense Carl Honoré, passaram a pensar respostas a esse estilo de vida ultra-acelerado. Honoré foi um dos precursores do movimento “Slow-Parenting”, cujo objetivo é desacelerar a rotina dos pais, para que consigam conhecer a si e, principalmente, conhecer e respeitar o tempo da criança. Pais ansiosos certamente passarão tal sentimento aos filhos.

Honoré explica que a ideia do “Slow” não significa ir “a passos de tartaruga”, mas sim encontrar o tempo certo para realizar determinadas atividades. Devido à ansiedade em dar sempre as melhores oportunidades aos filhos, os pais tendem a antecipar descobertas que aconteceriam naturalmente em outro momento, provavelmente com mais sentido e com maior potencial para um real aprendizado.

O movimento Slow também questiona a relação entre quantidade e qualidade. É preciso tempo para descobrir o mundo e crianças sabem disso; elas são naturalmente exploradoras, têm impulso por conhecer tudo o que as cerca e o farão, mas no tempo delas. Portanto, uma agenda lotada não necessariamente significa mais oportunidades para um desenvolvimento saudável, que garantirá melhores oportunidades no futuro. Muito pelo contrário. O Superagendamento pode interferir no desenvolvimento da criança, impossibilitando espaços para o exercício da criatividade e gerando ansiedade e estresse, por exemplo.

Por isso, é essencial que os pais escutem suas crianças e entendam como elas apreendem os estímulos externos. O tempo da criança, que surge dela própria, é fundamental para o desenvolvimento e a construção de sua autonomia e identidade.

A verdade é que, em tempos de aceleração da vida, deixar crianças serem crianças parece algo extremamente estrangeiro, quando deveria ser tão simples e natural.

Para o Pedagogo Paulo Fochi, um dos porta-vozes do Movimento Slow-Parenting no Brasil, educar passou a ser compreendido como um empreendimento do futuro. “Os pais entendem agendas lotadas como sinônimo de qualidade de vida”.

Em busca de oferecer o melhor, questionam-se: “Quais serão os novos produtos, aulas e afazeres que o mercado criou para o meu filho?” – Com essa pergunta, que tem sua origem no capitalismo e na sociedade de consumo, acabam colocando a criança no ritmo do capital e interferindo naquilo que a criança tem de mais genuíno: a espontaneidade!

Fochi defende que o tempo livre é essencial. “São nesses momentos que a criança irá experimentar, testar, abandonar, retomar um projeto. O tempo dá espaço para o inédito.”

Os pais precisam permitir aos filhos que construam suas próprias histórias. Crianças com rotinas que reproduzem agendas da vida adulta são submetidas a estilos de vida que podem interferir em sua autonomia, em sua autodescoberta e na descoberta do mundo.

O Slow-Parenting, portanto, configura-se como um movimento que incentiva o tempo livre e que busca equilibrar as expectativas familiares e as reais necessidades da criança. Defende a ideia da valorização dos pequenos prazeres em família.

Para desacelerar a rotina das crianças, porém, os pais precisam pensar em como estão organizando suas próprias vidas, o que estão priorizando e como estão se relacionando consigo mesmos. Vale a reflexão, não?

Longa metragem ‘Território do Brincar’ tem pré-estreia durante abertura da Ciranda de Filmes

Dia 20 de maio de 2015 ficou marcado por encanto e alegria. Na noite de abertura da Ciranda de Filmes, mostra de cinema focada em infância e educação, veio ao mundo o filme “Território do Brincar”, de Renata Meirelles e David Reeks. Uma produção da Maria Farinha Filmes e Ludus Vídeos e Cultura.

Em uma exibição para 800 convidados, o Auditório do Ibirapuera virou cenário para celebrar a infância. Os presentes foram recebidos com um cocktail inspirado na rota traçada pelos diretores do filme: durante dois anos eles percorreram diversas regiões do Brasil, ali relembradas pelos sanduiches de rabada, cuscuz paulista, beiju e saladinhas de feijão. Um primeiro gosto do que seria aquela noite.

E que noite! Se pudéssemos resumi-la em uma palavra, a escolhida seria ‘encontro’. Encontro de pessoas queridas e o encontro consigo mesmo. A sensibilidade do Projeto Território do Brincar, agora registrado em longa-metragem, tem o poder de nos transpor ao universo da infância e nos reconectar à nossa essência; nos faz refletir, acima de tudo, sobre o humano, pois é na criança que vive, da forma mais pura e genuína, a potência de todos nós.

Um filme que arranca lágrimas e risadas e que desenterra lembranças profundas. São 90 minutos de puro encantamento. Ao final, os convidados assistiram ao pocket show do grupo mineiro Uakti, responsável pela trilha sonora do filme. E a noite se encerrou com uma linda ciranda na voz de Tião Carvalho.

Além da pré-estreia, o filme Território do Brincar também entrou na programação da Ciranda de Filmes, que ocorreu no Cinesesc e no Cine Livraria Cultura, entre 21 e 24 de maio. No dia 21/05 o filme foi exibido ao público da Ciranda e, no dia 22, a equipe do longa ministrou a Oficina ‘Desvendando o Processo Cinematográfico’, oportunidade em que conversaram com o público sobre os bastidores do filme.

O Território do Brincar chegará aos cinemas de São Paulo e Rio de Janeiro no dia 28 de maio e, no dia 4 de Junho, será lançado nos cinemas de Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis, Brasília, Belo Horizonte, Salvador, João Pessoa e Santos.

Lançamento do longa-metragem 'Território do Brincar'. Foto: Aline Arruda.

Lançamento do longa-metragem ‘Território do Brincar’. Foto: Aline Arruda.

Texto publicado originalmente no site do Projeto Território do Brincar.

A escola como espaço para o exercício da criatividade

A capacidade de criar mora em todos nós. A complexidade do cérebro humano nos permite refletir sobre o que nos toca e transformar o meio em que vivemos; somos capazes de criar soluções inovadoras às questões que nos circundam.  Possuímos uma inteligência criativa, que manifesta-se de forma nítida durante os processos de aprendizagem e pode ser vista, como essência do humano, no comportamento das crianças.

As crianças, em sua relação com o mundo, são extremamente imaginativas. Estão, a todo o momento, criando e recriando. Suas falas e perguntas são instigantes; elas saem do senso comum, pegam os adultos de surpresa, trazem reflexões que só podem existir quando há espaço para se expressar livremente, sem amarras ou julgamentos.

A criança nos ensina que para explorar a capacidade criativa é preciso estar livre de pré-conceitos, respeitar o próprio tempo e estar aberto àquilo que o mundo tem a oferecer. Para criar, precisamos nos encantar com o que nos cerca e ter espaço para escutar aquilo que, de mais profundo, vive em nós e, claro, espaço para que possamos manifestar a nossa criatividade.

O processo criativo exige flexibilidade, disponibilidade, paciência, entrega e escuta e, quando valorizado e colocado em prática, nos dá autonomia e autoconfiança, aspectos fundamentais ao desenvolvimento e autoconhecimento. A criação nos empondera perante o mundo e nos torna autores e, por isso, deve ser um exercício constante, em todas as fases da vida, em todos os momentos e situações.

Para uma criança, é mais fácil trazer a criatividade para o dia a dia, pois existe maior liberdade em relação às amarras sociais. Já o adulto está tomado pelos estereótipos sociais e pelos julgamentos morais; vive de acordo com aquilo que a sociedade espera, muitas vezes sem respeitar seu próprio tempo, ou questionar-se se é possível fazer diferente.

Sim, a sociedade – e as instituições – nos moldam e, exatamente por isso, precisamos exercitar nossa criatividade: para inovar o dia a dia e não só, mas a vida em sociedade e as instituições que a regem. Precisamos, portanto, educar nossas crianças para que possam ser agentes autônomos, de transformação.

Educar, contudo, é um desafio inquestionável. O educador deve apresentar o mundo à criança e o mundo, como sabemos, tem algumas regras. Assim, nos perguntamos: como educar sem impor as amarras sociais, já tão assimiladas por nós, adultos?

Ao educar, precisamos lembrar que a educação deve ser libertadora e valorizar a autonomia e a criatividade da criança. É preciso tempo, escuta, delicadeza. A escola – e demais ambientes de convívio da criança – deve proporcionar esse acolhimento, pois assim estará cuidando do desenvolvimento integral do aluno e possibilitando espaços para a expressão da criatividade.

Mas, por que a criatividade é tão importante? Pois nela vive o potencial transformador do ser humano.

Escola como espaço para exercício da criatividade

Para a psicóloga Regina Drumond, o ambiente é um elemento chave no processo de despertar e fazer aflorar o potencial criativo de todo o ser humano, assim, escolas pouco flexíveis, com programações rígidas, professores autoritários, salas de aula fechadas não soam como um ambiente acolhedor, que incentive a criatividade.

É preciso repensar o modelo tradicional de ensino e dar aos alunos a possibilidade de aprendizagem pela experiência, além de espaço para construírem obras das quais serão autores.

Sim. A criatividade é vital; sem ela não nos desenvolvemos, nem como indivíduos nem como sociedade. Se criarmos uma cultura que valorize o processo criativo dentro das instituições de ensino, poderemos fazer a diferença no mundo; tornando estas crianças e jovens protagonistas de suas vidas e escolhas e capazes de transformar suas comunidades em lugares mais amigáveis e justos.

Referência:

Este texto foi escrito para o Blog WPensar, parceiro do Educomunicação.

Infância e sociedade de consumo: cuidar é preciso!

No prefácio do livro “Exercícios de ser criança”, de Manoel de Barros, Pascoal Soto lança a pergunta: “Uma peneira, um caixote e duas latas de goiabada. Quem seria capaz de construir um mundo a partir desses objetos?”.

As crianças; é claro! Mas, será que estamos permitindo que elas brinquem livremente? Que construam seus próprios mundos e seus próprios brinquedos de forma espontânea?

Em uma sociedade conduzida pela lógica do capital, essas perguntas são pertinentes e cabem, principalmente, aos grandes centros urbanos, em que a dinâmica do consumo já se naturalizou, determinando o ritmo de vida de muitos.

Vivemos sob discursos que se direcionam claramente ao consumismo. A ideia central é consumir, descartar, consumir novamente e entrar de cabeça neste ciclo, responsável por alimentar e sustentar as indústrias de produtos e serviços.

brinquedo-infantil

A partir de materiais simples, que fazem parte do dia a dia, podem surgir muitos brinquedos e brincadeiras!

Dentro desta lógica, deixamos de ser autores e nos tornamos proprietários; usufruímos daquilo que nos é posto como necessário e assim, sem perceber, mergulhamos na dinâmica consumista. Precisamos estar atentos: será que realmente necessitamos de tudo aquilo que o discurso do consumo nos impõe?

A reflexão é fundamental, principalmente quando pensamos nas crianças. Como estamos lidando com a questão do consumismo na infância? Essa pergunta relaciona-se de forma intima com a discussão sobre brinquedos industrializados versus brinquedos artesanais.

A indústria voltou-se com empenho ao público infantil, oferecendo um leque de produtos inimaginável. Mas, será que a criança realmente precisa destes tantos produtos para viver uma infância plena, saudável e feliz?

O mercado diz que sim, e aos educadores (leia-se pais, professores e demais adultos que participam da vida da criança) resta questionar esse discurso da necessidade, apresentado em cada propaganda e embalagem de produto infantil.

Um toddynho não deve fazer tão bem quanto a propaganda afirma, não é mesmo? Talvez seja melhor optar por um suco natural ou um leite cuja origem é conhecida. A mesma lógica serve à reflexão sobre os brinquedos que a indústria oferece: será mesmo que são as melhores opções para acompanhar a criança no momento do brincar?

Bonecas que choram e pedem mamadeira; cachorros-robô, que latem e pedem carinho; carrinhos com diversos botões e luzes; replicas de celulares, casinhas e bonecas de plástico, comidinhas de plástico, tudo de plástico! Plástico e muitos botões, sempre envoltos por embalagens extraordinárias, cheia de cores e mil promessas. Ah! Claro! Com tantas funções, o manual de instruções se faz necessário e já vem dentro da caixa, com o passo a passo para cada brinquedo.

É isso que queremos oferecer às nossas crianças?

Antes de pagarmos pelas imensas embalagens e seus produtos de plástico, precisamos entender o que significa o brincar na vida de uma criança. A brincadeira é a forma como a criança se expressa, como ela descobre o mundo e como descobre a si mesma. Durante a brincadeira ela acessa seu imaginário; cria, recria, monta e desmonta, entra em contato com seus sentimentos e vontades; investiga, constrói hipóteses, organiza suas fantasias e exerce a sua criatividade.

A brincadeira dá à criança a possibilidade de autoria e autonomia, é um percurso necessário e extremamente rico; é a própria linguagem infantil.

Ao entregarmos um brinquedo repleto de botões e funções pré-determinadas tiramos a possibilidade do percurso, entregamos o pronto e impossibilitamos toda uma caminhada de criação; a criança vira proprietária e não criadora.

O brinquedo oferecido pela indústria vem repleto de sentidos e significados, traz discursos pré-prontos e intimamente ligados aos valores, símbolos e crenças dos adultos. A criança, claro, brincará com ele e provavelmente será divertido, mas, será que nessa interação o potencial da brincadeira é exercido em toda a sua amplitude?

A imaginação de uma criança está além da compreensão dos adultos. Basta solta-la em um quintal e, com duas pedrinhas nas mãos, ela construirá um mundo inteiro. Então, se é assim, por que não deixa-la livre? O brinquedo artesanal, ou o brinquedo inventado, dá infinitas possibilidades à brincadeira. A construção do próprio brinquedo também possibilita outra relação com o brincar, que começa no momento em que a criança decide construi-lo. O processo de criação torna-se a própria brincadeira.

Muitas crianças – repare – quando ganham seus brinquedos industrializados logo buscam desconstrui-lo, procurando funções e significados para aquele objeto pronto que lhes foi entregue. A capacidade criadora é inerente à criança; tudo para ela significa um mar de possibilidades e sonhos.

Seria muito radical dizer um não definitivo aos brinquedos industrializados, mas é preciso pensar sobre o que eles significam para a criança e como afetam seu desenvolvimento.

Ter uma latinha de metal e dois pedaços de borracha em mãos pode ser tão ou mais precioso do que ter ao alcance um carrinho-robô de controle remoto.

Temos o dever de mostrar às crianças que elas são muito mais do que meras proprietárias; elas são criativas, são autoras, capazes de construir seu próprio mundo com aquilo que a natureza lhes oferece.  E ai mora outra problemática referente ao excesso de brinquedos industrializados: o afastamento em relação à natureza.

Com brinquedos extremamente rebuscados em termos de funções e tecnologia, as brincadeiras tendem a limitar-se a espaços internos ou, mesmo que a criança vá para fora, acaba atenta à tela ou às inúmeras funções do brinquedo. Assim, perde a oportunidade de explorar os tantos recursos que a natureza oferece e que são tão fundamentais ao enriquecimento dos processos de aprendizagem.

Vivemos num contexto que pede reflexão e questionamento. O consumo está posto, mas não por isso precisamos alimenta-lo de forma desvairada. Se pudermos mostrar às crianças que o mundo é infinito e extremamente rico para além dos shoppings centers e dos brinquedos de plástico, estaremos contribuindo para que elas ampliem seu olhar e, no futuro, sejam autônomas, criticas e seguras para exercer sua criatividade livremente.

Para terminar, fica a pergunta: quais brinquedos você está entregando às suas crianças? Seja nas escolas, em casa ou nas brinquedotecas, precisamos pensar sobre a função dos brinquedos e do brincar e assegurar que eles sejam livres e espontâneos, afinal, na criança vive o inédito, qualidade tão preciosa e necessária à renovação e reinvenção do mundo! Vamos cuidar do brincar, vamos cuidar das crianças, vamos cuidar do mundo!

Para inspirar!

Projeto Tree Change Dolls – O projeto é uma grande reflexão às indústrias de brinquedo. Será que as Barbies e outras bonecas oferecidas pelo mercado conversam com o universo infantil? A Australiana Sonia Singh nos dá a resposta. Iniciativa emocionante e muito sensível!

Projeto Território do Brincar – A educadora Renata Meirelles, seu marido e filhos percorreram, durante dois anos, diversas comunidades ao redor do Brasil, a fim de conhecer e registrar as diferentes brincadeiras e linguagens infantis. Vale clicar! O material coletado é uma relíquia sobre as infâncias brasileiras.

Brincar: um campo de subjetivação na infância (Claudia Santos Jardim) – Dica de leitura para quem tem interesse em estudar e pensar sobre a infância e o brincar.

Este texto foi escrito para o Blog WPensar, parceiro do Educomunicação.

Parceria Educomunicação+WPensar

criança-criatividadeAcreditamos que trabalhar em rede é essencial. Pessoas que compartilham valores comuns podem e devem pensar juntas. Por isso, selamos uma parceria com o Blog WPensar, canal para disseminação de informações voltado a educadores.

Estamos certos que parcerias como essa enriquecem a reflexão sobre o modelo educacional que queremos e possibilitam o alcance de resultados com maior impacto.

A cada 20 dias, iremos publicar textos na página do WPensar, com o objetivo de possibilitar reflexão sobre os diversos temas que tangem a educação e o desenvolvimento da criança, seja no ambiente escolar, ou fora dele.

Nosso texto de estreia já está no ar!

O tema escolhido discorre sobre a importância da criatividade para o desenvolvimento da criança e lança a pergunta: como educar de forma libertadora, livre das amarras sociais, já tão presentes na vida dos adultos? O desafio é grande e a reflexão, extremamente necessária! LEIA NA ÍNTEGRA!

Instituto Alana lança Projeto “Criativos da Escola”

No próximo dia 25/02 vai acontecer, no Itaú Cultural, o lançamento do Projeto “Criativos da Escola – design for change”, iniciativa do Instituto Alana. O projeto visa oferecer às crianças e adolescentes a oportunidade de transformar a realidade em que estão inseridos.

A partir do convite para expressar suas inquietações, eles são encorajados a olhar seu entorno e perceber como podem contribuir para uma mudança, transformando suas ideias em ações.

O evento de lançamento terá participação de Wellington Nogueira, fundador do Doutores da Alegria, e de André Gravatá, um dos autores do livro “Volta ao mundo em 13 escolas”.

Participe do lançamento e leve a ideia para a sua escola!

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