Minimalismo x consumismo

O documentário Minimalismo: um documentário sobre as coisas importantes foi lançado em 2016, nos Estados Unidos, e oferece uma reflexão sobre os hábitos de consumo dos sujeitos pertencentes às economias capitalistas.

Para o britânico Nikolas Rose, que estuda narrativas de autoajuda, diferentes épocas produzem humanos com diferentes características psicológicas, com diferentes emoções, crenças e patologias. Sob esta lógica, o documentário coloca em pauta uma patologia de nosso tempo: o consumismo, caracterizado pelo excesso e pelo acúmulo, e propõe ao espectador um estilo de vida minimalista, que seria oposto a este consumo exacerbado que se revela, principalmente, nos grandes centros urbanos.

A construção narrativa do documentário, a fim de convencer o espectador sobre as vantagens do minimalismo, se estrutura sobre vozes de psicólogos, sociólogos, historiadores, empreendedores e, principalmente, daqueles que mudaram de conduta, abandonando o comportamento consumista e assumindo o minimalismo como um novo estilo de vida. Temos, portanto, uma construção narrativa baseada, prioritariamente, em relatos autobiográficos: histórias de superação são contadas, na busca por inspirar e auxiliar aqueles que ainda se encontram presos a um comportamento de consumo baseado na lógica das adições.

Tais características nos levam a pensar que o documentário tem como um de seus principais objetivos a regulação social e moral dos sujeitos, já que, para a estudiosa Judith Butler, o ato de relatar a si mesmo, entre outras funções, tem o objetivo de persuadir.

Aos que estudam as práticas de consumo sob olhar critico e atento, o conteúdo deste documentário é bastante provocativo e revelador de um sistema de privilégios naturalizado: aqueles que se propõe a mudar de vida, adotando o estilo minimalista, necessariamente experimentaram o excesso e, ao adotarem novos hábitos, seguem um roteiro de vida previsível: viram autores de livros motivacionais, palestrantes, personagens de documentários, e assumem a missão de levar a mensagem para o maior número de pessoas possível, na tentativa de mostrar qual a receita de uma vida feliz. O projeto pessoal, ou biográfico, portanto, torna-se referência para a adoção de novos padrões de vida. Assim, o “eu” passa a funcionar como um ideal regulatório, como afirma Nikolas Rose.

Palavras como “receita” ou “ajuda” são utilizadas com frequência por personagens que aparecem no documentário. Os americanos Josh e Ryan, amigos de longa data, bem sucedidos no trabalho e donos de salários bastante altos, são um ótimo exemplo de como o “eu” pode atuar como agente regulatório. Ambos decidem abrir mão de uma vida consumista e adotar o minimalismo como um novo padrão para se viver: juntos, lançaram um site (theminimalists.com), escreveram livros, rodaram os Estados Unidos para, nas palavras deles: “inspirar e ajudar outras pessoas” ou, ainda, para “espalhar uma receita para uma nova vida”.

Nas palestras que proferem, a narrativa autobiográfica é a linha central; eles contam ao público como a vida era superficial e vazia quando viviam para trabalhar e consumir e afirmam que, ao adotarem o minimalismo como nova conduta, encontraram a verdadeira felicidade e o sentido da vida.

A dupla se autodenomina “os minimalistas” e possui não apenas site ou livros publicados, mas também canais nas redes sociais e podcasts, em que busca divulgar sua mensagem e sua receita para uma nova vida. Podemos enxergar neste fenômeno um nítido alinhamento com o discurso da autoajuda, já que, segundo Francisco Rudiger, estudioso do tema:

“A literatura de autoajuda constitui uma das mediações através das quais as pessoas comuns procuram construir um eu de maneira reflexiva, gerenciar os recursos subjetivos e, desse modo, enfrentar os problemas colocados ao indivíduo pela modernidade” (RUDIGER, 1996, p.13)

Assim como as histórias de Josh e Ryan, outros depoimentos autobiográficos sustentam o argumento do documentário. Pessoas que abandonaram suas casas enormes, para viver em locais minúsculos e compactos, dão seus testemunhos. As pequenas casas, por sua vez, são projetos arquitetônicos altamente especializados. No filme, não se fala em valores, mas podemos imaginar que muitos dígitos definem o preço dessas casas, já que elas pertencem a um universo de consumo exclusivo. É para poucos. E isso que incomoda no documentário. Também incomoda a forma como os discursos são construídos, sobre uma lógica bastante egocêntrica, em que personagens falam de suas vidas e escolhas pessoais com a certeza de que elas são as melhores para todos e, ainda, que são capazes de resolver questões sociais um tanto amplas e complexas.

O minimalismo é apresentado, no documentário, como um caminho fácil, algo que está na mão, pronto para ser adotado por qualquer cidadão comum, mas, na realidade, é para poucos, pois ele perpetua e reforça um circulo de privilégios e, ao mesmo tempo em que prega uma vida mais simples, fecha-se no circuito de um mercado com produtos e serviços que prometem uma vida descomplicada e que, exatamente por isso, tendem a apresentar valores exorbitantes.

O minimalismo na moda, por exemplo, prega por um guarda-roupa enxuto, mas com peças de boa qualidade. Sua lógica defende, por exemplo, a compra de um sapato artesanal, feito à mão, que dure longo período e que, por tais características, apresenta um valor de aproximadamente R$900,00. O mesmo vale para as residências minimalistas, como apartamentos de 14m2 na Av. Faria Lima, em São Paulo. O valor destes imóveis ultrapassa a casa do milhão e o condomínio também atinge um valor alto e pouco acessível.

Assim, o minimalismo como oposição ao consumismo soa como uma proposta um tanto intrigante. No documentário, ele é apresentado como uma receita pronta para a felicidade e, como na típica literatura de autoajuda, caracteriza-se por um discurso prescritivo, que tem como principal objetivo propor regras de conduta e fornecer conselhos – como afirma Rudiger. Mas, é preciso questionar estes estilos de vida ‘enlatados’ que chegam a nós, cotidianamente, por meio das produções e dos discursos midiáticos.

Acredito que precisamos, sim, consumir de maneira consciente, repensar acúmulos e excessos, compreender o valor e os significados imbricados naquilo que consumimos ou naquilo que deixamos de consumir. Porém, abrir um novo circuito de consumo e oferecê-lo como uma opção contrária ao consumismo, me parece uma saída um tanto contraditória para resolver as angústias e patologias das sociedades capitalistas.

Para termos uma organização social prioritariamente minimalista, contrária à sociedade de hábitos consumistas que vemos atualmente (como propõe o documentário), precisamos fortalecer os pilares que sustentam nossas sociedades.

Ser minimalista, a meu ver, passa pela criticidade de cada sujeito ao refletir sobre o seu papel na sociedade; passa pelo nível de entendimento que se tem desta mesma sociedade. E, para que tal reflexão seja possível, é preciso garantir oportunidades educacionais de qualidade a todos, sem distinção.

O minimalismo só fará sentido quando for um discurso capaz de tocar a todos, caso contrário, será apenas uma ideia restrita a um grupo privilegiado, que por experimentar o excesso, optou por descarta-lo, mas possui o conforto de voltar a ele, sempre que sentir necessidade. Isso não transforma estruturas, apenas mantém privilégios.

 

Textos consultados

BUTLER, Judith. Relatar a si mesmo: crítica da violência ética. Tradução Rogério Bettoni. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

ROSE, Nikolas. Como se deve fazer a história do eu? Revista Educação e Realidade. Nº 26 (1). P. 33-57. jan/jul 2001.

RUDIGER, Francisco. Literatura de auto-ajuda e individualismo. Porto Alegre: Editora da Ufrgs, 1996.

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Criança, do latim “creare”.

Em uma breve retomada etimológica da palavra ‘criança’, descobrimos que sua origem vem do latim ‘creare’, do mesmo radical que derivam as palavras ‘criação’ e ‘criatividade’. Uma raiz bastante pertinente, que dialoga intimamente com o universo da infância.

Em seu contato com o mundo, as crianças são extremamente imaginativas. Estão, a todo o momento, atentas e curiosas ao seu entorno, numa relação constante de construções e desconstruções. Elas transformam-se em pássaro, monstro e flor, simultaneamente. De uma caixa de papelão, fazem um castelo, inventam histórias para as borboletas e para o sol; criam seus mundos.

Porém, será que nós, adultos, estamos permitindo que as crianças exerçam essa criatividade, que lhes é tão inata, de forma livre e espontânea? Em uma sociedade conduzida pela lógica do capital, essa pergunta é importante e cabe, principalmente, aos grandes centros urbanos, em que a dinâmica do consumo já se naturalizou, influenciando o ritmo de vida de muitos.

Vivemos sob discursos que se direcionam claramente ao consumismo. A ideia central é consumir, descartar, consumir novamente e entrar de cabeça neste ciclo, responsável por alimentar e sustentar indústrias dos mais distintos produtos e serviços.

Dentro desta lógica, deixamos de ser autores e nos tornamos exclusivamente proprietários; usufruímos daquilo que nos é apresentado como necessário e, assim, mergulhamos numa dinâmica consumista. Precisamos estar atentos e questionar se realmente necessitamos de tudo aquilo que o discurso do consumo nos propõe, principalmente quando pensamos nas crianças e em como estamos lidando com a questão do consumismo na infância.

A indústria voltou-se com empenho ao público infantil, principalmente a partir da década de 60, quando estudiosos do marketing perceberam que a construção do consumidor começava ainda na infância e que crianças influenciavam, inclusive, decisões de compra dos adultos.  Estudo realizado em 2015 pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) com mães das 27 capitais apontou que seis em cada dez mães (64,4%) atendem aos apelos dos filhos quando eles pedem algum produto considerado desnecessário, como brinquedos, roupas e doces.

O mercado diz que tais produtos são fundamentais para a vivência de uma infância plena e feliz, e aos educadores (leia-se pais, professores e demais adultos que participam da vida da criança) resta questionar esse discurso da necessidade, apresentado em cada propaganda e embalagem de produto infantil.

Cachorros-robô que latem e pedem carinho; bonecas e suas vozes mecânicas; replicas de celulares, casinhas e comidinhas de plástico. Todos envoltos por embalagens ‘extraordinárias’, carregadas de promessas que levam à ideia da felicidade. São brinquedos com tantas funções, que o manual de instruções se faz necessário, trazendo o passo a passo sobre como utilizá-los.

Além disso, o brinquedo oferecido pela indústria vem repleto de sentidos e significados, intimamente ligados aos valores, símbolos e crenças do mundo dos adultos. Assim, antes de pagarmos pelas imensas embalagens e seus produtos de plástico, precisamos entender o que significa o brincar na vida de uma criança: será que ele ocorre apenas na presença destes brinquedos industrializados?

A brincadeira é a forma como a criança se expressa, como ela descobre o mundo e como descobre a si mesma. Durante o brincar a criança acessa seu imaginário; cria, recria, monta e desmonta, entra em contato com seus sentimentos e vontades; investiga, constrói hipóteses, organiza suas fantasias e exerce a sua criatividade.

Brincar traz a possibilidade de autoria e autonomia, é um percurso necessário e extremamente rico; é a própria linguagem infantil. Ao entregarmos um brinquedo repleto de botões e funções pré-determinadas tiramos a riqueza do percurso, oferecemos o pronto, empobrecendo as possibilidades de criação; a criança vira proprietária e não construtora.

O excesso de brinquedos industrializados também contribui para o distanciamento com os materiais simples que estão presentes ao seu redor, como os elementos da natureza. Com brinquedos extremamente rebuscados em termos de funções e tecnologia, as brincadeiras tendem a limitar-se a espaços internos e, assim, a criança perde a oportunidade de explorar os tantos sentidos que a natureza oferece e que são tão fundamentais ao enriquecimento dos processos de aprendizagem e ao próprio desenvolvimento humano.

A criança, sobretudo entre os 0 e 6 anos, período definido como ‘primeira infância’, precisa de experiências táteis e principalmente, afetivas; são essas as recordações e as vivências que, para ela, serão inesquecíveis. A educadora e antropóloga Adriana Friedmann, em seu livro ‘ Linguagens e Culturas Infantis’ provoca: “A infância é, ou deveria ser, um período de experimentações, sensações, sabores, cores, brincadeiras. Mas, no mundo atual, o que está interferindo para que esta infância não seja vivida de forma plena e saudável?”.

É preciso cuidar para que as crianças não vivenciem somente experiências de ter, que as tornem exclusivamente proprietárias. Elas necessitam de tempo, espaço e liberdade para potencializar sua linguagem mais genuína, que é o brincar. Deixemos que elas criem, e ergam seus próprios mundos.

Infância e sociedade de consumo: cuidar é preciso!

No prefácio do livro “Exercícios de ser criança”, de Manoel de Barros, Pascoal Soto lança a pergunta: “Uma peneira, um caixote e duas latas de goiabada. Quem seria capaz de construir um mundo a partir desses objetos?”.

As crianças; é claro! Mas, será que estamos permitindo que elas brinquem livremente? Que construam seus próprios mundos e seus próprios brinquedos de forma espontânea?

Em uma sociedade conduzida pela lógica do capital, essas perguntas são pertinentes e cabem, principalmente, aos grandes centros urbanos, em que a dinâmica do consumo já se naturalizou, determinando o ritmo de vida de muitos.

Vivemos sob discursos que se direcionam claramente ao consumismo. A ideia central é consumir, descartar, consumir novamente e entrar de cabeça neste ciclo, responsável por alimentar e sustentar as indústrias de produtos e serviços.

brinquedo-infantil

A partir de materiais simples, que fazem parte do dia a dia, podem surgir muitos brinquedos e brincadeiras!

Dentro desta lógica, deixamos de ser autores e nos tornamos proprietários; usufruímos daquilo que nos é posto como necessário e assim, sem perceber, mergulhamos na dinâmica consumista. Precisamos estar atentos: será que realmente necessitamos de tudo aquilo que o discurso do consumo nos impõe?

A reflexão é fundamental, principalmente quando pensamos nas crianças. Como estamos lidando com a questão do consumismo na infância? Essa pergunta relaciona-se de forma intima com a discussão sobre brinquedos industrializados versus brinquedos artesanais.

A indústria voltou-se com empenho ao público infantil, oferecendo um leque de produtos inimaginável. Mas, será que a criança realmente precisa destes tantos produtos para viver uma infância plena, saudável e feliz?

O mercado diz que sim, e aos educadores (leia-se pais, professores e demais adultos que participam da vida da criança) resta questionar esse discurso da necessidade, apresentado em cada propaganda e embalagem de produto infantil.

Um toddynho não deve fazer tão bem quanto a propaganda afirma, não é mesmo? Talvez seja melhor optar por um suco natural ou um leite cuja origem é conhecida. A mesma lógica serve à reflexão sobre os brinquedos que a indústria oferece: será mesmo que são as melhores opções para acompanhar a criança no momento do brincar?

Bonecas que choram e pedem mamadeira; cachorros-robô, que latem e pedem carinho; carrinhos com diversos botões e luzes; replicas de celulares, casinhas e bonecas de plástico, comidinhas de plástico, tudo de plástico! Plástico e muitos botões, sempre envoltos por embalagens extraordinárias, cheia de cores e mil promessas. Ah! Claro! Com tantas funções, o manual de instruções se faz necessário e já vem dentro da caixa, com o passo a passo para cada brinquedo.

É isso que queremos oferecer às nossas crianças?

Antes de pagarmos pelas imensas embalagens e seus produtos de plástico, precisamos entender o que significa o brincar na vida de uma criança. A brincadeira é a forma como a criança se expressa, como ela descobre o mundo e como descobre a si mesma. Durante a brincadeira ela acessa seu imaginário; cria, recria, monta e desmonta, entra em contato com seus sentimentos e vontades; investiga, constrói hipóteses, organiza suas fantasias e exerce a sua criatividade.

A brincadeira dá à criança a possibilidade de autoria e autonomia, é um percurso necessário e extremamente rico; é a própria linguagem infantil.

Ao entregarmos um brinquedo repleto de botões e funções pré-determinadas tiramos a possibilidade do percurso, entregamos o pronto e impossibilitamos toda uma caminhada de criação; a criança vira proprietária e não criadora.

O brinquedo oferecido pela indústria vem repleto de sentidos e significados, traz discursos pré-prontos e intimamente ligados aos valores, símbolos e crenças dos adultos. A criança, claro, brincará com ele e provavelmente será divertido, mas, será que nessa interação o potencial da brincadeira é exercido em toda a sua amplitude?

A imaginação de uma criança está além da compreensão dos adultos. Basta solta-la em um quintal e, com duas pedrinhas nas mãos, ela construirá um mundo inteiro. Então, se é assim, por que não deixa-la livre? O brinquedo artesanal, ou o brinquedo inventado, dá infinitas possibilidades à brincadeira. A construção do próprio brinquedo também possibilita outra relação com o brincar, que começa no momento em que a criança decide construi-lo. O processo de criação torna-se a própria brincadeira.

Muitas crianças – repare – quando ganham seus brinquedos industrializados logo buscam desconstrui-lo, procurando funções e significados para aquele objeto pronto que lhes foi entregue. A capacidade criadora é inerente à criança; tudo para ela significa um mar de possibilidades e sonhos.

Seria muito radical dizer um não definitivo aos brinquedos industrializados, mas é preciso pensar sobre o que eles significam para a criança e como afetam seu desenvolvimento.

Ter uma latinha de metal e dois pedaços de borracha em mãos pode ser tão ou mais precioso do que ter ao alcance um carrinho-robô de controle remoto.

Temos o dever de mostrar às crianças que elas são muito mais do que meras proprietárias; elas são criativas, são autoras, capazes de construir seu próprio mundo com aquilo que a natureza lhes oferece.  E ai mora outra problemática referente ao excesso de brinquedos industrializados: o afastamento em relação à natureza.

Com brinquedos extremamente rebuscados em termos de funções e tecnologia, as brincadeiras tendem a limitar-se a espaços internos ou, mesmo que a criança vá para fora, acaba atenta à tela ou às inúmeras funções do brinquedo. Assim, perde a oportunidade de explorar os tantos recursos que a natureza oferece e que são tão fundamentais ao enriquecimento dos processos de aprendizagem.

Vivemos num contexto que pede reflexão e questionamento. O consumo está posto, mas não por isso precisamos alimenta-lo de forma desvairada. Se pudermos mostrar às crianças que o mundo é infinito e extremamente rico para além dos shoppings centers e dos brinquedos de plástico, estaremos contribuindo para que elas ampliem seu olhar e, no futuro, sejam autônomas, criticas e seguras para exercer sua criatividade livremente.

Para terminar, fica a pergunta: quais brinquedos você está entregando às suas crianças? Seja nas escolas, em casa ou nas brinquedotecas, precisamos pensar sobre a função dos brinquedos e do brincar e assegurar que eles sejam livres e espontâneos, afinal, na criança vive o inédito, qualidade tão preciosa e necessária à renovação e reinvenção do mundo! Vamos cuidar do brincar, vamos cuidar das crianças, vamos cuidar do mundo!

Para inspirar!

Projeto Tree Change Dolls – O projeto é uma grande reflexão às indústrias de brinquedo. Será que as Barbies e outras bonecas oferecidas pelo mercado conversam com o universo infantil? A Australiana Sonia Singh nos dá a resposta. Iniciativa emocionante e muito sensível!

Projeto Território do Brincar – A educadora Renata Meirelles, seu marido e filhos percorreram, durante dois anos, diversas comunidades ao redor do Brasil, a fim de conhecer e registrar as diferentes brincadeiras e linguagens infantis. Vale clicar! O material coletado é uma relíquia sobre as infâncias brasileiras.

Brincar: um campo de subjetivação na infância (Claudia Santos Jardim) – Dica de leitura para quem tem interesse em estudar e pensar sobre a infância e o brincar.

Este texto foi escrito para o Blog WPensar, parceiro do Educomunicação.

Por uma infância livre do consumismo

Sábado, shoppings lotados. Pais levam seus filhos para escolherem o brinquedo ‘mais bacana’. Soltam as crianças dentro de lojas megalomaníacas, repletas de cores, sons e cheiros que induzem, única e exclusivamente, ao consumo.

O filho escolhe o que quer, os pais compram. Chegando em casa, a criança, animada com o presente, brinca uma, duas, três, cinco vezes. Depois coloca a geringonça de canto e já pede o próximo e, assim, constrói-se um comportamento consumista.

Qual valor foi criado neste contexto? O valor do consumo e todas as suas implicações, por exemplo: ansiedade, competitividade, insatisfação.

O dia das crianças existe; não podemos fugir disso. Foi imposto pela lógica de mercado e reforçado pela mídia. Contudo, há outras formas de vivenciar a data.

Ao invés de dar um brinquedo, construa uma experiência. Faça um brinquedo junto com seu filho, pinte um quadro, planeje um passeio no parque ou leve os pequenos ao museu. Feiras de troca de brinquedos também são ótimas opções, pois afastam as crianças das angustias do consumismo, além de coloca-las em situações de escolha, de troca e de compartilhamento.

Um passeio no parque, por exemplo, pode contribuir para que a criança desenvolva o seu entendimento sobre a natureza e se aproxime dela. Enfim, são escolhas. E essas escolhas, feita pelos pais, terão grande influência nas escolhas e na postura que os filhos tomarão na vida adulta.

DICA!

Neste domingo, 12/10, acontecerá em São Paulo a Feira de Trocas do Instituto Alana. O encontro será na Praça Eder Saber (Rua Fidalga, Vila Madalena), das 14 às 17h.

As feiras são organizadas por quem acredita na importância de refletir sobre o consumo. Não é preciso uma organização ou instituição, qualquer cidadão pode fazer uma feira de forma autônoma!

ORGANIZE A SUA FEIRA DE TROCAS!

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A responsabilidade com o mundo

‘A moral dominante desumaniza a natureza e desnaturaliza o homem”

Cristiane Yuka

Ontem tive o privilégio de assistir uma aula inesquecível. Uma aula daquelas que mexem com a gente e fazem a diferença. O tema era ‘Ética e Sustentabilidade’ e, confesso, não consegui segurar as lágrimas. A professora propôs reflexões que já fazem parte da minha vida, mas pensar junto é sempre gratificante, ainda mais quando a oradora é sensível e consegue passar verdade e emoção em suas palavras.

“Ética” e “sustentabilidade”, palavras que escutamos com frequência. Mas, sabemos o real significado de ser “ético” e “sustentável”? Agimos de acordo com esses dois ideais?

É difícil ser integralmente ético: quem nunca colou na escola ou furou o sinal vermelho numa madrugada qualquer? Sim, essas são atitudes que vão contra uma postura considerada ética. E, se falamos em ‘ética’, falamos em integridade e responsabilidade. Responsabilidade com você, com o mundo, com o próximo. Falamos de valores.

Colar parece muito natural; quem nunca? Mas, trata-se de uma mentira que você conta a si próprio e, assim, coloca em questionamento a sua integridade.  O mesmo raciocínio vale para queles que furam o sinal vermelho, ao fazê-lo, você coloca em risco a sua vida e a vida do próximo. São atitudes que parecem pequenas, mas que já possibilitam uma primeira discussão sobre ética e também sobre sustentabilidade, uma vez que a ideia central desta última é a preservação da vida. Temos que agir de modo a preservar e cuidar da nossa morada, mas, dentro da nossa arrogância, acabamos desnaturalizados, separados da nossa essência e raiz, que é a natureza e, desta forma, perdemos a consciência de que devemos cuidá-la e amá-la.

Sustentabilidade e Ética

A ética baseia-se em valores e difere-se da moral no sentido em que está última está calcada em normas. Ambas são necessárias para uma vida em sociedade, mas a ética destaca-se, já que é genuína à pessoa, que, se for íntegra, não precisará de normas para guiá-la; agirá de acordo com seus valores, que devem ser baseados no olhar ao próximo e ao mundo, sempre de forma a beneficiá-los. Ou seja, valores que priorizem a sustentabilidade da vida.

Ética é uma construção, aprende-se dentro da comunidade em que se está inserido, aprende-se dentro de casa, na escola, na mídia. Aprende-se a partir das relações estabelecidas e, neste momento, podemos pensar no tamanho comprometimento que existe quando decidimos colocar uma pessoa no mundo.

Os adultos, a partir do momento em que decidem ter um filho, devem estar cientes de que estabelecem uma enorme responsabilidade com o mundo, visto que devem educar esse filho para servir a comunidade da qual fazem parte, de modo a desenvolvê-la de forma justa e sustentável. Esse é o maior sucesso que os pais podem alcançar: tornar seus filhos pessoas éticas e responsáveis. Mas, para que isso seja possível, existe um trabalho delicado (e árduo).

A construção de valores é diária, e vem de exemplos, de experiências, de conversas, de interações. Pais que não são responsáveis ou éticos, dificilmente conseguirão criar filhos com sentido de comunidade e compreensão holística sobre o mundo e a importância de sua preservação.

A construção de valores está nos detalhes. E já que estamos próximos do dia das crianças, usarei a data como exemplo.

Sábado, shoppings lotados. Pais levam seus filhos para escolher o brinquedo ‘mais bacana’. Soltam as crianças dentro daquelas lojas megalomaníacas, repletas de cores, sons e cheiros que induzem única e exclusivamente ao consumo. O filho escolhe o que quer, os pais compram. Chegando em casa, a criança, animada com o presente, brinca uma, duas, três, cinco vezes. Depois coloca a geringonça de canto e já pede o próximo e, assim, constrói-se um comportamento de consumo desenfreado. Qual valor foi criado neste contexto? O valor do consumo e todas as suas implicações, por exemplo: ansiedade, desejo e insatisfação.

Bom, mas não podemos negar a data, certo? Ela existe, foi imposta pela lógica de mercado e reforçada pela mídia. Contudo,  há outras formas de vivenciar o dia das crianças. Ao invés de dar um brinquedo, construa uma experiência. Faça um brinquedo junto com seu filho, pinte um quadro, leve ele a um parque ou museu, crie uma experiência compartilhada que, além de estreitar os laços entre pais e filhos, ficará marcada na vida da criança e poderá modificá-la, de modo a construir valores que levarão a uma postura ética e sustentável.

Uma experiência, como pintar um quadro ou construir um brinquedo em conjunto, criará o senso de comunidade, de compartilhamento, valorização da arte e de pequenos prazeres da vida, que podem ser simples, porém grandiosos. Um passeio no parque, por exemplo, pode contribuir para que a criança desenvolva o seu entendimento sobre a natureza e se aproxime dela. Enfim, são escolhas. E essas escolhas, feita pelos pais, terão grande influencia nas escolhas e na postura que os filhos tomarão na vida adulta.

Por isso, ao colocar um ser humano no mundo, pense cuidadosamente em suas escolhas e exemplos, pois eles irão influenciar a construção de valores (a construção ética) de seus filhos e, dependendo dessa construção, o mundo será beneficiado ou prejudicado.

Dilemas da Publicidade Infantil

Discussões acerca da relação entre consumismo e infância estão ganhando cada vez mais espaço no meio acadêmico, midiático e até mesmo legislativo. Organizações como o Instituto Alana, por exemplo, travam lutas diárias a fim de regular o conteúdo publicitário dirigido às crianças e adolescentes e buscam conscientizar educadores, pais e instituições políticas sobre a importância do tema.

E, de fato, trata-se de um tema digno de ser debatido, principalmente por ser extremamente atual e estar presente no dia a dia de todos nós.

As empresas, naturalmente, querem vender e, por meio da propaganda, divulgam suas ideias, produtos e mensagens que têm como grande objetivo levar o espectador à compra. Cabe a este espectador ( e potencial comprador) processar o recado e entender se aquilo lhe cabe ou não, ou seja, se deseja (ou se precisa) realizar a compra e quais serão os prós e os contras de sua ação. Mais do que isso, cabe ao espectador fazer uma leitura crítica do conteúdo que lhe é oferecido via publicidade, só assim ele poderá assumir posição de consumidor consciente e ativo, que não se deixa envolver facilmente pelas estratégias de sedução típicas às mensagens publicitárias.

As crianças, porém, fazem parte de um grupo que ainda está desenvolvendo criticidade. Ainda estão conhecendo o mundo e construindo suas habilidades cognitivas, que são baseadas, majoritariamente, em estímulos externos; todos os recados e exemplos que chegam às crianças serão importantes para a sua formação como ser humano.

A propaganda, por ser tão presente no dia a dia de todos, acaba entrando como uma referência aos pequenos, que por não compreenderem claramente a intenção de venda e as diferentes perspectivas entre vendedor e comprador, tornam-se um bom alvo para as empresas. Os estímulos visuais e sonoros são extremamente envolventes (inclusive em propagandas televisivas) e captam o público infantil de forma mais fácil.

As cores, jingles, personagens e histórias contadas são técnicas eficazes. As propagandas mostram que determinados produtos são sinônimo de felicidade, diversão, alegria e a criança, por não entender a dinâmica mercadológica, deseja somente uma coisa: o produto que vai fazê-la feliz.

Para as empresas o objetivo é claro – vender – e, no que diz respeito a atingir o público infantil, adota-se uma estratégia de marketing conhecida como “do berço ao túmulo”: captam consumidores ainda crianças, trabalham na construção de fidelidade à marca e, assim, garantem que estas crianças continuem consumidoras de seus produtos mesmo após atingir a idade adulta.

Além disso, o público infantil tem grande influência nas decisões de compra da família e, também por isso, chama a atenção das empresas. Os pais sentem-se tentados a comprar aquilo que o filho pede e, muitas vezes, a negação à compra pode gerar conflitos e comportamentos extremos na criança: hostilidade, choro, braveza ou até mesmo tristeza. Por isso é tão fundamental que os pais estejam sempre atentos à exposição dos filhos a certos estímulos que podem despertar atitudes como o consumismo e uma supervalorização material.

Fonte: Tribune Media Services, Boston Globe, Dan Waserman, 2000.

Tanto os pais como os educadores devem pensar sobre os benefícios e malefícios de deixar o filho/aluno na frente da TV, por exemplo. Muitos pais vêem na televisão uma ótima resolução para problemas como a falta de tempo para estar com as crianças. Nesse caso, porém, quem passa a educar é, muito mais, o conteúdo midiático do que as conversas em família e, assim, os jovens constroem valores, comportamentos e percepções que, muitas vezes, divergem da visão de seus pais.

Por isso é necessário estar perto. É preciso incentivar, desde sempre, um olhar crítico na criança. Pais e professores devem mostrar que nem sempre a mensagem publicitária tem a razão; que nem sempre o brinquedo X ou o restaurante Y é o melhor e mais gostoso, que há outras referências e possibilidades para se divertir.

Assim, quando a criança virar um adolescente e, posteriormente, adulto, terá tido outros referenciais em sua infância, o que a ajudará no processamento cognitivo do mundo e, inclusive, da publicidade.

Que fique claro, porém, que não se trata de um manifesto contra a propaganda, mas sim de uma mensagem de alerta para que os pais e educadores pensem na importância de educar as crianças e jovens para uma leitura crítica e consciente do mundo. Estamos inseridos em uma sociedade em que mensagens publicitárias e midiáticas colocam-se como grandes protagonistas de nossas vidas e, por isso, é importante conhecê-las para poder contestá-las.