Bebês brincam?

Bebês brincam? Como? E qual a melhor forma de estimulá-los?

Para refletir sobre essas perguntas, sugiro recorrermos aos estudos da pediatra húngara Emmi Pikler (1902-1984), fundadora  do Instituto Loczy, em Budapeste. O Instituto funcionava como uma espécie de orfanato e ali ela passou a observar bebês e estudá-los profundamente. De forma bastante resumida – e introdutória – passarei por alguns pontos defendidos pela abordagem desenvolvida por E. Pikler e, ao final do texto, deixarei sugestões de leitura para aqueles que desejarem conhecer mais a fundo o trabalho dela.

A abordagem desenvolvida pela pediatra valoriza, sobretudo, o protagonismo do bebê e discute com profundidade a questão do corpo, e como ele, muitas vezes, é o próprio brinquedo da criança.

Ela acredita que todo o potencial de exploração está no corpo. A criança ter a possibilidade de movimento, para Emmi Pikler, é fundamental e todo o seu estudo baseia-se numa perspectiva que considera a criança como capaz (muitas vezes os adultos acham que um bebê não é capaz ou que não tem muito que aprender). Essa visão, que concebe o bebê quase como uma ‘marionete’, vai travando as possibilidades de um desenvolvimento autônomo.

A abordagem Pikler sugere que os bebês sejam colocados em uma superfície firme e plana, numa posição em que fiquem livres para mexer todas as articulações. Para Emmi Pikler, a liberdade para movimentar as pernas, os braços ou para virar/desvirar o corpo é fundamental para um desenvolvimento saudável.

Colocar a criança em uma posição confortável que lhe dê liberdade, deixá-la em espaços amplos, disponibilizar diferentes tipos de materiais com texturas, temperaturas, cheiros, cores diferentes (como bacias, colheres, panos) são algumas formas de estimular um bebê e contribuir para o desenvolvimento de sua autonomia, já que as descobertas e as curiosidades partirão dele, assim como as escolhas. Ele que escolherá com o que deseja interagir e por quanto tempo deseja ficar naquela experiência… E, por falar em tempo, esse é outro ponto fundamental a ser discutido.

O tempo de um bebê (e o da criança no geral) é diferente do nosso (na realidade cada ser humano tem um tempo próprio, não é mesmo?). Um bebê pode passar um longo tempo olhando e tocando um pano, descobrindo cada detalhe, sentindo o cheiro, a textura, a temperatura… E, sob a abordagem Pikler, o ideal é que o adulto respeite esse tempo e tente interferir o mínimo possível no momento de investigação do bebê (o que pode ser um tanto difícil, já que nosso impulso inicial é oferecer ajuda, oferecer novos brinquedos, etc). Como adultos, e cuidadores, devemos respeitar o tempo e também os interesses do bebê. A ideia é que o brincar aconteça o mais livre possível, como uma atividade de investigação.

Se o bebê está com dificuldade de pegar um objeto que está próximo, o ideal é esperar um pouco até facilitar a entrega do objeto, pois nos minutos seguintes, quem sabe, ele pegará por conta própria… E, então, terá realizado uma tarefa a partir de seu próprio esforço Será uma conquista! São essas experiências, à primeira vista tão simples, que contribuirão para toda a história que virá pela frente. As experiências da primeiríssima infância (0 a 3 anos) são, todas elas,  fundamentais e terão implicações para toda a vida.

Complementando a reflexão, vale dizer também que muitos brinquedos que são vendidos nas lojas sob o rótulo de “brinquedos para crianças” ou “para bebês” na realidade não atendem essas necessidades de descoberta e não proporcionam essas experiências de autonomia e escolha. Muitos destes brinquedos industrializados são recheados de cores, barulho, luzes e, geralmente, sempre de plástico (o que reduz muito as possibilidades de descoberta – a não ser que o plástico seja disponibilizado com outros tipos de materiais).

Talvez o bebê precise do silêncio, ou esteja interessado em observar o movimento de suas próprias mãozinhas e, ao colocarmos um brinquedo repleto de informações logo acima de sua cabeça, ou tampando a sua visão no berço e no carrinho, tiramos toda a possibilidade de exploração e de autonomia da criança. Ela se vê restrita a essa única experiência oferecida pelo brinquedo (que tantas vezes provoca uma hiperestimulação desnecessária).

Ainda sobre esta questão dos brinquedos industrializados, é importante destacar  que a abordagem Pikler sugere que sejam explorados os objetos do cotidiano (como exemplificado anteriormente) – ou seja – além de contribuírem de forma mais relevante ao desenvolvimento da criança, esses objetos já estão em nossas casas – não precisamos gastar fortunas com brinquedos que, tantas vezes, são repletos de botões e informações, mas vazios no que se refere às experiências oferecidas aos bebês.

Como dito no início, este foi apenas um breve resumo, que passou rapidamente por algumas das principais ideias defendidas pela abordagem Pikler. Abaixo, como prometido, compartilho alguns conteúdos para aprofundamento.

 

Foto: Pixabay

Criança, do latim “creare”.

Em uma breve retomada etimológica da palavra ‘criança’, descobrimos que sua origem vem do latim ‘creare’, do mesmo radical que derivam as palavras ‘criação’ e ‘criatividade’. Uma raiz bastante pertinente, que dialoga intimamente com o universo da infância.

Em seu contato com o mundo, as crianças são extremamente imaginativas. Estão, a todo o momento, atentas e curiosas ao seu entorno, numa relação constante de construções e desconstruções. Elas transformam-se em pássaro, monstro e flor, simultaneamente. De uma caixa de papelão, fazem um castelo, inventam histórias para as borboletas e para o sol; criam seus mundos.

Porém, será que nós, adultos, estamos permitindo que as crianças exerçam essa criatividade, que lhes é tão inata, de forma livre e espontânea? Em uma sociedade conduzida pela lógica do capital, essa pergunta é importante e cabe, principalmente, aos grandes centros urbanos, em que a dinâmica do consumo já se naturalizou, influenciando o ritmo de vida de muitos.

Vivemos sob discursos que se direcionam claramente ao consumismo. A ideia central é consumir, descartar, consumir novamente e entrar de cabeça neste ciclo, responsável por alimentar e sustentar indústrias dos mais distintos produtos e serviços.

Dentro desta lógica, deixamos de ser autores e nos tornamos exclusivamente proprietários; usufruímos daquilo que nos é apresentado como necessário e, assim, mergulhamos numa dinâmica consumista. Precisamos estar atentos e questionar se realmente necessitamos de tudo aquilo que o discurso do consumo nos propõe, principalmente quando pensamos nas crianças e em como estamos lidando com a questão do consumismo na infância.

A indústria voltou-se com empenho ao público infantil, principalmente a partir da década de 60, quando estudiosos do marketing perceberam que a construção do consumidor começava ainda na infância e que crianças influenciavam, inclusive, decisões de compra dos adultos.  Estudo realizado em 2015 pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) com mães das 27 capitais apontou que seis em cada dez mães (64,4%) atendem aos apelos dos filhos quando eles pedem algum produto considerado desnecessário, como brinquedos, roupas e doces.

O mercado diz que tais produtos são fundamentais para a vivência de uma infância plena e feliz, e aos educadores (leia-se pais, professores e demais adultos que participam da vida da criança) resta questionar esse discurso da necessidade, apresentado em cada propaganda e embalagem de produto infantil.

Cachorros-robô que latem e pedem carinho; bonecas e suas vozes mecânicas; replicas de celulares, casinhas e comidinhas de plástico. Todos envoltos por embalagens ‘extraordinárias’, carregadas de promessas que levam à ideia da felicidade. São brinquedos com tantas funções, que o manual de instruções se faz necessário, trazendo o passo a passo sobre como utilizá-los.

Além disso, o brinquedo oferecido pela indústria vem repleto de sentidos e significados, intimamente ligados aos valores, símbolos e crenças do mundo dos adultos. Assim, antes de pagarmos pelas imensas embalagens e seus produtos de plástico, precisamos entender o que significa o brincar na vida de uma criança: será que ele ocorre apenas na presença destes brinquedos industrializados?

A brincadeira é a forma como a criança se expressa, como ela descobre o mundo e como descobre a si mesma. Durante o brincar a criança acessa seu imaginário; cria, recria, monta e desmonta, entra em contato com seus sentimentos e vontades; investiga, constrói hipóteses, organiza suas fantasias e exerce a sua criatividade.

Brincar traz a possibilidade de autoria e autonomia, é um percurso necessário e extremamente rico; é a própria linguagem infantil. Ao entregarmos um brinquedo repleto de botões e funções pré-determinadas tiramos a riqueza do percurso, oferecemos o pronto, empobrecendo as possibilidades de criação; a criança vira proprietária e não construtora.

O excesso de brinquedos industrializados também contribui para o distanciamento com os materiais simples que estão presentes ao seu redor, como os elementos da natureza. Com brinquedos extremamente rebuscados em termos de funções e tecnologia, as brincadeiras tendem a limitar-se a espaços internos e, assim, a criança perde a oportunidade de explorar os tantos sentidos que a natureza oferece e que são tão fundamentais ao enriquecimento dos processos de aprendizagem e ao próprio desenvolvimento humano.

A criança, sobretudo entre os 0 e 6 anos, período definido como ‘primeira infância’, precisa de experiências táteis e principalmente, afetivas; são essas as recordações e as vivências que, para ela, serão inesquecíveis. A educadora e antropóloga Adriana Friedmann, em seu livro ‘ Linguagens e Culturas Infantis’ provoca: “A infância é, ou deveria ser, um período de experimentações, sensações, sabores, cores, brincadeiras. Mas, no mundo atual, o que está interferindo para que esta infância não seja vivida de forma plena e saudável?”.

É preciso cuidar para que as crianças não vivenciem somente experiências de ter, que as tornem exclusivamente proprietárias. Elas necessitam de tempo, espaço e liberdade para potencializar sua linguagem mais genuína, que é o brincar. Deixemos que elas criem, e ergam seus próprios mundos.

Mobilização livre e lúdica celebra os 25 anos do ECA

Em julho de 2015 o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente – completa 25 anos. Para comemorar a data diversas organizações da sociedade civil se uniram no movimento “Juntos pelo Brincar”, uma mobilização livre e lúdica que ocorrerá no dia 5 de julho no Largo da Batata, zona oeste de São Paulo, das 10 às 16 horas. O objetivo é transformar o Largo em um grande espaço para o livre brincar, destinado às crianças e suas famílias.

CARTAZ DIGITAL COM PROGRAMAÇÃO OKA mobilização “Juntos pelo Brincar” foi construída coletivamente com base em três eixos importantes garantidos pelo ECA: o direito ao brincar, fundamental no desenvolvimento da criança e do adolescente; o direito à convivência familiar e comunitária como forma de inserção no meio social para que eles interajam com o mundo de maneira saudável e segura; e o direito ao espaço público para encorajar as crianças e adolescentes a se reconhecerem como cidadãos e sujeitos de direitos.

Já estão programadas mais de 20 atividades como brincadeiras de rua, oficinas de bicicleta, contação de histórias, apresentações musicais, sarau e yoga para crianças. Há uma ficha de inscrição prévia, mas no dia o espaço estará aberto e livre para quem quiser levar suas próprias brincadeiras.

A iniciativa conta com o apoio da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo e da Subprefeitura de Pinheiros. Os órgãos oferecerão as estruturas necessárias ao acolhimento das crianças e suas famílias, contribuindo para uma ocupação segura do espaço, onde todos possam exercer livremente o direito ao brincar, ao espaço público e à convivência comunitária.

A importância do ECA

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) foi o resultado de um intenso processo histórico de consenso e articulação da sociedade brasileira. O documento instituído pela Lei 8.069 no dia 13 de julho de 1990 foi inspirado pelas diretrizes fornecidas pela Constituição Federal de 1988 e passou a assegurar tratamento social e jurídico especial para crianças e adolescentes.

Mesmo considerando todas as garantias inscritas no ECA e na Constituição Federal, enfrentamos um momento de ameaça às conquistas realizadas. Diante do contexto atual entidades da sociedade civil decidiram apoiar esse evento que celebra a importância histórica dos 25 anos do ECA.

Serviço

Mobilização em celebração aos 25 anos do ECA

Local: Largo da Batata – São Paulo, SP.

Data: Domingo, 5 de julho de 2015.

Horário: das 10h às 16h

Inscrição de atividade: https://pt.surveymonkey.com/s/5S28ZGT

Mais informações: facebook.com/juntospelobrincar

Quem apoia: Casa do Brincar; Colégio Equipe; Educacuca; Fundação Maria Cecília Souto Vidigal – FMCSV; Instituto Alana; Instituto Aromeiazero; Instituto Equipe; Instituto Natura; Mapa da Infância Brasileira – MIB; Núcleo São Paulo da Rede Pikler Brasil; REBRINC – Rede Brasileira Infância e Consumo; RE Educação e Cultura; Respire Cultura; SampaPé!; UNICEF.

Longa metragem ‘Território do Brincar’ tem pré-estreia durante abertura da Ciranda de Filmes

Dia 20 de maio de 2015 ficou marcado por encanto e alegria. Na noite de abertura da Ciranda de Filmes, mostra de cinema focada em infância e educação, veio ao mundo o filme “Território do Brincar”, de Renata Meirelles e David Reeks. Uma produção da Maria Farinha Filmes e Ludus Vídeos e Cultura.

Em uma exibição para 800 convidados, o Auditório do Ibirapuera virou cenário para celebrar a infância. Os presentes foram recebidos com um cocktail inspirado na rota traçada pelos diretores do filme: durante dois anos eles percorreram diversas regiões do Brasil, ali relembradas pelos sanduiches de rabada, cuscuz paulista, beiju e saladinhas de feijão. Um primeiro gosto do que seria aquela noite.

E que noite! Se pudéssemos resumi-la em uma palavra, a escolhida seria ‘encontro’. Encontro de pessoas queridas e o encontro consigo mesmo. A sensibilidade do Projeto Território do Brincar, agora registrado em longa-metragem, tem o poder de nos transpor ao universo da infância e nos reconectar à nossa essência; nos faz refletir, acima de tudo, sobre o humano, pois é na criança que vive, da forma mais pura e genuína, a potência de todos nós.

Um filme que arranca lágrimas e risadas e que desenterra lembranças profundas. São 90 minutos de puro encantamento. Ao final, os convidados assistiram ao pocket show do grupo mineiro Uakti, responsável pela trilha sonora do filme. E a noite se encerrou com uma linda ciranda na voz de Tião Carvalho.

Além da pré-estreia, o filme Território do Brincar também entrou na programação da Ciranda de Filmes, que ocorreu no Cinesesc e no Cine Livraria Cultura, entre 21 e 24 de maio. No dia 21/05 o filme foi exibido ao público da Ciranda e, no dia 22, a equipe do longa ministrou a Oficina ‘Desvendando o Processo Cinematográfico’, oportunidade em que conversaram com o público sobre os bastidores do filme.

O Território do Brincar chegará aos cinemas de São Paulo e Rio de Janeiro no dia 28 de maio e, no dia 4 de Junho, será lançado nos cinemas de Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis, Brasília, Belo Horizonte, Salvador, João Pessoa e Santos.

Lançamento do longa-metragem 'Território do Brincar'. Foto: Aline Arruda.

Lançamento do longa-metragem ‘Território do Brincar’. Foto: Aline Arruda.

Texto publicado originalmente no site do Projeto Território do Brincar.

Infância e sociedade de consumo: cuidar é preciso!

No prefácio do livro “Exercícios de ser criança”, de Manoel de Barros, Pascoal Soto lança a pergunta: “Uma peneira, um caixote e duas latas de goiabada. Quem seria capaz de construir um mundo a partir desses objetos?”.

As crianças; é claro! Mas, será que estamos permitindo que elas brinquem livremente? Que construam seus próprios mundos e seus próprios brinquedos de forma espontânea?

Em uma sociedade conduzida pela lógica do capital, essas perguntas são pertinentes e cabem, principalmente, aos grandes centros urbanos, em que a dinâmica do consumo já se naturalizou, determinando o ritmo de vida de muitos.

Vivemos sob discursos que se direcionam claramente ao consumismo. A ideia central é consumir, descartar, consumir novamente e entrar de cabeça neste ciclo, responsável por alimentar e sustentar as indústrias de produtos e serviços.

brinquedo-infantil

A partir de materiais simples, que fazem parte do dia a dia, podem surgir muitos brinquedos e brincadeiras!

Dentro desta lógica, deixamos de ser autores e nos tornamos proprietários; usufruímos daquilo que nos é posto como necessário e assim, sem perceber, mergulhamos na dinâmica consumista. Precisamos estar atentos: será que realmente necessitamos de tudo aquilo que o discurso do consumo nos impõe?

A reflexão é fundamental, principalmente quando pensamos nas crianças. Como estamos lidando com a questão do consumismo na infância? Essa pergunta relaciona-se de forma intima com a discussão sobre brinquedos industrializados versus brinquedos artesanais.

A indústria voltou-se com empenho ao público infantil, oferecendo um leque de produtos inimaginável. Mas, será que a criança realmente precisa destes tantos produtos para viver uma infância plena, saudável e feliz?

O mercado diz que sim, e aos educadores (leia-se pais, professores e demais adultos que participam da vida da criança) resta questionar esse discurso da necessidade, apresentado em cada propaganda e embalagem de produto infantil.

Um toddynho não deve fazer tão bem quanto a propaganda afirma, não é mesmo? Talvez seja melhor optar por um suco natural ou um leite cuja origem é conhecida. A mesma lógica serve à reflexão sobre os brinquedos que a indústria oferece: será mesmo que são as melhores opções para acompanhar a criança no momento do brincar?

Bonecas que choram e pedem mamadeira; cachorros-robô, que latem e pedem carinho; carrinhos com diversos botões e luzes; replicas de celulares, casinhas e bonecas de plástico, comidinhas de plástico, tudo de plástico! Plástico e muitos botões, sempre envoltos por embalagens extraordinárias, cheia de cores e mil promessas. Ah! Claro! Com tantas funções, o manual de instruções se faz necessário e já vem dentro da caixa, com o passo a passo para cada brinquedo.

É isso que queremos oferecer às nossas crianças?

Antes de pagarmos pelas imensas embalagens e seus produtos de plástico, precisamos entender o que significa o brincar na vida de uma criança. A brincadeira é a forma como a criança se expressa, como ela descobre o mundo e como descobre a si mesma. Durante a brincadeira ela acessa seu imaginário; cria, recria, monta e desmonta, entra em contato com seus sentimentos e vontades; investiga, constrói hipóteses, organiza suas fantasias e exerce a sua criatividade.

A brincadeira dá à criança a possibilidade de autoria e autonomia, é um percurso necessário e extremamente rico; é a própria linguagem infantil.

Ao entregarmos um brinquedo repleto de botões e funções pré-determinadas tiramos a possibilidade do percurso, entregamos o pronto e impossibilitamos toda uma caminhada de criação; a criança vira proprietária e não criadora.

O brinquedo oferecido pela indústria vem repleto de sentidos e significados, traz discursos pré-prontos e intimamente ligados aos valores, símbolos e crenças dos adultos. A criança, claro, brincará com ele e provavelmente será divertido, mas, será que nessa interação o potencial da brincadeira é exercido em toda a sua amplitude?

A imaginação de uma criança está além da compreensão dos adultos. Basta solta-la em um quintal e, com duas pedrinhas nas mãos, ela construirá um mundo inteiro. Então, se é assim, por que não deixa-la livre? O brinquedo artesanal, ou o brinquedo inventado, dá infinitas possibilidades à brincadeira. A construção do próprio brinquedo também possibilita outra relação com o brincar, que começa no momento em que a criança decide construi-lo. O processo de criação torna-se a própria brincadeira.

Muitas crianças – repare – quando ganham seus brinquedos industrializados logo buscam desconstrui-lo, procurando funções e significados para aquele objeto pronto que lhes foi entregue. A capacidade criadora é inerente à criança; tudo para ela significa um mar de possibilidades e sonhos.

Seria muito radical dizer um não definitivo aos brinquedos industrializados, mas é preciso pensar sobre o que eles significam para a criança e como afetam seu desenvolvimento.

Ter uma latinha de metal e dois pedaços de borracha em mãos pode ser tão ou mais precioso do que ter ao alcance um carrinho-robô de controle remoto.

Temos o dever de mostrar às crianças que elas são muito mais do que meras proprietárias; elas são criativas, são autoras, capazes de construir seu próprio mundo com aquilo que a natureza lhes oferece.  E ai mora outra problemática referente ao excesso de brinquedos industrializados: o afastamento em relação à natureza.

Com brinquedos extremamente rebuscados em termos de funções e tecnologia, as brincadeiras tendem a limitar-se a espaços internos ou, mesmo que a criança vá para fora, acaba atenta à tela ou às inúmeras funções do brinquedo. Assim, perde a oportunidade de explorar os tantos recursos que a natureza oferece e que são tão fundamentais ao enriquecimento dos processos de aprendizagem.

Vivemos num contexto que pede reflexão e questionamento. O consumo está posto, mas não por isso precisamos alimenta-lo de forma desvairada. Se pudermos mostrar às crianças que o mundo é infinito e extremamente rico para além dos shoppings centers e dos brinquedos de plástico, estaremos contribuindo para que elas ampliem seu olhar e, no futuro, sejam autônomas, criticas e seguras para exercer sua criatividade livremente.

Para terminar, fica a pergunta: quais brinquedos você está entregando às suas crianças? Seja nas escolas, em casa ou nas brinquedotecas, precisamos pensar sobre a função dos brinquedos e do brincar e assegurar que eles sejam livres e espontâneos, afinal, na criança vive o inédito, qualidade tão preciosa e necessária à renovação e reinvenção do mundo! Vamos cuidar do brincar, vamos cuidar das crianças, vamos cuidar do mundo!

Para inspirar!

Projeto Tree Change Dolls – O projeto é uma grande reflexão às indústrias de brinquedo. Será que as Barbies e outras bonecas oferecidas pelo mercado conversam com o universo infantil? A Australiana Sonia Singh nos dá a resposta. Iniciativa emocionante e muito sensível!

Projeto Território do Brincar – A educadora Renata Meirelles, seu marido e filhos percorreram, durante dois anos, diversas comunidades ao redor do Brasil, a fim de conhecer e registrar as diferentes brincadeiras e linguagens infantis. Vale clicar! O material coletado é uma relíquia sobre as infâncias brasileiras.

Brincar: um campo de subjetivação na infância (Claudia Santos Jardim) – Dica de leitura para quem tem interesse em estudar e pensar sobre a infância e o brincar.

Este texto foi escrito para o Blog WPensar, parceiro do Educomunicação.

Por uma infância livre do consumismo

Sábado, shoppings lotados. Pais levam seus filhos para escolherem o brinquedo ‘mais bacana’. Soltam as crianças dentro de lojas megalomaníacas, repletas de cores, sons e cheiros que induzem, única e exclusivamente, ao consumo.

O filho escolhe o que quer, os pais compram. Chegando em casa, a criança, animada com o presente, brinca uma, duas, três, cinco vezes. Depois coloca a geringonça de canto e já pede o próximo e, assim, constrói-se um comportamento consumista.

Qual valor foi criado neste contexto? O valor do consumo e todas as suas implicações, por exemplo: ansiedade, competitividade, insatisfação.

O dia das crianças existe; não podemos fugir disso. Foi imposto pela lógica de mercado e reforçado pela mídia. Contudo, há outras formas de vivenciar a data.

Ao invés de dar um brinquedo, construa uma experiência. Faça um brinquedo junto com seu filho, pinte um quadro, planeje um passeio no parque ou leve os pequenos ao museu. Feiras de troca de brinquedos também são ótimas opções, pois afastam as crianças das angustias do consumismo, além de coloca-las em situações de escolha, de troca e de compartilhamento.

Um passeio no parque, por exemplo, pode contribuir para que a criança desenvolva o seu entendimento sobre a natureza e se aproxime dela. Enfim, são escolhas. E essas escolhas, feita pelos pais, terão grande influência nas escolhas e na postura que os filhos tomarão na vida adulta.

DICA!

Neste domingo, 12/10, acontecerá em São Paulo a Feira de Trocas do Instituto Alana. O encontro será na Praça Eder Saber (Rua Fidalga, Vila Madalena), das 14 às 17h.

As feiras são organizadas por quem acredita na importância de refletir sobre o consumo. Não é preciso uma organização ou instituição, qualquer cidadão pode fazer uma feira de forma autônoma!

ORGANIZE A SUA FEIRA DE TROCAS!

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Ser brincante

Nesta quarta participei de uma dinâmica promovida pelo Instituto Alana, Maria Farinha e ImpactHub e, como as boas experiências merecem ser compartilhadas, achei justo escrever um post sobre o assunto.

O Instituto Alana, organização que busca garantir as condições para a vivência plena da infância, em parceria com a Maria Farinha, produtora que tem como fio condutor contar histórias inspiradoras que provoquem transformação, lançaram o filme “Tarja Branca – a revolução que faltava”, um documentário que aborda a importância do lúdico no desenvolvimento humano.

O filme está no circuito alternativo e, na última quarta (10/9), foi exibido na sessão “Hub Pipoca”, promovida a cada 2 meses pelo ImpactHub.

Sobre o filme

É encantador! E nos leva a resgatar a nossa própria vida. Nos faz pensar sobre a infância que vivemos, as brincadeiras que mais gostávamos, os cheiros e sabores que nos faziam sorrir. Nos leva a um universo bonito, onde tudo acontecia por meio do brincar e, assim, descobria-se o mundo.

Que criança fomos nós? O que ficou dessa criança? São essas (e muitas outras!) perguntas que surgem ao longo das cenas do filme, sempre muito coloridas, cheias de felicidade e verdade. Cenas que nos convidam a brincar e a preencher a vida de alegria.

Mas, o que é o brincar e qual o lugar que ele ocupa em nossas vidas? E não falamos apenas das crianças, mas também dos adultos: qual a importância do brincar para o ser humano?

A verdade é que a infância nunca nos deixa, mas precisamos escuta-la e buscar formas de vivencia-la, mesmo em meio a rotina e aos inúmeros compromissos e responsabilidade que a maturidade nos impõe. Precisamos brincar, pois essa é a manifestação mais genuína que podemos ter.

Após a exibição do filme, fizemos uma roda de conversa, conduzida pela Ana Claudia Leite, gerente de educação do Instituto Alana. Pessoas que nunca haviam se encontrado trouxeram memórias sobre suas infâncias e vivências e falaram sobre a sensação que o filme despertou. Foi muito bonito, pois vemos que a infância, ao mesmo tempo que é tão particular, também é universal.

Os conflitos internos de cada um também são bastante parecidos: como brincar e sentir liberdade dentro de uma sociedade que prima pela produção e pelo capital? O sistema nos evoca a uma vida distante do lúdico e não podemos deixar que isso aconteça. Precisamos tomar a decisão de viver nossas infâncias, seja aos 4, aos 10, 30 ou aos 90 anos! Brincar é urgente, pelo simples fato de que viver é urgente!

Eu saí bastante emocionada do filme e com a feliz conclusão que sou uma pessoa brincante. Mesmo com as imposições muitas vezes cruéis do dia a dia, priorizo manter viva a criança que fui e que pretendo ser para sempre. O documentário me deu ainda mais certeza de que, ao fazer isso, estou cuidando de mim e daqueles que convivem comigo.

Para os interessados, segue abaixo trailer e ficha técnica do filme. IMPERDÍVEL!

Gênero: Documentário

Diretor: Cacau Rhoden

Produção: Brasil

Distribuição: Maria Farinha

Classificação Indicativa: Livre

Duração: 80 min

Elenco: Domingos Montagner, Wandi Doratiotto, Antônio Nóbrega

Sinopse: A partir dos depoimentos de adultos de gerações, origens e profissões diferentes, o documentário discorre sobre a pluralidade do ato de brincar, e como o homem pode se relacionar com a criança que mora dentro dele. Por meio de reflexões, o filme mostra as diferentes formas de como a brincadeira, ação tão primordial à natureza humana, pode estar interligada com o comportamento do homem contemporâneo e seu “espírito lúdico”.