Slow-Parenting: entenda o movimento dos pais sem pressa

Qual a sua lista de atividades para hoje? Provavelmente, será imensa e o tempo disponível não dará conta das tantas tarefas a serem cumpridas.  Se você morar em um grande centro urbano, então, esqueça. A probabilidade de realizar tudo aquilo a que se propôs será ainda menor, já que o ritmo da cidade e as expectativas geradas em torno do ‘fazer’ são incompatíveis com aquilo que está ao alcance de uma pessoa ‘comum’, dentro das suas 24h diárias.

Vivemos em um mundo que valoriza a velocidade, a produtividade e a quantidade. É preciso entregar o máximo possível, em tempo recorde. Trata-se da lógica capitalista, que rege a sociedade de consumo, na qual estamos todos inseridos.

Esse ritmo veloz interfere em nossa relação com o mundo e com nossos pares, afeta, inclusive, a possibilidade de conhecermos – e respeitarmos – nosso próprio tempo. Viver sob essa constante pressão também abre caminhos para que sentimentos como a ansiedade, a angústia e a desmotivação se manifestem.

Dentro dessa dinâmica acelerada, a competitividade assume papel relevante. São muitas empresas, muitos produtos, muitos funcionários, muitas tarefas: é preciso ser o melhor, sempre. E esse recado é reforçado pelo discurso publicitário, que cria expectativas irreais, ao apresentar um modelo de “perfeição” para tudo e todos que participam da sociedade. A “família perfeita”, o “pai perfeito”, a “mãe perfeita”, o “filho perfeito”, o “funcionário perfeito”, a “casa perfeita”, o “carro perfeito” e daí em diante.

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Para desacelerar a rotina das crianças, os pais precisam pensar em como estão organizando suas próprias vidas.

É preciso ser perfeito. Os pais vivem essa pressão e, pensando em preparar o filho para o mundo, também desejam que eles alcancem a perfeição. Contudo, a ideia de perfeição construída pela indústria da propaganda, em dialogia com o mercado, pode ser extremamente cruel e não endereçar as reais necessidades do humano, tanto em sua fase adulta, como também na infância.

Pensando em dar o melhor aos filhos, os pais estão incentivando o superagendamento da infância. Crianças de 3 anos dividem-se entre a escola, aulas de natação, inglês e música. Mas, será realmente necessário estabelecer essa rotina intensa e corrida? Será que o ritmo da criança acompanha as exigências de horários e atividades desta agenda?

Para a psicóloga Adriana Fóz, coordenadora do Projeto Cuca Legal (UNIFESP), é preciso respeitar o tempo da criança. “Até os 5 anos os estímulos têm que ser mais naturais e, dos 6 aos 12, pode-se pensar em aprender de forma mais sistematizada, porém, sempre respeitando o ritmo e as escolhas da própria criança”, afirma a psicóloga.

Esse respeito ao tempo da criança exige um exercício profundo, que deve começar quando o bebê ainda está na barriga. Os pais mostram-se ansiosos desde a concepção do filho e criam muitas expectativas em torno da maternidade/paternidade e da vida futura desta criança que, diga-se de passagem, mal chegou ao mundo. Na cabeça deles, precisam ser “superpais” e criar ‘superfilhos’.

Esse comportamento conversa com o modelo de vida que nos é imposto (e que deve ser questionado). Alguns estudiosos, como o jornalista canadense Carl Honoré, passaram a pensar respostas a esse estilo de vida ultra-acelerado. Honoré foi um dos precursores do movimento “Slow-Parenting”, cujo objetivo é desacelerar a rotina dos pais, para que consigam conhecer a si e, principalmente, conhecer e respeitar o tempo da criança. Pais ansiosos certamente passarão tal sentimento aos filhos.

Honoré explica que a ideia do “Slow” não significa ir “a passos de tartaruga”, mas sim encontrar o tempo certo para realizar determinadas atividades. Devido à ansiedade em dar sempre as melhores oportunidades aos filhos, os pais tendem a antecipar descobertas que aconteceriam naturalmente em outro momento, provavelmente com mais sentido e com maior potencial para um real aprendizado.

O movimento Slow também questiona a relação entre quantidade e qualidade. É preciso tempo para descobrir o mundo e crianças sabem disso; elas são naturalmente exploradoras, têm impulso por conhecer tudo o que as cerca e o farão, mas no tempo delas. Portanto, uma agenda lotada não necessariamente significa mais oportunidades para um desenvolvimento saudável, que garantirá melhores oportunidades no futuro. Muito pelo contrário. O Superagendamento pode interferir no desenvolvimento da criança, impossibilitando espaços para o exercício da criatividade e gerando ansiedade e estresse, por exemplo.

Por isso, é essencial que os pais escutem suas crianças e entendam como elas apreendem os estímulos externos. O tempo da criança, que surge dela própria, é fundamental para o desenvolvimento e a construção de sua autonomia e identidade.

A verdade é que, em tempos de aceleração da vida, deixar crianças serem crianças parece algo extremamente estrangeiro, quando deveria ser tão simples e natural.

Para o Pedagogo Paulo Fochi, um dos porta-vozes do Movimento Slow-Parenting no Brasil, educar passou a ser compreendido como um empreendimento do futuro. “Os pais entendem agendas lotadas como sinônimo de qualidade de vida”.

Em busca de oferecer o melhor, questionam-se: “Quais serão os novos produtos, aulas e afazeres que o mercado criou para o meu filho?” – Com essa pergunta, que tem sua origem no capitalismo e na sociedade de consumo, acabam colocando a criança no ritmo do capital e interferindo naquilo que a criança tem de mais genuíno: a espontaneidade!

Fochi defende que o tempo livre é essencial. “São nesses momentos que a criança irá experimentar, testar, abandonar, retomar um projeto. O tempo dá espaço para o inédito.”

Os pais precisam permitir aos filhos que construam suas próprias histórias. Crianças com rotinas que reproduzem agendas da vida adulta são submetidas a estilos de vida que podem interferir em sua autonomia, em sua autodescoberta e na descoberta do mundo.

O Slow-Parenting, portanto, configura-se como um movimento que incentiva o tempo livre e que busca equilibrar as expectativas familiares e as reais necessidades da criança. Defende a ideia da valorização dos pequenos prazeres em família.

Para desacelerar a rotina das crianças, porém, os pais precisam pensar em como estão organizando suas próprias vidas, o que estão priorizando e como estão se relacionando consigo mesmos. Vale a reflexão, não?

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Longa metragem ‘Território do Brincar’ tem pré-estreia durante abertura da Ciranda de Filmes

Dia 20 de maio de 2015 ficou marcado por encanto e alegria. Na noite de abertura da Ciranda de Filmes, mostra de cinema focada em infância e educação, veio ao mundo o filme “Território do Brincar”, de Renata Meirelles e David Reeks. Uma produção da Maria Farinha Filmes e Ludus Vídeos e Cultura.

Em uma exibição para 800 convidados, o Auditório do Ibirapuera virou cenário para celebrar a infância. Os presentes foram recebidos com um cocktail inspirado na rota traçada pelos diretores do filme: durante dois anos eles percorreram diversas regiões do Brasil, ali relembradas pelos sanduiches de rabada, cuscuz paulista, beiju e saladinhas de feijão. Um primeiro gosto do que seria aquela noite.

E que noite! Se pudéssemos resumi-la em uma palavra, a escolhida seria ‘encontro’. Encontro de pessoas queridas e o encontro consigo mesmo. A sensibilidade do Projeto Território do Brincar, agora registrado em longa-metragem, tem o poder de nos transpor ao universo da infância e nos reconectar à nossa essência; nos faz refletir, acima de tudo, sobre o humano, pois é na criança que vive, da forma mais pura e genuína, a potência de todos nós.

Um filme que arranca lágrimas e risadas e que desenterra lembranças profundas. São 90 minutos de puro encantamento. Ao final, os convidados assistiram ao pocket show do grupo mineiro Uakti, responsável pela trilha sonora do filme. E a noite se encerrou com uma linda ciranda na voz de Tião Carvalho.

Além da pré-estreia, o filme Território do Brincar também entrou na programação da Ciranda de Filmes, que ocorreu no Cinesesc e no Cine Livraria Cultura, entre 21 e 24 de maio. No dia 21/05 o filme foi exibido ao público da Ciranda e, no dia 22, a equipe do longa ministrou a Oficina ‘Desvendando o Processo Cinematográfico’, oportunidade em que conversaram com o público sobre os bastidores do filme.

O Território do Brincar chegará aos cinemas de São Paulo e Rio de Janeiro no dia 28 de maio e, no dia 4 de Junho, será lançado nos cinemas de Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis, Brasília, Belo Horizonte, Salvador, João Pessoa e Santos.

Lançamento do longa-metragem 'Território do Brincar'. Foto: Aline Arruda.

Lançamento do longa-metragem ‘Território do Brincar’. Foto: Aline Arruda.

Texto publicado originalmente no site do Projeto Território do Brincar.

Manoel, guardião de todos nós.

‘Quem se aproxima das origens se renova’.

Manoel de Barros é aquele tipo de pessoa necessária ao mundo. Faz parte do grupo de ‘guardiões da humanidade’ e dedicou sua vida para que pudéssemos resgatar a nossa essência. Quem somos? Por que somos? Onde estamos e para onde vamos?  O que realmente importa?

Os biólogos poderiam nos dar boas respostas, assim como os filósofos ou até mesmo os matemáticos, mas prefiro contar com os poetas. Prefiro contar com O poeta. Para essas e outras perguntas, minha escolha é consultar Manoel de Barros, um homem de miudezas e infinitas belezas.

Poesia, quando não causa ruído, melhor deixar pra lá. Mas esse não foi o caso com Manoel. As palavras dele grudaram na minha alma e me fizeram entender que não havia problema em ver beleza nas pequenezas da vida, afinal, são elas que engrandecem o nosso existir.

Como ele mesmo dizia, sua poesia emana da infância. Foi ali, no baú de memórias inventadas da infância, que ele encontrou todo o alimento de seu trabalho. Um poeta que sempre escutou as crianças com respeito e admiração e foi com elas que aprendeu a ‘ouvir a cor dos passarinhos’, ‘apanhar desperdícios’ e ‘carregar água na peneira’.

Um homem imenso, costurado pelos detalhes do mundo. Além da sua obra completa, um outro jeito de se encantar por Manoel de Barros é por meio do documentário “Só dez por cento é mentira“, dirigido por Pedro Cezar.

São 82 minutos de carinhos que tocam o profundo da alma. Ali, o próprio Manoel nos conta de sua vida e de suas palavras. Temos a alegria de conhecer quem foram os seus heróis e grandes inspirações. O filme, assim como seus poemas, é um agrado que todos nós merecemos, pelo simples fato de estarmos vivos.

Manoel é coisa séria, e não à toa emprestou – e ainda empresta – sua sensibilidade a tantos educadores do Brasil e do mundo. A educação, mais do que nunca, precisa beber do universo ‘Manoelês’, pois, para construirmos um mundo mais acolhedor e sensível, é necessário que o ritmo das tartarugas tenha mais valor do que o dos mísseis.

‘O Sal da Terra’ – Um filme para sempre

A primeira vez que ouvi Sebastião Salgado ele conversava com o jornalista Roberto D’avila. Parei tudo o que eu estava fazendo para me concentrar naquele homem de sobrancelhas brancas e tão expressivas. Cada frase soou como um presente e, depois de ouvi-lo, o meu amor pela vida ficou um tantinho maior.

Eu já conhecia o trabalho de Sebastião, mas nunca tinha escutado sua voz.  Meus olhos derramaram lágrimas e compreenderam o motivo da intensa beleza de seus registros: ele fotografa com o coração e tem como grande auxiliar a vastidão de sua alma. Um poeta de olhares profundos, que fala sobre a vida e suas tantas faces, ora maravilhosas, ora devastadoras.

Sebastião Salgado – Iguana-marinha (detalhe), Galápagos, 2004.

Sebastião Salgado – Iguana-marinha (detalhe), Galápagos, 2004.

A forma como Sebastião traduz o mundo nos coloca em nosso devido lugar. De maneira sensível e extremamente respeitosa, ele adentra comunidades de humanos, macacos, morsas, crocodilos, tartarugas e nos reconecta às nossas raízes. Viemos todos de uma mesma célula, somos uma grande comunidade, que está vinculada pela história da origem da vida.  Mas raramente nos lembramos disso.

Para Sebastião Salgado, que já esteve entre tantos grupos de animais, o humano é o mais cruel e feroz de todos; coloca-se como ‘principal’ dentro do cenário do mundo e se vê no direito de destruí-lo. Devasta florestas, polui rios, destrói seus semelhantes, extingue outras espécies, num movimento claro de esquecimento: não nos vemos como parte da natureza e acreditamos ser superiores a uma árvore ou a uma iguana. Doce ilusão.

Estamos todos juntos nesse planeta e devemos respeita-lo, pois ser humano também é ser terra, água, fogo e ar. A vida humana está intimamente ligada a todas as outras formas de vida: uma formiga, uma árvore e uma onça têm absolutamente tudo a ver conosco. Mas nos desligamos desse pensamento e nos tornamos brutais e ferozes.

No documentário “O Sal da Terra”, que conta a história da vida e obra de Sebastião Salgado, esse olhar nos acompanha o tempo inteiro. E, por isso, merece visto. É um recado para a humanidade. E essa tem sido a grande herança dos projetos de Sebastião: por meio de sua fotografia ele nos prova que a humanidade está à beira do abismo; não conseguimos resolver o problema da fome, realizamos as mais frias e sanguinárias guerras, arrancamos plantas e animais de seu habitat e, nesse movimento, provocamos nossa autodestruição.

Após as tantas denúncias que realizou ao longo de sua carreira, Sebastião declarou não ter mais forças, nem vontade, de continuar. Muitas de suas missões concentraram-se na tragédia humana e ele retratou as mais inimagináveis atrocidades (Veja aqui a obra completa do fotógrafo).

Exatamente por ter presenciado, ao longo de tantos anos de trabalho, tragédias que feriram sua alma, Sebastião decidiu voltar ao ofício, agora com uma linda homenagem ao Planeta Terra. Por meio de seu Projeto “Genesis”, ele mostrou que existem partes do mundo que ainda estão “a salvo” e, com o surgimento do Instituto Terra, em Minas Gerais, sua terra natal, nos deu um lindo recado: é possível reconstruir o mundo.

A vida se renova e nós precisamos entender qual o nosso papel nesta renovação. É preciso preservar o mundo e, para isso, devemos olhar, principalmente, para nossas crianças. Qual educação estamos dando a elas? Uma educação que valoriza e respeita a natureza? O que precisamos para mudar esse mundo que está à beira do abismo, marcado pela fome, desigualdade, consumismo e pela autodestruição? Precisamos, basicamente, nos reconectar às nossas raízes. A mudança é possível e a educação pode nos auxiliar nessa caminhada.

Por isso, finalizo com a mensagem que ‘O Sal da Terra’ é um filme para ser visto por crianças, por adultos, por idosos, por todos aqueles que participam do mundo e aqueles que um dia participarão: um filme para sempre.

Ciranda de Filmes: um espaço sensível para pensar a infância e a educação

ciranda-filmes-2015Aos educadores, artistas, pais, gestores e todos aqueles que se interessam pelo debate sobre educação e infância, fica aqui um convite imperdível: entre os dias 21 e 24 de maio acontecerá, em São Paulo, a 2ª edição da Ciranda de Filmes, um espaço único para reflexão, debate e troca de experiências entre todos aqueles que se dedicam a pensar a infância a partir de um olhar sensível, acolhedor e cuidadoso.

A Ciranda configura-se como a primeira mostra de cinema no Brasil com foco em educação e infância e, neste ano, contará com a exibição de mais de 50 filmes nacionais e estrangeiros, rodas de conversa, vivências lúdicas e oficinas com pensadores, artistas e cineastas. Toda programação do evento está ancorada em três grandes temas: Famílias, Relação Criança e Natureza e Protagonismo Infantil.

Aqueles que desejarem participar do encontro deverão retirar seus ingressos com 1h de antecedência, na data e local em que os filmes serão exibidos. Para mais informações, clique aqui. Conheça a programação completa e acompanhe as novidades do Ciranda de Filmes:

As crianças da feira

Dia de feira. As ruas ganham novas cores e sons, ganham uma diversidade e uma alegria que, por aqui, só vemos, com tamanha intensidade, aos domingos. A feira é um jeito bonito de celebrar a vida e, por isso, sempre descemos, para comer tapioca, comprar flores e também peixe e pimenta. Ao voltar pra casa, porém, não carregamos conosco somente sacolas de compras, mas, principalmente, sorrisos, agrados, olhares e carinho: tudo isso a feira nos dá de presente, para começarmos a semana com o espírito leve e em paz com a vida.

Neste domingo minha atenção voltou-se às crianças da feira. São muitas e, cada uma em sua individualidade, possui diferentes maneiras de vivenciar aquele mundo tão colorido.

pés-feiraExiste uma dupla de garotos que sempre está por lá. São ligeiros e, para eles, a feira é espaço de trabalho e diversão. Ajudam os que vão às compras a carregarem suas sacolas e, com o dinheiro que ganham, compram pastel! Eles também circulam entre as barracas e, vire e mexe, ressurgem entre os toldos listrados, ora com uma laranja nas mãos, ora com uma melancia bem vermelhinha e suculenta. O caminhar deles é de quem conhece bem o chão em que pisam, têm a malemolência que nos faz entender que aquele lugar a eles pertence; são parte da feira e para ela se entregam de corpo inteiro. Que bonito ver a agilidade e esperteza desses garotos. Eles sabem se virar e, todo domingo, estão ali, correndo, com desenvoltura, atrás dos seus sonhos.

Mas, nem todas as crianças sentem-se tão à vontade na feira.

Aquele ruivinho, filho do dono da barraca de grãos, estava bastante emburrado hoje. Sentado em frente à loja do pai, com uma expressão nitidamente aborrecida, parecia aguardar algo que tardaria a chegar. O pai, irritado com a indisposição do filho, pergunta em alto e bom tom: “Por que você não ficou em casa?”. A resposta não veio. Talvez não tenha ficado em casa por que queria passar o domingo com o pai, talvez ele goste da feira, mas, naquele momento, já não estava mais se sentindo à vontade. Aquele espaço, com tantas pessoas estranhas, que não param de chegar, de perguntar, de experimentar e de comprar pode ter contribuído para o aborrecimento do menino, que, por um segundo, deve ter pensado “Por que eu não fiquei em casa?” Agora já era tarde demais.

Por ali também vemos muitas crianças que mostram o desejo de correr entre as barracas, mas, os adultos que as acompanham não parecem felizes com a ideia. O impulso frente às tantas cores e sons é imediato: querem correr em direção daquilo que as encanta! E na feira, é verdade, existem muitos encantos! Ficar parado é difícil. Vemos muitas mães e pais segurando mãos e braços dos filhos, para que não ‘escapem e se percam’. Ao segurar, porém, não seguram somente o corpo da criança, mas também a possibilidade da experiência e da descoberta. Seguram os sonhos!

Outros pais, contudo, deixam suas crianças viverem a feira com mais liberdade: elas ajudam na condução do carrinho, vão até as barracas, escolhem o que querem, chamam os pais para mostrar o que descobriram: se apropriam da feira e, é nítido, sentem-se parte de toda aquela alegria.

A feira é espaço pequeno, mas carrega consigo infinitas histórias e possui encantos que constroem um cenário bonito e acolhedor para as diferentes infâncias que ali se encontram. Todo domingo, crianças trazem ainda mais alegria para esse mundo colorido e nos mostram que, além de comprar legumes e frutas, a feira também é um belo lugar para brincar, correr e se encantar. Entre os lugares que merecem ser vividos pela criança, está a feira: ela nos recebe de braços abertos; é um abraço gostoso em meio à cidade que, tantas vezes, nos diz “não”.

NOTA: Esse texto foi produzido para o módulo “Brincar e a cultura da criança”, ministrado pela educadora Renata Meirelles, no curso de pós-graduação “Infância, Educação e Desenvolvimento Social”, do Instituto Singularidades. A proposta é deixar nascer em nós, adultos, um olhar sensível à infância e, por meio dessa observação cuidadosa e delicada, nos deixar encantar pelo universo (tão rico!) da criança. Precisamos cuidar das crianças a partir do que elas têm a nos dizer: ao observa-las, com atenção e sensibilidade, somos capazes de entender o que elas precisam, o que produzem e o que são. Com esse olhar cuidadoso, entendemos que a criança é encantada pelo mundo e seus detalhes, que ela se entrega, de corpo e alma, a tudo aquilo que realiza. Todos já fomos criança um dia, mas, muitas vezes, nos esquecemos disso. Ao voltarmos nosso olhar à elas, temos a chance de recuperar as belezas da infância e de (re)aprender com elas a sentir e viver o mundo de forma genuína e criativa.

A escola como espaço para o exercício da criatividade

A capacidade de criar mora em todos nós. A complexidade do cérebro humano nos permite refletir sobre o que nos toca e transformar o meio em que vivemos; somos capazes de criar soluções inovadoras às questões que nos circundam.  Possuímos uma inteligência criativa, que manifesta-se de forma nítida durante os processos de aprendizagem e pode ser vista, como essência do humano, no comportamento das crianças.

As crianças, em sua relação com o mundo, são extremamente imaginativas. Estão, a todo o momento, criando e recriando. Suas falas e perguntas são instigantes; elas saem do senso comum, pegam os adultos de surpresa, trazem reflexões que só podem existir quando há espaço para se expressar livremente, sem amarras ou julgamentos.

A criança nos ensina que para explorar a capacidade criativa é preciso estar livre de pré-conceitos, respeitar o próprio tempo e estar aberto àquilo que o mundo tem a oferecer. Para criar, precisamos nos encantar com o que nos cerca e ter espaço para escutar aquilo que, de mais profundo, vive em nós e, claro, espaço para que possamos manifestar a nossa criatividade.

O processo criativo exige flexibilidade, disponibilidade, paciência, entrega e escuta e, quando valorizado e colocado em prática, nos dá autonomia e autoconfiança, aspectos fundamentais ao desenvolvimento e autoconhecimento. A criação nos empondera perante o mundo e nos torna autores e, por isso, deve ser um exercício constante, em todas as fases da vida, em todos os momentos e situações.

Para uma criança, é mais fácil trazer a criatividade para o dia a dia, pois existe maior liberdade em relação às amarras sociais. Já o adulto está tomado pelos estereótipos sociais e pelos julgamentos morais; vive de acordo com aquilo que a sociedade espera, muitas vezes sem respeitar seu próprio tempo, ou questionar-se se é possível fazer diferente.

Sim, a sociedade – e as instituições – nos moldam e, exatamente por isso, precisamos exercitar nossa criatividade: para inovar o dia a dia e não só, mas a vida em sociedade e as instituições que a regem. Precisamos, portanto, educar nossas crianças para que possam ser agentes autônomos, de transformação.

Educar, contudo, é um desafio inquestionável. O educador deve apresentar o mundo à criança e o mundo, como sabemos, tem algumas regras. Assim, nos perguntamos: como educar sem impor as amarras sociais, já tão assimiladas por nós, adultos?

Ao educar, precisamos lembrar que a educação deve ser libertadora e valorizar a autonomia e a criatividade da criança. É preciso tempo, escuta, delicadeza. A escola – e demais ambientes de convívio da criança – deve proporcionar esse acolhimento, pois assim estará cuidando do desenvolvimento integral do aluno e possibilitando espaços para a expressão da criatividade.

Mas, por que a criatividade é tão importante? Pois nela vive o potencial transformador do ser humano.

Escola como espaço para exercício da criatividade

Para a psicóloga Regina Drumond, o ambiente é um elemento chave no processo de despertar e fazer aflorar o potencial criativo de todo o ser humano, assim, escolas pouco flexíveis, com programações rígidas, professores autoritários, salas de aula fechadas não soam como um ambiente acolhedor, que incentive a criatividade.

É preciso repensar o modelo tradicional de ensino e dar aos alunos a possibilidade de aprendizagem pela experiência, além de espaço para construírem obras das quais serão autores.

Sim. A criatividade é vital; sem ela não nos desenvolvemos, nem como indivíduos nem como sociedade. Se criarmos uma cultura que valorize o processo criativo dentro das instituições de ensino, poderemos fazer a diferença no mundo; tornando estas crianças e jovens protagonistas de suas vidas e escolhas e capazes de transformar suas comunidades em lugares mais amigáveis e justos.

Referência:

Este texto foi escrito para o Blog WPensar, parceiro do Educomunicação.

Infância e sociedade de consumo: cuidar é preciso!

No prefácio do livro “Exercícios de ser criança”, de Manoel de Barros, Pascoal Soto lança a pergunta: “Uma peneira, um caixote e duas latas de goiabada. Quem seria capaz de construir um mundo a partir desses objetos?”.

As crianças; é claro! Mas, será que estamos permitindo que elas brinquem livremente? Que construam seus próprios mundos e seus próprios brinquedos de forma espontânea?

Em uma sociedade conduzida pela lógica do capital, essas perguntas são pertinentes e cabem, principalmente, aos grandes centros urbanos, em que a dinâmica do consumo já se naturalizou, determinando o ritmo de vida de muitos.

Vivemos sob discursos que se direcionam claramente ao consumismo. A ideia central é consumir, descartar, consumir novamente e entrar de cabeça neste ciclo, responsável por alimentar e sustentar as indústrias de produtos e serviços.

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A partir de materiais simples, que fazem parte do dia a dia, podem surgir muitos brinquedos e brincadeiras!

Dentro desta lógica, deixamos de ser autores e nos tornamos proprietários; usufruímos daquilo que nos é posto como necessário e assim, sem perceber, mergulhamos na dinâmica consumista. Precisamos estar atentos: será que realmente necessitamos de tudo aquilo que o discurso do consumo nos impõe?

A reflexão é fundamental, principalmente quando pensamos nas crianças. Como estamos lidando com a questão do consumismo na infância? Essa pergunta relaciona-se de forma intima com a discussão sobre brinquedos industrializados versus brinquedos artesanais.

A indústria voltou-se com empenho ao público infantil, oferecendo um leque de produtos inimaginável. Mas, será que a criança realmente precisa destes tantos produtos para viver uma infância plena, saudável e feliz?

O mercado diz que sim, e aos educadores (leia-se pais, professores e demais adultos que participam da vida da criança) resta questionar esse discurso da necessidade, apresentado em cada propaganda e embalagem de produto infantil.

Um toddynho não deve fazer tão bem quanto a propaganda afirma, não é mesmo? Talvez seja melhor optar por um suco natural ou um leite cuja origem é conhecida. A mesma lógica serve à reflexão sobre os brinquedos que a indústria oferece: será mesmo que são as melhores opções para acompanhar a criança no momento do brincar?

Bonecas que choram e pedem mamadeira; cachorros-robô, que latem e pedem carinho; carrinhos com diversos botões e luzes; replicas de celulares, casinhas e bonecas de plástico, comidinhas de plástico, tudo de plástico! Plástico e muitos botões, sempre envoltos por embalagens extraordinárias, cheia de cores e mil promessas. Ah! Claro! Com tantas funções, o manual de instruções se faz necessário e já vem dentro da caixa, com o passo a passo para cada brinquedo.

É isso que queremos oferecer às nossas crianças?

Antes de pagarmos pelas imensas embalagens e seus produtos de plástico, precisamos entender o que significa o brincar na vida de uma criança. A brincadeira é a forma como a criança se expressa, como ela descobre o mundo e como descobre a si mesma. Durante a brincadeira ela acessa seu imaginário; cria, recria, monta e desmonta, entra em contato com seus sentimentos e vontades; investiga, constrói hipóteses, organiza suas fantasias e exerce a sua criatividade.

A brincadeira dá à criança a possibilidade de autoria e autonomia, é um percurso necessário e extremamente rico; é a própria linguagem infantil.

Ao entregarmos um brinquedo repleto de botões e funções pré-determinadas tiramos a possibilidade do percurso, entregamos o pronto e impossibilitamos toda uma caminhada de criação; a criança vira proprietária e não criadora.

O brinquedo oferecido pela indústria vem repleto de sentidos e significados, traz discursos pré-prontos e intimamente ligados aos valores, símbolos e crenças dos adultos. A criança, claro, brincará com ele e provavelmente será divertido, mas, será que nessa interação o potencial da brincadeira é exercido em toda a sua amplitude?

A imaginação de uma criança está além da compreensão dos adultos. Basta solta-la em um quintal e, com duas pedrinhas nas mãos, ela construirá um mundo inteiro. Então, se é assim, por que não deixa-la livre? O brinquedo artesanal, ou o brinquedo inventado, dá infinitas possibilidades à brincadeira. A construção do próprio brinquedo também possibilita outra relação com o brincar, que começa no momento em que a criança decide construi-lo. O processo de criação torna-se a própria brincadeira.

Muitas crianças – repare – quando ganham seus brinquedos industrializados logo buscam desconstrui-lo, procurando funções e significados para aquele objeto pronto que lhes foi entregue. A capacidade criadora é inerente à criança; tudo para ela significa um mar de possibilidades e sonhos.

Seria muito radical dizer um não definitivo aos brinquedos industrializados, mas é preciso pensar sobre o que eles significam para a criança e como afetam seu desenvolvimento.

Ter uma latinha de metal e dois pedaços de borracha em mãos pode ser tão ou mais precioso do que ter ao alcance um carrinho-robô de controle remoto.

Temos o dever de mostrar às crianças que elas são muito mais do que meras proprietárias; elas são criativas, são autoras, capazes de construir seu próprio mundo com aquilo que a natureza lhes oferece.  E ai mora outra problemática referente ao excesso de brinquedos industrializados: o afastamento em relação à natureza.

Com brinquedos extremamente rebuscados em termos de funções e tecnologia, as brincadeiras tendem a limitar-se a espaços internos ou, mesmo que a criança vá para fora, acaba atenta à tela ou às inúmeras funções do brinquedo. Assim, perde a oportunidade de explorar os tantos recursos que a natureza oferece e que são tão fundamentais ao enriquecimento dos processos de aprendizagem.

Vivemos num contexto que pede reflexão e questionamento. O consumo está posto, mas não por isso precisamos alimenta-lo de forma desvairada. Se pudermos mostrar às crianças que o mundo é infinito e extremamente rico para além dos shoppings centers e dos brinquedos de plástico, estaremos contribuindo para que elas ampliem seu olhar e, no futuro, sejam autônomas, criticas e seguras para exercer sua criatividade livremente.

Para terminar, fica a pergunta: quais brinquedos você está entregando às suas crianças? Seja nas escolas, em casa ou nas brinquedotecas, precisamos pensar sobre a função dos brinquedos e do brincar e assegurar que eles sejam livres e espontâneos, afinal, na criança vive o inédito, qualidade tão preciosa e necessária à renovação e reinvenção do mundo! Vamos cuidar do brincar, vamos cuidar das crianças, vamos cuidar do mundo!

Para inspirar!

Projeto Tree Change Dolls – O projeto é uma grande reflexão às indústrias de brinquedo. Será que as Barbies e outras bonecas oferecidas pelo mercado conversam com o universo infantil? A Australiana Sonia Singh nos dá a resposta. Iniciativa emocionante e muito sensível!

Projeto Território do Brincar – A educadora Renata Meirelles, seu marido e filhos percorreram, durante dois anos, diversas comunidades ao redor do Brasil, a fim de conhecer e registrar as diferentes brincadeiras e linguagens infantis. Vale clicar! O material coletado é uma relíquia sobre as infâncias brasileiras.

Brincar: um campo de subjetivação na infância (Claudia Santos Jardim) – Dica de leitura para quem tem interesse em estudar e pensar sobre a infância e o brincar.

Este texto foi escrito para o Blog WPensar, parceiro do Educomunicação.

Parceria Educomunicação+WPensar

criança-criatividadeAcreditamos que trabalhar em rede é essencial. Pessoas que compartilham valores comuns podem e devem pensar juntas. Por isso, selamos uma parceria com o Blog WPensar, canal para disseminação de informações voltado a educadores.

Estamos certos que parcerias como essa enriquecem a reflexão sobre o modelo educacional que queremos e possibilitam o alcance de resultados com maior impacto.

A cada 20 dias, iremos publicar textos na página do WPensar, com o objetivo de possibilitar reflexão sobre os diversos temas que tangem a educação e o desenvolvimento da criança, seja no ambiente escolar, ou fora dele.

Nosso texto de estreia já está no ar!

O tema escolhido discorre sobre a importância da criatividade para o desenvolvimento da criança e lança a pergunta: como educar de forma libertadora, livre das amarras sociais, já tão presentes na vida dos adultos? O desafio é grande e a reflexão, extremamente necessária! LEIA NA ÍNTEGRA!

A criança e a cidade: experimentar para aprender

“Toda criança tem direito à cidade”. Foi assim que Irene Quintáns, arquiteta urbanista, fundadora da Rede Ocara, deu início à palestra que proferiu no Instituto Singularidades, para alunos da Pós Graduação “Infância, Educação e Desenvolvimento Social”. No encontro, ela falou sobre a importância da relação entre a criança e a cidade. “Se a criança não vivenciar as ruas e as diferenças, ela não assimilará essas realidades”, afirma a arquiteta.

A Rede Ocara defende a concepção de cidades amigáveis e desenvolve projetos sobre cidade, arte, arquitetura e espaço público nos quais participam crianças. A ideia defendida é a de que a criança precisa viver a cidade/bairro/comunidade da qual participa; vê-se a cidade como elemento essencial para o seu pleno e saudável desenvolvimento.

Mas, será que as crianças brasileiras (principalmente aquelas que moram nas grandes cidades) estão interagindo com os espaços públicos?

Hoje, principalmente nos grandes centros urbanos, como São Paulo, acredita-se que a rua é um local perigoso e, assim, os pais optam por manter seus filhos dentro de casa, do carro, do shopping e tantos outros espaços internos, ‘protegidos do perigo das ruas’. Quintáns provoca: Qual será o melhor lugar para uma criança?

cidade-criançaA arquiteta chama estes espaços fechados de ‘caixas’; sem saída, sem oportunidades, sem surpresas. E, o hábito de viver dentro dessas caixas é extremamente nocivo para a saúde e para o desenvolvimento emocional, social e cognitivo. Dentro de casa, por exemplo, temos a TV, o computador, o sofá. A criança que passa a infância frente a esses aparelhos perde oportunidades fundamentais para o seu desenvolvimento integral, já que o contato com o mundo é impedido, afetando assim a sua criatividade, sua autonomia, a construção de valores e a percepção do outro e de si mesma.

Uma criança que não sai da caixa é impedida de viver plenamente a infância. De casa pro carro, do carro pra escola, da escola pro carro, shopping, restaurante e assim vai. A experimentação do mundo torna-se repleta de limites e barreiras. É preciso equilibrar as vivências.

Onde estão os parques? As praças? As calçadas? As pessoas que passam nas ruas? Como colher as flores e folhas que caem das arvores? Como observar os passarinhos que cantam lá fora? Tudo isso é escondido da criança, quando não lhe dão a oportunidade de vivenciar o entorno em que está inserida.

Do lado de fora existem infinitas surpresas e aprendizados: é possível correr, conhecer pessoas, descobrir flores e insetos, sentir texturas e cheiros, observar as cores, aprender nomes de ruas, imaginar histórias, fazer carinho no cachorro que passa! É possível conhecer o mundo e também as regras da sociedade, entrando em contato direto com as noções de cidadania.

Tudo isso a criança aprende por meio da vivência pessoal e não pela tela de uma TV ou pela fala da professora. O aprendizado e o desenvolvimento acontecem pela experiência, e isso é forte, é determinante.

Será, portanto, saudável manter as crianças trancadas nas caixas, muitas vezes impostas pelo discurso do medo e do consumo? Estudos apontam que mais de 1 milhão de crianças brasileiras apresentam quadros de diabetes, 39% estão obesas e, provavelmente, manterão tal condição na vida adulta. Sim, isso tem a ver com alimentação, com falta de exercício e com estilos de vida que privam o contato com espaços externos.

As crianças merecem sair das caixas e vivenciar seus entornos. Os adultos, porém, precisam compreender que relacionar-se com a cidade (e o mundo), não por meio de relatos, mas por meio de experiências reais, é determinante para o desenvolvimento saudável e pleno da criança.

Para inspirar!