Publicidade na sala de aula

O Intercom Nacional desse ano aconteceu na Universidade Católica de Pernambuco, em Recife. O Congresso, que ocorreu entre os dias 2 e 6 de setembro, contou com a participação de quase 4 mil pessoas vindas de cidades e realidades diferentes! Além de um grande encontro acadêmico, podemos dizer que foi também um grande encontro entre culturas!

Eu estive por lá e apresentei um artigo sobre o uso da publicidade como possível recurso pedagógico. O tema é polêmico e após a apresentação boas discussões surgiram! 

No meu artigo discuto a possibilidade e eventuais benefícios de se trazer linguagens da mídia para a sala de aula. Meu estudo é baseado na lógica da Educomunicação e tem como principal objeto a publicidade. O que busquei com esse trabalho foi compreender se existe pertinência dialógica entre a produção publicitária e a prática pedagógica.

Sob um olhar que vislumbra o lado cultural e simbólico da publicidade, afirmo em meu artigo que a produção publicitária pode ser considerada um objeto pedagógico, que pertence ao currículo cultural e por isso assume papel fundamental na construção de valores, conduta e opiniões dos jovens. A partir desse ponto de vista, torna-se desejável que se empreenda diálogos entre essa produção e a escola, espaço institucionalizado do saber, que tem entre seus deveres auxiliar na construção do cidadão.

Se quiser ler o texto na íntegra, clique aqui.

Espero opiniões, sugestões, críticas e tudo que puder contribuir para a reflexão em torno do assunto!

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Entrevista com professor Marcelo

O bate-papo ocorreu no dia 06/04/2010. Marcelo é professor de biologia e  dá aulas para alunos do Ensino Médio, na Escola Nossa Senhora do Morumbi. Conversei com ele sobre o possível papel pedagógico da propaganda! A conversa foi boa! Confira!

 

Carolina: Olá Professor! Para iniciar nosso bate papo eu gostaria de entender como (e se) o contato excessivo do jovem com a mídia interfere no aprendizado no aluno em sala de aula?

Marcelo: Ela aparece de formas múltiplas, alguns pontos positivos e outros negativos. Múltipla no sentido de que hoje você não pode descartar a idéia de que a mídia esta lá e ela é um concorrendo seu, isso é fundamental, você ta concorrendo com todos os tipos de mídia, internet, televisão, filmes, comercias, então, primeiro ponto, você tem quer mais atraente do que isso, o que é impossível, mas você tem que se aproximar demais disso. Então, sabendo disso, você tem que se aprimorar sempre, antigamente as suas aulas poderiam ser as mais convencionais do mundo, hoje em dia não podem ser.

O aspecto negativo, se por um lado é bom se bombardear de informações e estratégias novas, ao mesmo tempo você não tem sossego, você esta o tempo inteiro correndo atrás de um prejuízo, e o positivo é que eles são mais bem informados, eu não falei que são mais formados, eles são bombardeados de informações constantemente…

O problema é que eles não tem uma reflexão sobre o processo, esse é outro ponto negativo, esse bombardeamento da mídia são baús cheios de informações, agora, se eles sabem trabalhar com isso é outra historia, e ai entra o nosso papel, tem que fazer um filtro e reflexão. Antigamente demoraria mais para o aluno ser mais informado, no entanto tinha mais tempo para reflexão, hoje você não tem muito tempo pra isso, o tempo todo você está correndo atrás do processo, é como e estivesse sempre no prejuízo, contra a concorrência ou pela carga de informação, cria-se um perigo terrível, se o professor não for um cara antenado, ele perde pro aluno rapidamente em termos de informação, a madrugada que ele ficou a mais na internet você já não sabe a informação que ele tem, agora se ele sabe analisar é outra história.

Carolina: E essas informações que eles têm, que são tantas, contribuem durante a aula?

Marcelo: Contribuem, mas o fato de estar carregado de informação não torna esse aluno mais bem preparado de uma forma geral para trabalhar com cultura. Eles lêem tudo, recebem um pouco de tudo, mas não se aprofundam. Para idéias, de uma forma geral, até que sim, vamos falar de tal assunto… Nesse sentido a aula se torna um pouco mais rico, mas se você não souber conduzir isso fica uma aula de generalidades, e você acabando não usando para nada. Eis aí uma grande diferença daquilo, que, um bom professor ou uma boa linha pedagógica da escola onde você sabe realmente filtrar aquilo que chega desse aluno.

É que existem mídias hoje em dia que continuam sérias, mas que continuam com muita resistência para eles que é o jornal, eles praticamente não lêem jornal, que é onde você consegue ter uma análise mais aprofundada, no entanto eles sabem ler mil blogs, revistas dessas mais triviais do dia a dia, recebem informações desses filmes que se dizem documentários científicos, mas acabam não sendo, então a idéia principal é “contribui de uma forma geral?” Sim, mas se você não souber conduzir isso não vai levar a nada. Como existem muitas mídias eles usam as diferentes mídias conforme cada um tem melhor e maior acesso, agora; ainda cito, que a mídia menos utilizada e que deveria ser mais utilizada é o jornal.

O rádio também é uma coisa que vem caindo em desuso, muito pouco usada, o vinculo maior é com musica, praticamente não ouvem radio. Eles lêem blogs, alguns lêem ate alguma coisa de jornal eletrônico, não lêem jornal escrito de uma forma geral, são poucos que lêem, acompanham revistas semanais, mas muito superficialmente ( e isso que eu to falando não é só desse colégio, mas dos outros também) então o rádio e jornal escrito muito pouco usados, revistas semanais, porque são mais levem, os blogs eles obviamente utilizam, as pesquisas de internet de uma forma geral e ai é um grande problema, por que tem mil coisas boas e 10 milhões de porcarias. É impressionante como as mídias padrões continuam sendo ferramentas terríveis de influencia para os alunos, Fantástico, a novela das 20h, elas nos remetem a termos que corrigir erros quase cotidianos, é uma contribuição por um lado negativo, eles vem com um tema muito superficial, é o que uma novela cita, é o que um jornal nacional faz, eles jogam a informação, não se aprofunda…

O Fantástico faz uma edição de 20% das noticias então eles vem com as informações, se não erradas, com informações incompletas e trazem para a gente para tentar elucidar. Esses mecanismos influenciam de uma forma quase que cotidiana, mas normalmente influencia de uma forma errada, não vem com a noticia bem feia. O excesso de informação acaba deixando eles perdidos, eles resolvem pegar tudo ao mesmo tempo, eles não tem paciência, eles não foram treinados, como a maioria das pessoas um pouco mais velhas, onde não existia internet, por exemplo, onde as mídias eram bastante limitas, até a ida ao cinema era mais limitada, você lia mais, você lia, jornais, revistas de forma mais aprofundada, eram os mecanismos que você tinha e faziam com que você gastasse mais tempo nesse processo.

A diferença nesses últimos 20/25 anos é brutal em termos de diferença em como você recebe informação. Quando eu era criança a programação da televisão acabava 23h, hoje é full time, você ta cansado da TV você vai pra internet e assim por diante. Fora as outras mídias modernas que com certeza eles sabem muito mais do que a gente, eles atropelam a gente o tempo inteiro, nesse sentido.

Carolina: E agora focando na publicidade, você acredita que ela pode ser utilizada em sala de aula?

Marcelo: Ela pode ser usada sim, mas com muito critério. Por que a publicidade não tem vinculo formal com a formação, com a cultural, é um mecanismo de divulgação e venda, então qual o melhor artifício que ela tem na mão? Ela vai usar aquilo que é conveniente a ela. Tanto é que tem propagandas que você acha artística e outras que têm um caráter quase ofensivo. Ela pode ser utilizada por vários aspectos, como uma peça de analise, não acredito que seja para contribuir no sentido de informação e formação, ela leva para um processo de analise, uma peça que deve ser analisada por vários enfoques. São raríssimos formas de publicidade, seja pelo radio, tv, que trazem informação.

Carolina: E você já utilizou em sala de aula?

Marcelo: Já, particularmente na minha aula, propagandas relacionadas a meio ambiente, SOS Mata Atlântica, só para te dar algum exemplo, propagandas que permeiam situações que mostram racismo, para discutir genética, se racismo é genético ou social, então existem alguns aspectos que você pode trabalham. Mas fora isso eu não vejo a publicidade como um mecanismo de informação e formação, ela é uma peça a mais daquele mundo de bombardeamento de informação que pode ser utilizada como um objeto de analise, ela não vem para educar, ela é um mecanismo do capitalismo, e isso não é uma critica, é um processo de venda, de uma forma geral. Tudo bem, tirado alguns aspectos quem sabe, campanhas institucionais, por exemplo, ai é um caso um pouco diferente, mas de qualquer forma esta vendendo um nome, uma marca.

Carolina: E campanhas governamentais?

Marcelo: Nesse sentido sim, mas são extremamente restritas. Mas aí a gente pode encarar que não é nem tanto o mecanismo de publicidade, mas a publicidade está muito mais na intenção que se tem de ordem política do que torna o processo educacional. Um folder, por exemplo, ele é uma peça de publicidade, mas quando você vai analisar o conteúdo, se for uma campanha da dengue, por exemplo, o objeto em si é informacional, não seria um mecanismo da publicidade.

Carolina: E pensando na publicidade além do objetivo de venda, você enxerga ela como produção cultural?

Marcelo: A publicidade está vinculada a um mundo cultural, quanto mais cultura tem o publicitário, melhor a qualidade do objeto. Agora, ela não é, no papel fundamental, para ampliar a cultura daquele que é o receptor. Quem recebe a publicidade não necessariamente vai se enriquecer com isso, a não ser que seja campanhas institucionais, de ordem educacional, mas a publicidade de forma geral não tem esse papel, até porque não é a finalidade dela, ela tem um objetivo claro, não sei como a publicidade vai ampliar esse processo cultural.

Ela pode fazer referencias de outras produções, fazer menções À literatura, por exemplo, mas ela não está produção nova literatura, nova escrita, novas artes, propriamente dita… Ela por si só não pode ser encarada como uma produção. Quer dizer, se nós formos entender cultura por qualquer expressão produzida por um ser humano, que seja vinculada a comunicação e a ampliação de conhecimento, mas ela não é nova no sentido de produzir culturas novas, ela faz referencia a outras culturas… Ela não é uma inovadora cultural, ela participa do mecanismo cultural. Ela pertence ao mundo cultural, mas não é produtora de uma ferramenta cultura propriamente dita.

Entrevista com Davi, professor de Português

A entrevista a seguir foi realizada em 29 de março de 2010 por @CarolPrestes. O entrevistado é o professor Davi, que dá aulas de Português para 1°s e 3°s anos do Ensino Médio no Gracinha.

Carolina: Olá professor, boa tarde! Para começar gostaria de entender como o contato excessivo do aluno com discursos midiáticos, televisão, cinema, publicidade, interfere, ou não, no aprendizado em sala de aula?

Davi: É difícil a gente precisar, por que eu não sei exatamente, a gente tem só suposições. Muitas vezes aparece na produção do texto, principalmente dos mais novos, frases prontas, clichês, bordões, e a gente sabe que isso é a exposição a um discurso midiático. Eu particularmente não acho que isso seja um problema, muitas vezes o problema é ele não ter contraponto, é só a linguagem da TV, ou a linguagem de portais de relacionamento da internet. Especificamente eu não vejo problema nem em uma coisa nem em outra, mas a falta de contraponto é um problema.

Carolina: Eles não discutem aquilo que colocam no papel…

Davi: Não há discussão e também não há outras referências, então o bordão publicitário às vezes passa a valer como uma expressão legitima para tudo, por que é assim que ele aprende. Agora, eu não sei dizer se isso é assim mesmo ou é só uma suposição nossa, de professor, que não acompanha tanto assim a publicidade, então a gente imagina que seja isso… Aparece muito.

Carolina: E sob o ponto de vista da linguagem midiática, que é mais imediata, isso interfere na concentração em sala de aula, por exemplo?

Davi: Na sua pergunta você já embutiu uma idéia que seria um prejuízo para eles, mas às vezes, depende da situação, pode ser um beneficio. A linguagem imediata, rápida, ágil, sintética, a publicidade lida muito com um discurso sintético, precisa, pelo tempo que tem lá. E isso pode ser um grande beneficio. Eu acho que houve um tempo que didaticamente isso já foi mais explorado, hoje menos, não sei se por uma nova postura da publicidade ou então esses discursos um pouco mais moralistas sobre os prejuízos que a mídia pode causar para a juventude, não sei se é isso ou não é isso, mas eu lembro de um tempo em que o discurso publicitário ele era muito mais aproveitado, não só o publicitário, o discurso da mídia, para o trabalho de síntese, então o que aparentemente é pobreza ele pode ser também riqueza de estratégia para o aluno. Ainda acho que, pode ser um erro meu, só uma suposição, mas o que a gente assiste é um empobrecimento do vocabulário, é difícil julgar também pelo empobrecimento de estratégia, acho que não.

Carolina: Mas o empobrecimento do vocabulário, não seria estranho, já que, teoricamente, eles estão lendo todo esse conteúdo…

Davi: Mas os veículos são veículos que, no que diz respeito ao vocabulário, se repetem muito. Há estruturas que são fixas, mesmo no texto jornalístico. Hoje mesmo em aula eu expus alguns artigos de jornal e a gente começa a reconhecer estruturas muito iguais em assuntos diferentes, do esporte a política… Deve ser a loucura do trabalho do sujeito que precisa entregar a matéria em algumas horas sempre, então ele precisa desse apoio, e não prejudica muito o texto que quer só transmitir uma noticia ou informar o lançamento de alguma coisa, mas acaba reduzindo o espectro semântico do aluno, que esta em fase de desenvolvimento.

O Profissional já sabe que naquele momento ele precisa usar situações mais urgentes, tem que fazer um apelo ao clichê, ao bordão, a frase feita, ele precisa se livrar da situação, precisa transmitir a mensagem, é o mais importante. No momento de aprendizado, de contato com a língua isso pode ser ruim, pode ser um prejuízo, mas insisto, hein, não é em si que é o prejuízo, é quando não tem contraponto, é quando o cara é só televisão, só videogame ou só internet, ai fica difícil mesmo, mas quando ele tem contraponto com outras situações de leitura um pouco mais sofisticadas e com um pouco mais de tempo também, ai eu não vejo nenhum mal nesse contato excessivo, desde que ele consiga reconhecer “ah, isso aqui é um a linguagem mais imediata”

Carolina: E para discussão em aula eles trazem esse conteúdo?

Davi: Muito, muito! A gente vê que se criou um padrão, por exemplo, aquele tipo de programa de auditório com criança, com estudante, quando a gente cria uma situação parecida, perguntando coisas rápidas, eles imediatamente dão respostas repletas de clichês.

Carolina: E eles chegam a fazer referências do tipo “li no jornal”?

Davi: Isso aparece muito raramente. Mas muitas vezes o ambiente de escola propicia isso também, então entra o professor de geografia com artigo de jornal, o professor de filosofia com artigo de revista, o professor de história também. Então eles usam…

Carolina: E propaganda?

Davi: Não, é menos. Acho que isso estava muito a cargo do professor de português e que aos poucos foi saindo de cena, foi deixado de lado. No fundamental tem mais, a gente nota que se aproveita muito mais esse discurso para aprendizado.

Carolina: E por que você acha que no ensino médio isso se perde?

Davi: Eu acho que é falta de espaço mesmo, para encaixar conteúdo programático, ou um pouco de preconceito, como eu falei há um tempo atrás, com relação a esses discursos que hoje é comum a publicidade, limita um pouco, empobrece um pouco o pensamento da juventude, sei lá. A gente vê muito isso, quando vai se falar, por exemplo, sobre o machismo e o movimento feminista, a primeira coisa que se apresenta para exemplificar estereótipos é propaganda de cerveja, ai aparece, subliminarmente, o discurso publicitário é um discurso machista, redutor dos debates, o interesse do publicitário é vender o produto.

Carolina: Mas, se ele é redutor, não é interessante desmembrar esse discurso?

Davi: Ele vem à tona, mas para ser destruído, é isso que acaba acontecendo. Acontece muito.

Carolina: Invariavelmente?

Davi: Invariavelmente quando ele vem a tona num debate. Agora, de vez em quando aparece sim, mas é raro, hoje em dia é raro, um exemplo de aluno, quando se coloca em questão, por exemplo, o jogo de hipocrisias, jogo de verdades e mentiras, eu recentemente, esse ano, dando aula a partir de um trecho de Machado de Assis, falando do jogo de mascaras, de como o discurso pode construir verdades a partir de mentiras, alguém lembrou de uma propaganda da Folha, se não me engano, que falava exatamente isso. Depois eles não entraram no mérito da questão, mas o jornal, quando encomendou essa propaganda queria dizer o que exatamente? Nós não fomos até ai, mas o discurso publicitário veio à tona nesse momento.

Acontece muito raramente, e como acontece muito raramente, qual é a conclusão, é que muito raramente o discurso publicitário quer ser critico normalmente ele quer evitar isso, por que a intenção maior, assim como o do jornalista é transmitir noticias a do jornalista é vender produtos… O lance das idéias, por exemplo, passa ao largo… “Publicitário não pensa”, uma coisa assim, mas ele é genial, por que ele cria coisas geniais, mas quando você vai esmiuçar o que são essas coisas?

Carolina: E quando a propaganda vende uma idéia? Ou por exemplo, propagandas políticas, que o conteúdo dela não é vender produto…

Davi: Mas é conversar com o espectador? Essas coisas são muito particulares, né? É uma compra direta e muito explicitada, é o candidato que contrata, e isso é a propaganda política e ela ganha um olhar preconceituoso já, em minha opinião, “ah, isso ai é propaganda política”, sabe? Como quem fala “ah, isso ai é encomenda”. Na propaganda política ele fala o que ele quer.

Carolina: E propagandas contra AIDS, por exemplo? Governamentais.

Davi: Campanhas de sensibilização, e de ONGs também, né? Isso ai sempre atrai mais o interesse do jovem, ele se apóia nisso, Isso de vez em quando aparece em redação, inclusive, mas é de vez em quando. A gente nota isso, não sei se são os tempos, não sei se inclusive essa juventude não esta muito em contato com a seqüência da televisão, não é como a televisão de um tempo em que a gente parava no sofá e assistia a programação com todas as propagandas que a programação incluía, eu tenho a impressão, posso estar bem errado, que não é assim mais que se assiste televisão, então, há um cancelamento dessa coisa, acabou o jornal ou o capítulo da novela, ou a sequência, vou zapear. Isso é tudo uma suposição minha, por que eu não sou muito de assistir televisão no dia a dia, mas eu fico imaginando essas coisas, e esse tipo de situação que se concentra muitas vezes em emissoras como, emissoras publicas, ou de canais pagos como National Geographic e Discovery, eu acho que não esta no prato do dia, não esta no cardápio da meninada, então é mais raro, e por isso que não vem com freqüência, aparece, mas é raro.

Carolina: Então eles acabam não tomando como referencia o discurso publicitário?

Davi: Não, o discurso publicitário, a referencia ainda é, acho que o melhor, é a síntese, muitas vezes a gente evoca com tranqüilidade isso, “como é que faz o publicitário numa situação dessas?” Ele tem alguns segundos, ou o espaço de duas linhas para transmitir tal coisa… Na hora a menina responde, sintetiza!

Carolina: E se você tivesse que propor uma atividade que envolvesse a produção publicitária, qual seria a abordagem?

Davi: Ah, desse jeito mesmo! Exigiria a linguagem de síntese. Por isso que eu acho, se você conversar com os professores do fundamental você vai conseguir mais riqueza na entrevista porque eles têm trabalhos, eles têm resultados.

Carolina: Discutir conteúdo, por exemplo?

Davi: Isso! Eles fazem mais isso, no nosso não aparece assim. Mas sabe que tem uma coisa interessantíssima, agora você me fez lembrar. A gente lida com a literatura, e é uma máxima social que a literatura oferece um texto complexo, rico, importante para a humanidade. Eu estava lendo Dostoievski com eles e aparece uma propaganda de um dentista no meio do texto, que o narrador tinha visto e ele esta com dor de dente, e ele fica pensando no cartaz publicitário e a partir do cartaz, das poucas informações ele começa a viajar na vida do dentista, ele põe isso na cabeça para equilibrar aquilo que ele sente. A atenção dele foi despertada pela dor de dente, então é claro que ele deu visibilidade para o discurso publicitário no meio do jornal, para ele o anúncio, classificado do dentista, é interessante.

Carolina: E a partir disso teve alguma discussão ou passou batido?

Davi: Ai eu paro para chamar a atenção deles, isso aqui é publicidade de época, quando que a gente da bola pra publicidade? Quando ela interessante para o seu desejo, na hora a personagem tem necessidade, ela acaba vendo isso. Se ele não estivesse com dor de dente ele nunca iria olhar para aquele “cartaizinho” no meio dos classificados, mas você tem duvidas? Se aconteceu uma morte, você vai para a pagina dos obituários, aquilo também é um texto publicitário, de certa forma por que é de encomenda, de anuncio, bem diferente, bem particular, mas é. Quer dizer, eu não estaria minimamente preocupado com isso se não tivesse necessidade nenhuma, se nada me despertasse para isso, e esse é o jogo. O debate é: o publicitário cria necessidades ou ele se vale das necessidades que existem? Isso que é a coisa que gera uma rejeição ao discurso publicitário normalmente…

O publicitário se aproveita de uma situação de mercado e desenvolve desejos, que não tem nada a ver com necessidades. Por exemplo, há uma necessidade do homem de hoje ser mais solidário, porque é o discurso… Ser solidário é importante, ter saúde é importante, ser ecológico é importante, publicitário se aproveita disso muitas vezes, campanhas de solidariedade trabalham com esse apelo. O apelo verde, por exemplo, a gente vê os publicitários trabalhando com uma coisa completamente barroca na minha maneira de ver, que é vender automóvel com símbolo de “save de planet”. Como é possível fazer isso se é um automóvel? Automóvel vai destruir o planeta pela lógica.

Esse aliciamento do público consumidor, acho que isso é perverso na publicidade e acaba afastando o discurso publicitário do ambiente acadêmico. Enquanto a gente trabalha com as técnicas isso é muito eficiente, porque acho que não tem gente mais eficiente que publicitário para fazer síntese, para descolar vocabulário, mas ao mesmo tempo o conteúdo e o objetivo daquilo acabam destruindo um pouco a imagem, e ai eu acho que é por isso que a gente deixa um pouco de lado. Mas também tem esses fenômenos, como esse exemplo do Dostoievski, a visibilidade veio a partir da necessidade, mas é autentico demais aquilo, é muito legitimo, não foi o cartaz que fez ele ter dor de dente, foi o contrario, a dor de dente fez ele enxergar o cartaz ali no meio.

Carolina: Mas mesmo com esse distanciamento do mundo acadêmico pelo seu apelo mercadológico, ainda dá para conversar?

Davi: Claro que sim! Mas é obvio… Eu tive um professor que trabalhava com história em quadrinhos, ele dizia “esse estudo é um estudo repleto de preconceitos, porque as pessoas acham que isso é baixa literatura, é arte de puro comércio, de banca, de puro entretenimento, mas até por isso é muito importante que a gente tome posse desse estudo, até para entender o fenômeno”. Acho que isso é o máximo! O preconceito é que destrói muito as coisas, não pode ser preconceituoso, por um motivo ou por outro, por mal ou por bem, é preciso estudar…

Carolina: E a posição do professor é muitas vezes preconceituosa, ele se nega a trazer para a sala de aula…

Davi: É, pode ser… Às vezes sim. Mas o professor trabalha muito com o índice de sedução, e isso que não acontece muito mais hoje, o discurso publicitário não seduz tanto, já houve um tempo que sim, você trazia uma coisa assim para a sala de aula, todo mundo se ligava, agora não, foi perdendo esse espaço de sedução.

Carolina: Você chegou a usar bastante?

Davi: Ah, sim, em outros tempos sim. Era mais fácil, a gente conseguia ensinar mais. Eu dava muitos exemplos, “olha que nem naquela propaganda, acontece isso, isso e isso”, hoje a propaganda não tem mais essa busca, são muito mais imediatistas, esta mais fácil hoje, para dar exemplos assim rápidos, do dia a dia comercial, de desenhos da Disney, é mais fácil hoje do que exatamente a publicidade. E também tem uma outra coisa, a propaganda de jornal, revista e TV ficava mais tempo no ar, hoje ela se renova muito rapidamente, não fixa. Então você vai dar um exemplo o moleque, se ele chegou o ano passado, dançou, já nem sabe do que eu to falando!

Antes não, as propagandas ficavam, o bordão do Bombril, por exemplo, aquilo ajudava a gente a beça na sala de aula! Hoje em dia não tem como, tem outra idéia, as pessoas são outras, o consumidor pensa diferente, esse tipo de situação já ta superada, e ai dançou um pouco pra gente, mas ai continua o discurso da síntese e eficiente discurso de síntese, trabalho com ambigüidade. Quando havia outdoor em SP, bom, no resto do Brasil ainda tem, o texto publicitário de outdoor trabalhava muito a ambigüidade, porque não só é o tempo imediato como é o tempo do cara que vai passar de carro ali, então a ambigüidade era importante, isso era bem bacana trazer para a sala de aula sempre. Aqui já era, mas pode ser que esteja vivo por aí, para trabalhar ambigüidade, discursos duplos, intencionais falsas mensagens, o discurso de outdoor era o ideal, era um setor que pensa muito essa questão, da montagem dos períodos.

Carolina: Para finalizar, você vê a propaganda como uma produção cultural?

Davi: Eu vejo tudo como produção cultural, minha posição é essa, tudo é cultura. Se você me perguntar se a propaganda é artística, se ela tem inclinação à arte, ao olhar critico ai eu vou dizer que não. Se é cultural? Vou dizer sempre que sim, claro que é, é cultural tanto é que acompanha e se modifica com o tempo, isso pra mim é cultural, e ela tem que ser, se não dança na hora. Há lugares em que não existe publicidade, por que a cultura local rejeita, por que a cultura local não tem consumo, então não tem publicidade, então é cultural, nós temos consumo e a propaganda esta ali, para as vezes, simplesmente informar, noticiar uma novidade, conversar, despertar nas pessoas certas coisas interessantes, provoca muitas vezes, a publicidade faz muito isso.

A fala do professor

Hoje inicio uma nova sessão aqui no Blog!  Ao longo de meus estudos sobre @Educomunicação fiz diversas entrevistas com professores da Escola Nossa Senhora das Graças (o Gracinha) e da Escola Nossa Senhora do Morumbi. Os professores entrevistados são das mais diversas áreas do conhecimento – lecionam desde artes, até física.

As entrevistas apresentam, como principal tema, os desafios e oportunidades em utilizar a linguagem publicitária como recurso pedagógico. As falas dos professores são interessantes e revelam o posicionamento dos docentes sobre a possibilidade de trazer novas linguagens à sala de aula. Alguns mostram-se abertos à ideia da Educomunicação, outros ainda são receosos em aproximar a educação informal ao espaço da escola, mas, no geral, todos discutiram e argumentaram sobre esse fenômeno, que se mostra latente e inevitável hoje em dia.  A partir dessas conversas surgiram grandes surpresas, algumas decepções e novas ideias! Vale dar uma lida!