Memórias de infância

Talvez esse seja um dos textos mais especiais deste blog, pois ele fala sobre a infância de uma pessoa maravilhosa que, com sua extrema sensibilidade, me ensinou a amar o mundo. São as memórias de infância do meu pai.

Após ler um texto que publiquei recentemente, ele me presenteou com o relato abaixo.

Compartilho aqui (com a devida autorização) pois trabalho – diariamente – defendendo mais infâncias como a de meu pai: repletas de afeto, natureza, diversidade, e distantes do consumismo.

Que honra poder ler tantas belezas e compreender as raízes que tornam meu pai o homem imenso que é.

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Por Pablo Yirula

O artigo “Do que as crianças precisam?” me trouxe muitas lembranças de infância. Uma infância sem abundâncias materiais, mas muito rica em aprendizagem, em experiências diversas, em convivências (sem restrições) com a natureza e os membros da comunidade.

Alguns fatos ainda estão muito vivos na minha memória, fizeram e ainda fazem parte da minha existência. As lembranças começam quando eu tinha por volta de 4 anos de idade.

Como filho de emigrante ucraniano, passei meus primeiros anos de vida em uma comunidade que estava sob o comando da “matriarca” da família, minha avó Sophia. A família era numerosa e havia um “bando” de crianças na comunidade, que vinham de diversos países: Ucrânia, Alemanha, Rússia, Polônia.

Lembro-me que, apesar da minha pouca idade, sempre acompanhava os mais velhos (que deviam ter por volta de sete anos de idade!). Vivíamos em consonância com a natureza, reconhecíamos os passarinhos pelo canto, conhecíamos os peixes que nadavam no rio pouco profundo, de águas claras e transparentes. Ficávamos horas observando os movimentos destes peixes, sem entender como conseguiam viver dentro da água sem se afogar, já que nós aguentávamos prender a respiração embaixo d’água somente por um curto tempo!

Os adultos ensinavam, especialmente para os meninos, as diferentes línguas faladas na comunidade e também a matemática. Esta última abrangia e esclarecia muitos “segredos” que a natureza e o universo escondiam a olhos nus.

Na escola, nos comunicávamos uns com o outros aprendendo o idioma das diferentes culturas: falávamos alemão, ucraniano, polonês, russo. O espanhol, língua do país que nos acolheu (a Argentina), era chamada de “língua nacional” e fazia parte da matéria principal. Ela que unificava o convívio entre tantos povos diferentes.

A vida fluía com liberdade e uma inocência sem qualquer desejo de consumo; não existia o desejo de possuir mais do que o outro. Os brinquedos eram fabricados por nós mesmos! Brincávamos com cavalos feitos de vara de árvore e charretes em miniatura. Vivíamos em contato com a terra, que tinha cor forte, vermelha! Era muito bom senti-la sob nossos pequenos pés descalços.

Jogávamos futebol com uma bola feita de pano, gritávamos de felicidade quando alguém fazia um gol, sem que outros se sentissem, por isso, perdedores. Deitávamos na grama de barriga pra cima, todos juntos, formando um círculo, e observávamos o céu com seus milhões de pontinhos cintilantes que se chamavam “estrelas”! Víamos as “manchas” das galaxias.

Alguns nos falavam que esses pontinhos luminosos no céu eram as almas dos mortos. Outros, porém, nos explicavam o que eles realmente significavam. Passávamos a noite nos perguntando como poderia ser o universo, sem entender com clareza essa palavra.

Nossas dúvidas despertavam uma curiosidade enorme, queríamos desvendar o verdadeiro significado do universo. Eu lembro, com muita clareza, que alguém nos explicava como funcionava nosso sistema solar, escutei pela primeira vez, com 6 anos de idade, o nome de Albert Einstein.

Construíamos nossos “telefones” com duas latinhas, um furo no meio e uma linha de algodão (que pegávamos escondida dos olhos da mãe ou da vovó). Era um prazer imenso escutar, a uma distância de 10-15 metros, a voz do nosso interlocutor! Surgiam novamente muitas perguntas sobre como isto podia acontecer, até que nosso “velho professor” nos explicava porque isto acontecia. Até hoje lembro o nome desta pessoa que nos ensinou tantas coisas maravilhosas, nos introduzindo em um mundo cheio de segredos, porém com tantas explicações.

Era o Sr. Jacob Würgles. Acho que era de origem suíça. Ele fabricava rádios e nos fazia escutar emissoras de outros países pelas ondas curtas; sempre nos explicando que isto acontecia através de ondas eletromagnéticas. Suas explicações eram tão claras que ficávamos de olhos arregalados ao conseguir compreender o porquê das coisas.

Nunca esquecerei  de quando fizemos nossos próprios rádios. Chamávamos de “rádio a galena” que, na verdade, consistia em um diodo (também construído por nós com enxofre e chumbo derretido). Fazíamos a bobina de ressonância, e o Sr. Jacob nos dava um “condensador”, além de nos emprestar fones de ouvido. Algumas vezes conseguíamos escutar ou sintonizar uma emissora de rádio ou escutar somente barulhos. Que maravilha! Sabíamos como e porque aconteciam as coisas, nada era segredo, tudo se explicava!

Eu me sentia tão atraído por estas maravilhas! O Sr. Jacob também me explicava como funcionavam as válvulas; ganhei até um livro dos anos 1939 sobre o assunto. Tenho este livro até hoje. Que belas lembranças!

Este senhor era um sábio! Ele também nos ensinou a usar a régua de cálculo (a máquina de calcular da época). Com esta régua fazíamos multiplicação, divisão, elevávamos a potência, calculávamos raiz quadrada, funções trigonométricas. Sempre tudo muito bem explicado e com a paciência de alguém que transmitia conhecimentos sem pedir nada em troca.

O Sr. Jacob morava sozinho, em meio a livros, rádios, fios. Era um “eremita”. Nunca soube porque levava uma vida dessa maneira. Alguns falavam que era um nazista que vivia com outra identidade. Só sei que seus ensinamentos mudaram a vida de muitos de nós.

Entre meus 7 ou 8 anos, ganhei um pequeno livro com a teoria da relatividade de Einstein, devo ter lido infinitas vezes sem compreender 1% do que lia, mas sabia praticamente de cor o conteúdo daquele livrinho.

Einstein virou o meu “Deus”, inclusive ate hoje sou fã dele como cientista. Tenho tudo o que pude e posso adquirir sobre ele! Livros, quadros com fotos em minha parede, etc. Só que hoje entendo um pouquinho melhor a profundidade da sua teoria. Quando fiquei sabendo que ele tinha morrido, em 1955, fiquei triste durante muitos dias, olhando a fotografia dele na capa do livro que eu tinha.

Um outro fato que me marcou muito foi observar  – nas noites claras – a passagem do satélite “sputnik”, lançado pelos russos. Ficávamos naquela mesma posição em que observávamos as estrelas e os planetas e, assim, víamos aquela luz que se deslocava rapidamente no céu e que emitia um sinal de “ Pip, pip…”. Que coisa mais extraordinária! O Sr. Jacob tinha um rádio com a frequência que captava este sinal. Que maravilha, que sensação de … não sei explicar.

Como éramos felizes, sem saber o significado de felicidade! Esta é uma conclusão que tiro hoje, ao relembrar meu passado. Não tínhamos ideia do que era consumismo, nos sentíamos felizes sabendo que no dia seguinte teríamos tantas coisas novas para aprender!

Festas de aniversário não eram para ganhar presentes. Eram encontros muito especiais. Nesses dias, as mães convidavam toda turma, meninos e meninas. Ordenhávamos o leite da melhor vaca, se raspava em cada casa um pouco de chocolate, de uma barra especialmente comprada para essa data. Então, mexíamos o leite quente que derretia o chocolate! Era uma grande festa! Aguardávamos com ansiedade o aniversário de alguém da colônia para saborear esse delicioso chocolate, que vinha acompanhado por um pedaço pão, feito no forno da própria casa. Que saudades!

Gostaria de continuar contando muitas outras lembranças, estão todas guardadas na minha mente, porém daria um livro muito extenso. Os detalhes permanecem vivos!

As crianças, olhando para minha retrospectiva pessoal, precisam de liberdade! Viver em contato com a natureza, aprender a língua para se comunicar e se informar, apreender matemática para entender muitos dos “segredos” do universo. Precisam do carinho de uma família. Precisam de um bom orientador, um professor, um guia. Precisam de cuidado!

Foto: Flickr

‘O Sal da Terra’ – Um filme para sempre

A primeira vez que ouvi Sebastião Salgado ele conversava com o jornalista Roberto D’avila. Parei tudo o que eu estava fazendo para me concentrar naquele homem de sobrancelhas brancas e tão expressivas. Cada frase soou como um presente e, depois de ouvi-lo, o meu amor pela vida ficou um tantinho maior.

Eu já conhecia o trabalho de Sebastião, mas nunca tinha escutado sua voz.  Meus olhos derramaram lágrimas e compreenderam o motivo da intensa beleza de seus registros: ele fotografa com o coração e tem como grande auxiliar a vastidão de sua alma. Um poeta de olhares profundos, que fala sobre a vida e suas tantas faces, ora maravilhosas, ora devastadoras.

Sebastião Salgado – Iguana-marinha (detalhe), Galápagos, 2004.

Sebastião Salgado – Iguana-marinha (detalhe), Galápagos, 2004.

A forma como Sebastião traduz o mundo nos coloca em nosso devido lugar. De maneira sensível e extremamente respeitosa, ele adentra comunidades de humanos, macacos, morsas, crocodilos, tartarugas e nos reconecta às nossas raízes. Viemos todos de uma mesma célula, somos uma grande comunidade, que está vinculada pela história da origem da vida.  Mas raramente nos lembramos disso.

Para Sebastião Salgado, que já esteve entre tantos grupos de animais, o humano é o mais cruel e feroz de todos; coloca-se como ‘principal’ dentro do cenário do mundo e se vê no direito de destruí-lo. Devasta florestas, polui rios, destrói seus semelhantes, extingue outras espécies, num movimento claro de esquecimento: não nos vemos como parte da natureza e acreditamos ser superiores a uma árvore ou a uma iguana. Doce ilusão.

Estamos todos juntos nesse planeta e devemos respeita-lo, pois ser humano também é ser terra, água, fogo e ar. A vida humana está intimamente ligada a todas as outras formas de vida: uma formiga, uma árvore e uma onça têm absolutamente tudo a ver conosco. Mas nos desligamos desse pensamento e nos tornamos brutais e ferozes.

No documentário “O Sal da Terra”, que conta a história da vida e obra de Sebastião Salgado, esse olhar nos acompanha o tempo inteiro. E, por isso, merece visto. É um recado para a humanidade. E essa tem sido a grande herança dos projetos de Sebastião: por meio de sua fotografia ele nos prova que a humanidade está à beira do abismo; não conseguimos resolver o problema da fome, realizamos as mais frias e sanguinárias guerras, arrancamos plantas e animais de seu habitat e, nesse movimento, provocamos nossa autodestruição.

Após as tantas denúncias que realizou ao longo de sua carreira, Sebastião declarou não ter mais forças, nem vontade, de continuar. Muitas de suas missões concentraram-se na tragédia humana e ele retratou as mais inimagináveis atrocidades (Veja aqui a obra completa do fotógrafo).

Exatamente por ter presenciado, ao longo de tantos anos de trabalho, tragédias que feriram sua alma, Sebastião decidiu voltar ao ofício, agora com uma linda homenagem ao Planeta Terra. Por meio de seu Projeto “Genesis”, ele mostrou que existem partes do mundo que ainda estão “a salvo” e, com o surgimento do Instituto Terra, em Minas Gerais, sua terra natal, nos deu um lindo recado: é possível reconstruir o mundo.

A vida se renova e nós precisamos entender qual o nosso papel nesta renovação. É preciso preservar o mundo e, para isso, devemos olhar, principalmente, para nossas crianças. Qual educação estamos dando a elas? Uma educação que valoriza e respeita a natureza? O que precisamos para mudar esse mundo que está à beira do abismo, marcado pela fome, desigualdade, consumismo e pela autodestruição? Precisamos, basicamente, nos reconectar às nossas raízes. A mudança é possível e a educação pode nos auxiliar nessa caminhada.

Por isso, finalizo com a mensagem que ‘O Sal da Terra’ é um filme para ser visto por crianças, por adultos, por idosos, por todos aqueles que participam do mundo e aqueles que um dia participarão: um filme para sempre.

Ser brincante

Nesta quarta participei de uma dinâmica promovida pelo Instituto Alana, Maria Farinha e ImpactHub e, como as boas experiências merecem ser compartilhadas, achei justo escrever um post sobre o assunto.

O Instituto Alana, organização que busca garantir as condições para a vivência plena da infância, em parceria com a Maria Farinha, produtora que tem como fio condutor contar histórias inspiradoras que provoquem transformação, lançaram o filme “Tarja Branca – a revolução que faltava”, um documentário que aborda a importância do lúdico no desenvolvimento humano.

O filme está no circuito alternativo e, na última quarta (10/9), foi exibido na sessão “Hub Pipoca”, promovida a cada 2 meses pelo ImpactHub.

Sobre o filme

É encantador! E nos leva a resgatar a nossa própria vida. Nos faz pensar sobre a infância que vivemos, as brincadeiras que mais gostávamos, os cheiros e sabores que nos faziam sorrir. Nos leva a um universo bonito, onde tudo acontecia por meio do brincar e, assim, descobria-se o mundo.

Que criança fomos nós? O que ficou dessa criança? São essas (e muitas outras!) perguntas que surgem ao longo das cenas do filme, sempre muito coloridas, cheias de felicidade e verdade. Cenas que nos convidam a brincar e a preencher a vida de alegria.

Mas, o que é o brincar e qual o lugar que ele ocupa em nossas vidas? E não falamos apenas das crianças, mas também dos adultos: qual a importância do brincar para o ser humano?

A verdade é que a infância nunca nos deixa, mas precisamos escuta-la e buscar formas de vivencia-la, mesmo em meio a rotina e aos inúmeros compromissos e responsabilidade que a maturidade nos impõe. Precisamos brincar, pois essa é a manifestação mais genuína que podemos ter.

Após a exibição do filme, fizemos uma roda de conversa, conduzida pela Ana Claudia Leite, gerente de educação do Instituto Alana. Pessoas que nunca haviam se encontrado trouxeram memórias sobre suas infâncias e vivências e falaram sobre a sensação que o filme despertou. Foi muito bonito, pois vemos que a infância, ao mesmo tempo que é tão particular, também é universal.

Os conflitos internos de cada um também são bastante parecidos: como brincar e sentir liberdade dentro de uma sociedade que prima pela produção e pelo capital? O sistema nos evoca a uma vida distante do lúdico e não podemos deixar que isso aconteça. Precisamos tomar a decisão de viver nossas infâncias, seja aos 4, aos 10, 30 ou aos 90 anos! Brincar é urgente, pelo simples fato de que viver é urgente!

Eu saí bastante emocionada do filme e com a feliz conclusão que sou uma pessoa brincante. Mesmo com as imposições muitas vezes cruéis do dia a dia, priorizo manter viva a criança que fui e que pretendo ser para sempre. O documentário me deu ainda mais certeza de que, ao fazer isso, estou cuidando de mim e daqueles que convivem comigo.

Para os interessados, segue abaixo trailer e ficha técnica do filme. IMPERDÍVEL!

Gênero: Documentário

Diretor: Cacau Rhoden

Produção: Brasil

Distribuição: Maria Farinha

Classificação Indicativa: Livre

Duração: 80 min

Elenco: Domingos Montagner, Wandi Doratiotto, Antônio Nóbrega

Sinopse: A partir dos depoimentos de adultos de gerações, origens e profissões diferentes, o documentário discorre sobre a pluralidade do ato de brincar, e como o homem pode se relacionar com a criança que mora dentro dele. Por meio de reflexões, o filme mostra as diferentes formas de como a brincadeira, ação tão primordial à natureza humana, pode estar interligada com o comportamento do homem contemporâneo e seu “espírito lúdico”.

Dica de leitura: para um ano repleto de inspiração!

“De modo suave, você pode sacudir o mundo.” Mahatma Gandhi

Reclamamos, constantemente, da qualidade da educação pública de nosso país. Sim, ela deixa a desejar! Sim, ela deve ser prioridade do governo! Sim, é preciso investir pesado em educação! Só assim poderemos construir um país de pessoas críticas e engajadas, um país que encontre em seu povo o combustível para as mudanças que se mostram necessárias. Educação é a base de tudo e, sem ela, ficamos imóveis, surdos, cegos. Ficamos vulneráveis.

Meus pais sempre me proporcionaram educação de qualidade. Valorizo todas as oportunidades que tive ao longo de minha vida e que me deram a chance de me tornar uma pessoa crítica e independente; que me ofereceram ferramentas para que eu exercesse a minha cidadania da melhor forma possível. Por meio da educação, fui presenteada com o dom da leitura, da escrita e pude ampliar meus horizontes para além de meu pequeno mundo. “Fui privilegiada” e, é neste momento, que aparece a palavra motivadora do presente texto: privilégio.

Em muitos países, inclusive no Brasil, ter acesso à uma educação de qualidade é visto como “privilégio”. Grande absurdo!

Educação não é – e jamais deveria ser – privilégio, já que é direito básico de todo e qualquer cidadão. É por meio da educação que aprendemos sobre o mundo e sobre nós mesmos, ela que nos abre caminhos para construirmos a nossa história e, o mais importante, ela nos liberta! Tamanha é a liberdade provinda da educação que chega até mesmo a provocar arrepios em alguns grupos ou sistemas, que acreditam que, ao educarem seus povos, terão seu poder comprometido.

Com educação adquire-se conhecimento, ainda a melhor arma para vencer toda e qualquer batalha. Ao serem educadas, as pessoas passam a questionar o que as rodeia e entendem que se não estão satisfeitas, possuem liberdade e conhecimento para mudar toda e qualquer situação. Para um grupo como o Talibã, por exemplo, a força de uma mente questionadora significa ameaça das mais perigosas.

Mas, por que o Talibã? Porque, recentemente, li a incrível história da menina paquistanesa Malala Yousafzai e conheci uma nova realidade, contada sob os olhos de uma criança que queria apenas estudar e, por desejar isso em um território dominado por muçulmanos extremistas, foi baleada a queima roupa enquanto voltava da escola com suas amigas.

Malala YousafzaiComo todos sabem, Malala não morreu nesse atentado e sua luta pela educação ficou ainda mais poderosa, atingindo uma escala global. Hoje ela é símbolo da luta pela educação e foi a pessoa mais jovem da história a ser indicada ao Prêmio Nobel da Paz. Uma inspiração e tanto.

O que mais me emociona é a paixão da menina pela causa da educação. Os Talibãs acreditam que mulheres não devem receber educação e, após assumirem poder no Afeganistão e Paquistão, passaram a explodir escolas de meninas e ameaçar aquelas que mostravam-se resistentes à ordem imposta. Malala sempre fez parte dessa resistência, e não teve medo de impor sua voz frente às atrocidades comandadas pelos radicais islâmicos.

Seu pai era dono de escola e sempre foi um grande ativista da causa, além de se envolver fortemente com política e defesa de direitos do povo paquistanês. O engajamento e comprometimento social do pai fez com que Malala, desde muito jovem, desejasse trabalhar pelo bem comum. Junto ao pai, ela se envolveu em debates de educação, ganhou diversos prêmios e se tornou conhecida por sua militância. Em uma sociedade em que “liberdade” era palavra desconhecida, ela se arriscou. Qual sentido havia naquilo tudo? Como um grupo de militantes extremistas poderia impedi-la de estudar?

Malala mostrou o rosto e expôs seus ideais a todos. Foi firme em sua decisão de não abandonar os estudos, mesmo sob ameaça constante dos Talibãs. A paz de sua pequena aldeia, localizada no Vale do Swat (norte do Paquistão), havia terminado, mas Malala jamais perdeu a coragem e perseverança. Aos 15 anos, já era reconhecida internacionalmente pela sua luta incansável para defender o direito à educação de meninas.

Em decorrência de sua luta, entrou na mira do Talibã e, em outubro de 2012, quando voltava da escola com suas amigas, foi covardemente atingida por um radical islâmico. O militante acertou a cabeça de Malala; uma cabeça pensante, cheia de ideias e protestos; uma mente questionadora e curiosa, que possuía todas as armas para mudar o mundo. A bala entrou no canto esquerdo do rosto da menina, mas não a matou. Ao invés disso a tornou um símbolo mundial da luta pela educação e comprovou a força que existe nos livros e na curiosidade de aprender. Uma bala pode matar, mas o conhecimento pode mudar o mundo e ser mais forte que toda e qualquer arma de fogo.

Eu já era fã, mas depois de ler “Eu sou Malala” me tornei seguidora de todos os valores e princípios dessa menina incrível, que mesmo em um país cercado de mortes, violência e fogo, manteve a suavidade e acreditou numa revolução liderada por canetas, livros, alunos e professores. Terminei de ler no dia 2/01 e garanto: meu ano começou repleto de inspiração! A leitura é intrigante e perturbadora, ingênua e sensível, digna de arrancar lágrimas dos olhos do mais duro entre os homens.

Fica a minha dica de leitura.

OBS. Malala recebeu apoio dos mais diversos países, tanto para realizar seu tratamento, como para dar continuidade à sua luta. Em 2013 foi criado o Fundo Malala, que busca garantir a educação de meninas ao redor do Globo. Conheça o projeto.

Veja abaixo o discurso que Malala fez na ONU, no dia em que completou 16 anos.

“Criança precisa ser amada. Não precisa de um Iphone aos 9 anos”

Imagine a cena: uma família reunida ao redor de uma mesa; um silêncio domina o momento, os olhares voltam-se para baixo, atentos às telas. Não há interação. Todos parecem muito ocupados com seus tablets e com as histórias do mundo virtual.

Já me deparei com cenas deste tipo algumas vezes. E fique triste. Retomo uma cena ainda fresca em minha memória:

Estava de férias e decidi viajar para um lugar tranquilo. Escolhi uma praia bonita, com muito, muito verde e escondidinha do mundo. O dia estava lindo! Em frente ao restaurante em que tomávamos café espalhava-se um gramado imenso, com árvores, flores e muitos passarinhos. Uma família – com crianças que deveriam ter por volta de 3 e 5 anos – estava na mesa ao lado.

Um cenário perfeito para as crianças correrem e movimentarem todo o corpo!  Um momento para ser vivido em família! Mas, ao invés disso, estavam cada um no seu Ipad e assim permaneceram do início ao fim da refeição, sem trocar sequer uma palavra, sorriso ou carinho. Todos de olho na tela (inclusive os bem pequeninhos).

A tecnologia já faz parte da dinâmica de nossa sociedade e, no momento certo, entrará na vida da criança (é inevitável e também positivo). Acredito, porém, que os adultos precisam ser sensíveis quanto ao ‘momento certo’ e refletir sobre como a interação exagerada com tablets e outros eletrônicos pode impactar a vivência da infância e o desenvolvimento da criança.

Vamos viver a natureza? Mexer o corpo? Viver o lúdico? Vamos brincar no mar, na grama e na terra? Precisamos preservar a infância e todas as suas possibilidades. A tecnologia não deve ser a linguagem predominante na vida de uma criança. Existem muitas belezas além da tela.

Que as crianças possam ter experiências transformadoras por meio do olhar, do toque, do cheiro, do movimento do corpo. Que conheçam o mundo a partir de contatos afetuosos e singelos, e não através de realidades mediadas. Que elas possam explorar as miudezas que as cercam e que tenham tempo para isso. Um tempo que não é da tecnologia, mas próprio da infância.

Para encorpar essa reflexão, divido com vocês um texto da jornalista e escritora Martha Medeiros. E reitero: “Criança precisa ser amada. Não precisa de um Iphone aos 9 anos”.

texto.

A transformação por meio da arte

É, só conheci agora. E foi sem querer. Estava na frente da TV e fui surpreendida pelo documentário “Lixo Extraordinário”, que mostra o trabalho do artista plástico Vik Muniz junto aos catadores de materiais recicláveis do Jardim Gramacho, localizado em Duque de Caxias (RJ).

O projeto é inspirador. Todo o trabalho foi desenvolvido a partir dos recursos da própria comunidade; tudo o que está nas obras nasceu do aterro. E é isso que emociona e mostra como a arte pode se transformar numa ferramenta poderosa para mudar histórias de vida.

A ideia fundamental do projeto “Lixo Extraodinário” baseou-se no uso de material reciclável para construir grandes retratos. Vik fazia a foto dos catadores e, depois, projetava a imagem no chão do aterro. Sobre a imagem projetada, os catadores reconstruíam os retratos usando material reciclável. O resultado? Maravilhoso.

Retrato do catador Tião Santos

Retrato do catador Tião Santos

Ouvir a fala de cada envolvido no projeto é emocionante e, com certeza, o ponto alto do documentário. Muitos disseram que antes não tinham ambição de futuro, que sentiam vergonha da profissão e não esperavam mais nada da vida. É lindo ver o envolvimento dos catadores e ouvir as palavras de cada um após o término do projeto.

A transformação por meio da arte fica nítida nos depoimentos “pós projeto”.

As histórias, muitas vezes tristes e sem esperança, mudaram. O brilho nos olhos mudou. Eles afirmam que, depois de participarem da iniciativa proposta por Vik, se sentiram reconhecidos, valorizados e que passaram a entender a beleza do lugar em que trabalhavam. Ficavam emocionados ao ver seus retratos, pois cada detalhe do trabalho havia sido pensado, elaborado e realizado por eles, com carinho e muita dedicação.

O projeto “Lixo Extraordinário” tomou uma dimensão enorme e foi um grande sucesso também fora do Brasil. Em 2011 foi indicado ao Oscar na categoria “melhor documentário”.

Os retratos foram expostos no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 2009 e a exposição foi a segunda mais visitada, perdendo apenas para a exibição das obras de Picasso. O trabalho também foi leiloado em uma galeria de Londres e um dos catadores, Tião Santos, presenciou a repercussão do projeto no exterior. A emoção que ele sente é contagiante. Vale assistir.

“Lixo Extraordinário” é um exemplo admirável de como a arte pode contribuir para valorizar realidades que, num primeiro momento, parecem ser donas de apenas uma palavra: “exclusão”. Os catadores do Gramacho deixam claro em seus depoimentos que o envolvimento no projeto mudou radicalmente suas vidas e ambições de futuro.

O aterro foi desativado e, ao final do documentário, os rumos tomados por cada personagem são revelados. Foram trilhados novos caminhos, com uma segurança e autoconfiança que, com certeza, tiveram grande influência da experiência vivida durante o projeto. Por meio dos retratos produzidos os catadores falaram de si e das suas realidades, mostraram ao mundo o seu dia a dia e suas histórias e perceberam que era possível “fazer arte” com suas próprias mãos.

Com certeza, essa não deixa de ser uma proposta educomunicativa, em que a arte surgiu como uma forma de comunicação poderosa e deu a palavra a um grupo considerado “minoria”. O que se vê nos retratos vai além da imagem; cada obra traz consigo as histórias de suas personagens e, por trás da beleza estética que deslumbra os olhos, há uma imensa denúncia social, que revela as questões e a realidade de um grupo com muito a dizer e, muitas vezes, com pouco espaço para tanto.

O documentário, por levantar questões como “cultura”, “consumo”, “arte”, cidadania”, torna-se um material interessante para ser explorado em sala de aula. Veja aqui dicas para trabalhar o conteúdo com os alunos.

Para saber mais, visite o site do projeto e, abaixo, confira o trailer oficial. A direção é da britânica Lucy Walker.

Para escutar, despe-se.

Há tempos escutei, na rádio CBN, uma entrevista que me chamou a atenção. Fiz algumas anotações num pedaço de papel, que logo coloquei de lado e só recuperei agora, 4 meses depois.

A entrevistada era a jornalista gaúcha Eliane Brum (repórter especial da Revista Época). Ela falava sobre o exercício da escuta, tão fundamental em sua profissão.

Fundamental e extremamente desafiador, especialmente se pensarmos em uma”escuta ativa”, em que o ouvinte (no caso, o jornalista), despe-se para ouvir o outro.

Eliane diz que, para escutar ativamente, ela se propõe a um “ritual” difícil, mas necessário: esvaziar-se para, assim, se deixar transbordar pela história alheia. Tenta ir o mais vazia possível para uma entrevista, buscando desfazer-se de seus julgamentos e pré-conceitos; só assim, acredita, conseguirá escutar de verdade.

O momento da escuta é fundamental, após escutar, e deixar-se transbordar pelo outro, levamos para casa a bagagem acumulada nos minutos, horas ou dias de entrevista. E então sentamos para reviver e entender aquilo que nos foi passado.

Eliane ainda afirma que, se formos “cheios” para uma entrevista, pouco será absorvido e as chances da reportagem dar errado aumentam consideravelmente. Parece justo, não? Afinal, se o jornalista não ouvir a sua fonte, de onde tirará inspiração? E quanto maior o envolvimento com a fonte, mais envolvente o resultado final.

Achei isso lindo. A ideia de deixar-se “transbordar pelo outro” é fantástica. E claro que não vale apenas para os jornalistas, mas para todos nós.

Quantas vezes você despiu-se para escutar o outro?

O receptor também é produtor

No post “Lemos… Mas vamos além” falei sobre o papel do produtor e do receptor de conteúdo no mundo atual, marcado pela dinâmica da internet. Para ilustrar a discussão estabelecida faço agora uma breve análise de um caso que conheço de perto ou, para ser mais específica, que vivenciei. Peço licença para contar, brevemente, uma história pessoal que, com certeza, já ocorreu inúmeras vezes, com inúmeras pessoas ao redor do globo.

Em meu último ano de faculdade (2010) desenvolvi um trabalho sobre Educomunicação. As leituras eram infinitas, foram noites eternas na companhia dos livros e claro, do computador. Encontrei muito material na internet e para me organizar decidi criar um twitter (que funcionaria como uma pasta online). Todos os artigos e entrevistas que me interessavam eu colocava ali, para retomá-los mais tarde, quando sentisse necessidade.

Pois bem, eis que um dia, ao entrar em minha “pasta de links” sobre educomunicação, reparo que mais de quatrocentas pessoas estão seguindo o perfil que criei para ser, de início, um arquivo pessoal. Fique espantada e um pouco curiosa: qual o motivo de estarem me seguindo? Interesse no tema, é lógico.

Encerrei meu trabalho (que foi a razão para criar o perfil @Educomunicacao no twitter), mas não encerrei minha conta no miniblog. Achei a movimentação e acúmulo de seguidores instigante e comecei a interagir com eles: fazer perguntas, lançar discussões, levantar problemas e no decorrer dessa “brincadeira” percebi que não eram mais quatrocentos seguidores, agora já eram mil.

Continuei promovendo debates e fazendo daquele espaço um encontro entre pessoas interessadas no tema. Um dia, quando meus seguidores já estavam em quase dois mil, eu decidi criar um blog. As provocações em 140 caracteres estavam pedindo algo mais, um complemento, quem sabe.

Criei, então, este blog. Num dia eu era receptora de conteúdo e “caçadora” de links, no outro, além de manter o meu antigo papel, eu adicionava um novo perfil ao meu “eu cibernético”: o papel de produtora de conteúdo.

Me tornei, literalmente, receptora de meus próprios conteúdos, uma “receprodutora”, se me permitem inventar o termo. Hoje são mais de quatro mil seguidores e tento manter o miniblog e o blog sempre ativos, já que encontrei esse espaço tão rico para estar em contato com pessoas que se interessam pelos mesmos temas que eu.

A internet é assim, um mundo de possibilidades, quando você menos espera, já está vestindo, (simultaneamente) a camisa do receptor e do produtor e, pelo bem ou pelo mal, as oportunidades e novidades que surgem a partir dessa flexibilidade são extremamente enriquecedoras.

Pelo twitter, criei um fórum de discussão sobre um tema do meu interesse e agora compartilho ideias e experiências com outras tantas pessoas, que assim como eu, têm a internet como um lugar de encontro e debates.

Que esse fórum continue crescendo sempre mais! Afinal, juntos, conseguimos tecer pensamentos mais rebuscados, além de conhecermos aquilo que jamais estaria ao nosso alcance se não fosse a plataforma digital! Façamos uso dela!

Medo do mouse

Ontem vi uma placa que me chamou a atenção, ela dizia: “Ainda tem medo do mouse? Fale com a gente e fique em paz com o seu computador!”

Minha mente logo foi povoada por pensamentos do tipo: Será que alguém ainda não é familiarizado com o computador? Como pode existir um curso para ensinar as pessoas a utilizarem computador? Hoje todos já nascem com uma mão na mamadeira e a outra no mouse!

Bom, esse foi o pensamento imediato, desprovido de reflexão. No minuto seguinte já pensei nas gerações que vieram antes de todo esse “boom” tecnológico e que agora estão penando para sentirem-se parte da cultura digital, que trouxe consigo novos hábitos, novas formas de se relacionar, de exercer cidadania, enfim, novas formas de participar do mundo.

Mas será que não é forçar a barra pensar que ainda existem pessoas que têm dificuldade para mexer em um computador? Acredito que não.

Devemos lembrar que o acesso ao computador não é democrático, bem como o acesso à internet. Muitos brasileiros adquiriram seu primeiro computador há pouco, ou ainda nem adquiriram… Trata-se, portanto, de uma novidade e, como toda novidade, existe a fase de entendimento e adaptação.

Outro caso é a já citada “barreira das gerações”:  os que não incluem-se no grupo dos “nativos digitais” buscam maneiras de aproximação com este novo mundo, regido, em grande parte, por meio de aparatos tecnológicos e da internet.

A tal placa também me trouxe à memória uma experiência pessoal: quando eu estava no colégio dava aulas de computação para os funcionários que ali trabalhavam. Depois do expediente eles corriam para a sala de computador com a vontade infinita de dominar a máquina. Achei que seria uma aula tranquila, mas lembro que logo no primeiro encontro uma das alunas (que na época devia ter por volta de seus 60 anos), levantou o mouse e me perguntou: como uso isso aqui?

Pelo jeito muitas pessoas ainda carregam essa pergunta consigo.

Por que a música é importante para a educação?

Não fiz pesquisas nem consultei artigos científicos, apenas me indaguei e resolvi responder a questão sem oferecer qualquer referência ou citação de autores reconhecidos. No caso, busquei as referências em meu passado, em meu presente, nas experiências vividas e então entendi que sem a música eu seria um ser humano incompleto, pela metade, teria menos sensibilidade para compreender o mundo.

Quando eu era pequena (por volta dos meus 5 anos), sentávamos em roda na escola e cantávamos. O professor de música tocava violão e nos ensinava as letras contando histórias; pedia para que criássemos novas canções e assim fazíamos. Cada um de nós jogava uma frase no ar e, de repente, formava-se uma história, que virava música, que virava dança, que virou lembrança.

Lembro bem de uma letra que fiz com meus colegas: “O que tem no meu caminho, o que há na minha rima… Sei que perdiz, rima com Beatriz…”. Falávamos de nosso dia a dia na escola, do “tatu bola”, “borboleta”, “bicho-folha”; transformávamos a nossa realidade em música e, assim, descobríamos, sem querer, a intensidade da linguagem musical, percebíamos que por meio dela podíamos contar histórias e falar daquilo que era importante para nós.

Hoje entendo que a presença da música em minha vida foi fundamental para ajudar na construção da minha identidade. Sempre tive a música como um lugar para entender o mundo e meus pares, para soltar a minha imaginação e explorar os limites do meu corpo e da minha mente. Fazer música, dançar música, ler música, ouvir música, tudo passa pela ideia de “transformação”.

Com certeza a música é um bem vital que, desde sempre, conversou com a humanidade e seus medos, amores, receios, guerras, conquistas, desesperos. Além de contar histórias, a música é um espaço para reflexão e para descobertas únicas. Sem a música seríamos pela metade e, por isso, ela é tão importante, pois ajuda o ser humano a ser inteiro!