A cultura do consumismo e suas implicações na infância

O crescente mercado de consumo voltado à infância traz à tona muitos questionamentos e preocupações àqueles que se se ocupam em garantir os direitos da criança e preservá-las de determinados abusos, tais como os abusos comerciais.

Um vasto leque de produtos e serviços é oferecido cotidianamente aos pais e seus filhos e, nesta dinâmica, torna-se urgente a reflexão sobre o lugar da criança: será que elas precisam ser inseridas no contexto do consumismo desde o berço?

A indústria de bens de consumo diz que sim e aos pais, pesquisadores e educadores, resta a árdua tarefa de questionar, criticar e, em última instância, desconstruir uma cultura que olha para a criança, desde muito cedo, como consumidora.

Em sociedades permeadas pela lógica do capital e sustentadas pelos argumentos da mídia, a experiência do brincar – momento potente, em que a criança investiga o mundo e constrói vínculos profundos consigo mesma e com os seus pares – inunda-se pelos valores da cultura do consumismo. Tais valores – como a supervalorização da posse material  – passam a ser referências expressivas para a construção da subjetividade e do imaginário dos participantes destas sociedades.

Aos atentos e preocupados com a infância, cabe refletir sobre como esta cultura afeta a construção do imaginário das crianças e quais implicações traz às experiências vividas por elas.

O brinquedo, artefato que ganha sentido profundo quando produzido pelas mãos das próprias crianças, viu-se apropriado por um mercado de consumo cada vez mais especializado, que passou a oferecer ao ‘público infantil’ uma ampla variedade de produtos alinhados às narrativas midiáticas, prioritariamente aos personagens dos filmes e desenhos dos grandes conglomerados de entretenimento, como as indústrias Disney.

Esta é uma realidade que está posta – a ideia hegemônica de infância é aquela construída pelas grandes marcas. Um pouco na linha do pensamento: “Toda criança precisa realizar o sonho de ir à Disney”.

Regras e condutas de comportamentos são ditadas diariamente pelos discursos midiáticos, por meio de mecanismos culturais, como filmes ou os próprios brinquedos. Assim, cabe aos adultos e cuidadores eleger com lucidez o que será apresentado às crianças, pois elas tomarão o oferecido como importante referência na construção de sua identidade e de seus valores sobre o mundo.

Se nos propusermos a entender a essência da infância compreenderemos que crianças não precisam dos excessos da indústria (talvez nem os adultos, certo?). O que elas necessitam com urgência é de liberdade, que é condição contrária à cultura do consumismo.

Essa liberdade que defendo pode ser encontrada, por exemplo, na vastidão da natureza. Os ciclos, os espaços e os materiais da natureza oferecem à criança um ambiente propício à investigação e às descobertas. Também oferece partes soltas, como folhas, troncos, água, terra, que estão sempre dispostos a virar tudo aquilo que a criança imaginar.

É importante dizer, porém, que não temos aqui um manifesto contra o brinquedo da indústria, mas sim um alerta frente à cultura do acúmulo que permeia nossas experiências de vida. Não se trata de banir o industrializado, mas de consumi-lo com criticidade, pois não falamos apenas de um consumo material, mas principalmente simbólico: quais as mensagens que determinados brinquedos carregam?

Também devemos pensar sobre o que transmitimos às crianças quando limitamos suas experiências ao circuito de consumo.  

Ao oferecer somente o pronto e o industrializado ou restringi-las a circular apenas nos ‘templos’ do consumo, como os shoppings, legitimamos os valores de uma cultura consumista, que preza pela posse e minimiza as possibilidades de experiências de protagonismo e autoria.

As crianças precisam viver o que, aos olhos dessa sociedade regida pelo capital, parece banal ou pouco produtivo: visitar parques ao ar livre, sentir a textura de uma flor ou simplesmente vivenciar o ócio. Estas são experiências que não carregam consigo os valores de um mundo alinhado ao consumismo e, exatamente por isso, possibilitam liberdade para que as descobertas da infância ocorram a partir de desejos que surgem de dentro para fora e não a partir daqueles provocados pelos discursos da mídia e pelo mercado de consumo.

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Bebês brincam?

Bebês brincam? Como? E qual a melhor forma de estimulá-los?

Para refletir sobre essas perguntas, sugiro recorrermos aos estudos da pediatra húngara Emmi Pikler (1902-1984), fundadora  do Instituto Loczy, em Budapeste. O Instituto funcionava como uma espécie de orfanato e ali ela passou a observar bebês e estudá-los profundamente. De forma bastante resumida – e introdutória – passarei por alguns pontos defendidos pela abordagem desenvolvida por E. Pikler e, ao final do texto, deixarei sugestões de leitura para aqueles que desejarem conhecer mais a fundo o trabalho dela.

A abordagem desenvolvida pela pediatra valoriza, sobretudo, o protagonismo do bebê e discute com profundidade a questão do corpo, e como ele, muitas vezes, é o próprio brinquedo da criança.

Ela acredita que todo o potencial de exploração está no corpo. A criança ter a possibilidade de movimento, para Emmi Pikler, é fundamental e todo o seu estudo baseia-se numa perspectiva que considera a criança como capaz (muitas vezes os adultos acham que um bebê não é capaz ou que não tem muito que aprender). Essa visão, que concebe o bebê quase como uma ‘marionete’, vai travando as possibilidades de um desenvolvimento autônomo.

A abordagem Pikler sugere que os bebês sejam colocados em uma superfície firme e plana, numa posição em que fiquem livres para mexer todas as articulações. Para Emmi Pikler, a liberdade para movimentar as pernas, os braços ou para virar/desvirar o corpo é fundamental para um desenvolvimento saudável.

Colocar a criança em uma posição confortável que lhe dê liberdade, deixá-la em espaços amplos, disponibilizar diferentes tipos de materiais com texturas, temperaturas, cheiros, cores diferentes (como bacias, colheres, panos) são algumas formas de estimular um bebê e contribuir para o desenvolvimento de sua autonomia, já que as descobertas e as curiosidades partirão dele, assim como as escolhas. Ele que escolherá com o que deseja interagir e por quanto tempo deseja ficar naquela experiência… E, por falar em tempo, esse é outro ponto fundamental a ser discutido.

O tempo de um bebê (e o da criança no geral) é diferente do nosso (na realidade cada ser humano tem um tempo próprio, não é mesmo?). Um bebê pode passar um longo tempo olhando e tocando um pano, descobrindo cada detalhe, sentindo o cheiro, a textura, a temperatura… E, sob a abordagem Pikler, o ideal é que o adulto respeite esse tempo e tente interferir o mínimo possível no momento de investigação do bebê (o que pode ser um tanto difícil, já que nosso impulso inicial é oferecer ajuda, oferecer novos brinquedos, etc). Como adultos, e cuidadores, devemos respeitar o tempo e também os interesses do bebê. A ideia é que o brincar aconteça o mais livre possível, como uma atividade de investigação.

Se o bebê está com dificuldade de pegar um objeto que está próximo, o ideal é esperar um pouco até facilitar a entrega do objeto, pois nos minutos seguintes, quem sabe, ele pegará por conta própria… E, então, terá realizado uma tarefa a partir de seu próprio esforço Será uma conquista! São essas experiências, à primeira vista tão simples, que contribuirão para toda a história que virá pela frente. As experiências da primeiríssima infância (0 a 3 anos) são, todas elas,  fundamentais e terão implicações para toda a vida.

Complementando a reflexão, vale dizer também que muitos brinquedos que são vendidos nas lojas sob o rótulo de “brinquedos para crianças” ou “para bebês” na realidade não atendem essas necessidades de descoberta e não proporcionam essas experiências de autonomia e escolha. Muitos destes brinquedos industrializados são recheados de cores, barulho, luzes e, geralmente, sempre de plástico (o que reduz muito as possibilidades de descoberta – a não ser que o plástico seja disponibilizado com outros tipos de materiais).

Talvez o bebê precise do silêncio, ou esteja interessado em observar o movimento de suas próprias mãozinhas e, ao colocarmos um brinquedo repleto de informações logo acima de sua cabeça, ou tampando a sua visão no berço e no carrinho, tiramos toda a possibilidade de exploração e de autonomia da criança. Ela se vê restrita a essa única experiência oferecida pelo brinquedo (que tantas vezes provoca uma hiperestimulação desnecessária).

Ainda sobre esta questão dos brinquedos industrializados, é importante destacar  que a abordagem Pikler sugere que sejam explorados os objetos do cotidiano (como exemplificado anteriormente) – ou seja – além de contribuírem de forma mais relevante ao desenvolvimento da criança, esses objetos já estão em nossas casas – não precisamos gastar fortunas com brinquedos que, tantas vezes, são repletos de botões e informações, mas vazios no que se refere às experiências oferecidas aos bebês.

Como dito no início, este foi apenas um breve resumo, que passou rapidamente por algumas das principais ideias defendidas pela abordagem Pikler. Abaixo, como prometido, compartilho alguns conteúdos para aprofundamento.

 

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Criança, do latim “creare”.

Em uma breve retomada etimológica da palavra ‘criança’, descobrimos que sua origem vem do latim ‘creare’, do mesmo radical que derivam as palavras ‘criação’ e ‘criatividade’. Uma raiz bastante pertinente, que dialoga intimamente com o universo da infância.

Em seu contato com o mundo, as crianças são extremamente imaginativas. Estão, a todo o momento, atentas e curiosas ao seu entorno, numa relação constante de construções e desconstruções. Elas transformam-se em pássaro, monstro e flor, simultaneamente. De uma caixa de papelão, fazem um castelo, inventam histórias para as borboletas e para o sol; criam seus mundos.

Porém, será que nós, adultos, estamos permitindo que as crianças exerçam essa criatividade, que lhes é tão inata, de forma livre e espontânea? Em uma sociedade conduzida pela lógica do capital, essa pergunta é importante e cabe, principalmente, aos grandes centros urbanos, em que a dinâmica do consumo já se naturalizou, influenciando o ritmo de vida de muitos.

Vivemos sob discursos que se direcionam claramente ao consumismo. A ideia central é consumir, descartar, consumir novamente e entrar de cabeça neste ciclo, responsável por alimentar e sustentar indústrias dos mais distintos produtos e serviços.

Dentro desta lógica, deixamos de ser autores e nos tornamos exclusivamente proprietários; usufruímos daquilo que nos é apresentado como necessário e, assim, mergulhamos numa dinâmica consumista. Precisamos estar atentos e questionar se realmente necessitamos de tudo aquilo que o discurso do consumo nos propõe, principalmente quando pensamos nas crianças e em como estamos lidando com a questão do consumismo na infância.

A indústria voltou-se com empenho ao público infantil, principalmente a partir da década de 60, quando estudiosos do marketing perceberam que a construção do consumidor começava ainda na infância e que crianças influenciavam, inclusive, decisões de compra dos adultos.  Estudo realizado em 2015 pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) com mães das 27 capitais apontou que seis em cada dez mães (64,4%) atendem aos apelos dos filhos quando eles pedem algum produto considerado desnecessário, como brinquedos, roupas e doces.

O mercado diz que tais produtos são fundamentais para a vivência de uma infância plena e feliz, e aos educadores (leia-se pais, professores e demais adultos que participam da vida da criança) resta questionar esse discurso da necessidade, apresentado em cada propaganda e embalagem de produto infantil.

Cachorros-robô que latem e pedem carinho; bonecas e suas vozes mecânicas; replicas de celulares, casinhas e comidinhas de plástico. Todos envoltos por embalagens ‘extraordinárias’, carregadas de promessas que levam à ideia da felicidade. São brinquedos com tantas funções, que o manual de instruções se faz necessário, trazendo o passo a passo sobre como utilizá-los.

Além disso, o brinquedo oferecido pela indústria vem repleto de sentidos e significados, intimamente ligados aos valores, símbolos e crenças do mundo dos adultos. Assim, antes de pagarmos pelas imensas embalagens e seus produtos de plástico, precisamos entender o que significa o brincar na vida de uma criança: será que ele ocorre apenas na presença destes brinquedos industrializados?

A brincadeira é a forma como a criança se expressa, como ela descobre o mundo e como descobre a si mesma. Durante o brincar a criança acessa seu imaginário; cria, recria, monta e desmonta, entra em contato com seus sentimentos e vontades; investiga, constrói hipóteses, organiza suas fantasias e exerce a sua criatividade.

Brincar traz a possibilidade de autoria e autonomia, é um percurso necessário e extremamente rico; é a própria linguagem infantil. Ao entregarmos um brinquedo repleto de botões e funções pré-determinadas tiramos a riqueza do percurso, oferecemos o pronto, empobrecendo as possibilidades de criação; a criança vira proprietária e não construtora.

O excesso de brinquedos industrializados também contribui para o distanciamento com os materiais simples que estão presentes ao seu redor, como os elementos da natureza. Com brinquedos extremamente rebuscados em termos de funções e tecnologia, as brincadeiras tendem a limitar-se a espaços internos e, assim, a criança perde a oportunidade de explorar os tantos sentidos que a natureza oferece e que são tão fundamentais ao enriquecimento dos processos de aprendizagem e ao próprio desenvolvimento humano.

A criança, sobretudo entre os 0 e 6 anos, período definido como ‘primeira infância’, precisa de experiências táteis e principalmente, afetivas; são essas as recordações e as vivências que, para ela, serão inesquecíveis. A educadora e antropóloga Adriana Friedmann, em seu livro ‘ Linguagens e Culturas Infantis’ provoca: “A infância é, ou deveria ser, um período de experimentações, sensações, sabores, cores, brincadeiras. Mas, no mundo atual, o que está interferindo para que esta infância não seja vivida de forma plena e saudável?”.

É preciso cuidar para que as crianças não vivenciem somente experiências de ter, que as tornem exclusivamente proprietárias. Elas necessitam de tempo, espaço e liberdade para potencializar sua linguagem mais genuína, que é o brincar. Deixemos que elas criem, e ergam seus próprios mundos.

O direito ao amor

Declaração Universal dos Direitos das Crianças (UNICEF)

Princípio VI – Direito ao amor e à compreensão por parte dos pais e da sociedade.

Amor; um sentimento que deve ser garantido a todas as crianças do mundo! Só assim elas poderão viver o presente em harmonia, e serão capazes de conduzir um amanhã semeado por sonhos, justiça e igualdade.

Estamos falando sobre um direito mas, sobretudo, de um alimento para a vida.

Uma criança amada e amparada terá forças para lidar com as dificuldades do mundo e crescerá com a capacidade de acreditar em si mesma e nos outros. Valorizará o respeito às diferenças e o bem ao próximo.

Nós, adultos, precisamos, a todo o momento, e sem descanso, dar exemplos de carinho e amor às crianças, criando espaços de escuta e compreensão. Parece simples, parece natural, mas, infelizmente, ainda vemos pais batendo nos filhos, punindo, gritando; ainda vemos adultos individualistas e egocêntricos.

Somos todos educadores e nossa responsabilidade com o mundo é contínua: ao educar crianças, estamos cuidando delas e do mundo, simultaneamente.

Sem o afeto, porém, não conseguiremos construir um mundo mais digno e bonito de se viver. A vida é delicada e o amor está entre os principais combustíveis para a sobrevivência humana.

Que todas as crianças tenham seus direitos respeitados e possam ser verdadeiramente amadas, por todos aqueles que participam da sociedade.

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Mapa da Infância Brasileira lança plataforma colaborativa de aprendizagem

Pensar a infância com a atenção e o cuidado necessários, esse é o grande diferencial do Mapa da Infância Brasileira (MIB), uma comunidade colaborativa de aprendizagem  que tem como missão articular, mobilizar e criar sinergias entre os diversos atores e iniciativas que visam gerar impacto positivo na qualidade de vida das crianças brasileiras.

Idealizado e coordenado pelo NEPSID (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Simbolismo, Infância e Desenvolvimento),
o projeto iniciou suas ações em 2013 com a pesquisa “Espaços e Programas humanizados para as crianças
de São Paulo”, que reuniu ações inovadoras na cidade e alimentou o desejo de ir além: olhar não apenas para São Paulo, mas para as diferentes infâncias brasileiras.

Assim surgiu o MIB; um convite ao diálogo, reflexão e  inspiração sobre a infância e suas linguagens. Um lugar para acolher os gestos e ritmos infantis e refletir sobre eles. Uma comunidade para aprender, trocar, pesquisar e, sobretudo, para alimentar a alma.

São muitas as iniciativas inspiradoras voltadas à infância Brasil afora! O MIB surge para reunir essas iniciativas e permitir que pessoas interessadas pelos temas da infância se encontrem e troquem informações.

Qualquer um pode participar da comunidade. Se você tem interesse em se aprofundar no tema e conhecer boas práticas, ou se deseja compartilhar uma iniciativa ou conteúdo, acesse a plataforma e inscreva-se.

Além da plataforma online, o MIB desenvolve e aplica instrumentos de pesquisa junto a crianças e seus cuidadores, com o objetivo de buscar indicadores às diferentes iniciativas das quais as crianças participam. Os instrumentos do MIB já foram utilizados em iniciativas como o Movimento Boa Praça, Sacolão das Artes e Projeto Casulo.

Acompanhe o Mapa da Infância Brasileira!

 

Experiências perdidas

Ontem conheci uma garota muito simpática. Entre um assunto e outro, ela me contou que fora professora durante alguns anos em uma escola voltada à classe alta (super alta! muito alta!) de São Paulo. Com uma mensalidade ‘salgada’, a escola atende famílias de milionários paulistanos. Até aí, nada tão problemático, mas, quando o excesso de dinheiro vem acompanhado do excesso de ignorância e ausência de criticidade, questões graves podem surgir. Muitas destas famílias parecem mergulhar a fundo na lógica do consumo, defendendo e perpetuando valores supérfluos, que reafirmam comportamentos preconceituosos, excludentes e pouco acolhedores.

A própria escolha pela escola dos filhos parece estar baseada na lógica do consumo. A instituição de ensino da qual falamos tornou-se um status importante entre os milionários de São Paulo e, colocar os filhos ali tem um peso simbólico considerável. Em entrevistas com diretoras, parece que são poucos os pais que indagam sobre o Projeto Pedagógico adotado pela escola, mas todos afirmam “meu filho tem que estudar aqui”.

Não pretendo criticar ou discutir o projeto da escola, até porque não o conheço em profundidade. Quero pensar sobre os ambientes pelos quais essas crianças circulam. Os relatos que ouvi me assustaram. Tive a impressão de serem ambientes que tendem a marginalizar e transfigurar valores importantes ao desenvolvimento humano, como a empatia e a tolerância, e impor enormes barreiras para que essas crianças e jovens experimentem o mundo livremente, a partir das diferentes interações com seu entorno.

picjumbo.com_IMG_5498Algumas crianças dessa escola, por exemplo, são proibidas (pelos pais) de estabelecer contatos próximos com aqueles que não pertencem a sua classe social. Tomei conhecimento da história de um casal que proibia a filha de 4 anos a entrar na cozinha da própria casa e estabelecer qualquer contato com os empregados. Meu coração partiu nesse momento. Foi ai que eu entendi como o dinheiro, somado à ignorância, pode privar crianças a experimentarem o mundo e todas as suas surpresas, belezas e diversidade. O dinheiro, somado a valores mesquinhos, pode ser tão grave quanto a falta dele.

Privar uma criança de entrar na cozinha da própria casa? O que sustenta esta regra? Proibir que conheça seu próprio lar, que aprenda como é feito o alimento que consome todos os dias, que conheça quem está fazendo a sua comida e que possa fazer junto… Impedir que descubra texturas, sabores e cheiros, que conheça o processo de preparação do alimento, até que ele chegue ao prato. Quantas privações, quantas experiências perdidas! E por quais motivos?

A mesma reflexão cabe à proibição do contato com os empregados da casa. Uma escolha insustentável, que perpetua uma lógica excludente, limitando e empobrecendo o mundo e as experiências da criança. A troca e a convivência entre os seres humanos – principalmente entre aqueles que dividem o mesmo espaço – deve ser algo natural e saudável, capaz de trazer inúmeros aprendizados, como o desenvolvimento da empatia e da capacidade de negociação.

Muitos pais, ao impedirem essas vivências, ferem a infância dos filhos com seus valores invertidos e equivocados. As crianças, vítimas destes contextos, tendem a reproduzir as falas e os comportamentos dos pais, assumindo-os como verdades, e correm o grave risco de tornarem-se adultos egoístas, preconceituosos e consumistas. É preciso cuidar dessas crianças, preservar suas infâncias e seus futuros!

Essa situação me fez reviver uma experiência de anos atrás. Eu estava na casa de uma amiga cuja família é muito rica. Muitas coisas na dinâmica daquela casa me chamavam a atenção; uma delas era o fato de ter um interfone no quarto, que tocava diretamente na cozinha. Bastava tirar o telefone do gancho, pedir um suco e, em poucos minutos, o pedido estava lá (sim, parecia mais um hotel!). Mas o que me chocou profundamente foi a fala da irmã da minha amiga. Ela se aproximou de mim e perguntou: “Você sabe qual carro o meu pai tem?” Eu respondi: “Não”. E ela retrucou: “Uma Mercedes”. Essa menina tinha por volta de 5 anos. Eu também era criança na época, devia ter 12 anos. Quando ouvi aquilo fiquei sem reação e, depois de muito tempo, entendi que, naquele momento, eu senti compaixão. Como uma criança, com aquela idade, poderia estar com essa narrativa? Algo muito errado estava acontecendo ao seu redor.

E tive novamente essa sensação durante a conversa de ontem.

Mães que, após darem a luz ‘colocam peito’, minicomputadores como lembrancinhas em festas infantis, bullying com aqueles que não possuem avião ou casa fora do país; ‘andar de ônibus’? ‘fazer a própria comida’? – Fatos e perguntas que fazem parte da realidade dessas crianças e que contribuem para o seu desenvolvimento como ser humano. E, que ser humano será esse? O excesso parece causar esvaziamentos profundos e não podemos permitir que esse processo afete a infância, fase tão importante na construção daquilo que seremos no e para o mundo.

Precisamos de pessoas inteiras, que sejam tolerantes, amigáveis, compreensivas e transformadoras. Ambientes com tantas cercas e dogmas, com certeza não são os mais saudáveis para o desenvolvimento pleno de nossas crianças.

Alimentos orgânicos na merenda escolar

Entre os dias 10 e 13 de junho o Pavilhão da Bienal do Ibirapuera, em São Paulo, recebeu o 11º Fórum Internacional de Agricultura Orgânica e Sustentável, consolidado como o mais importante evento da América Latina para pensar o setor orgânico e agroecológico.

Com 122 expositores, o Fórum busca, além de mostrar em primeira mão o que o mercado oferece em termos de produtos e serviços, criar um espaço para debates que visam pensar o futuro dos orgânicos no Brasil e no mundo, com foco não apenas em tendências de mercado, mas também em políticas públicas, como é o caso da Lei 16.140/2015, sancionada em março deste ano pelo prefeito Fernando Haddad e que estabelece a priorização da compra de orgânicos na alimentação escolar do Município de São Paulo.

photoConsiderada um grande avanço não só para a área da saúde, mas também para a educação, economia e meio ambiente, a nova lei é resultado de um trabalho conjunto, articulado pela Plataforma de Apoio a Agricultura Orgânica, constituída por diversas organizações da Sociedade Civil, e abraçado pelo poder público, pelas cooperativas de agricultores familiares e por demais envolvidos e interessados no tema. O processo de regulamentação da lei, que tem prazo de 180 dias, deve ser concluído em meados de setembro.

A nova lei é de extrema importância, ao passo que impacta diretamente as crianças, contribuindo para seu desenvolvimento pleno e saudável. A qualidade da alimentação, como indica a própria Organização Mundial da Saúde (OMS), está intimamente relacionada ao aparecimento ou prevenção de doenças e, inclusive, ao desenvolvimento cognitivo e emocional. Crianças com dietas equilibradas e saudáveis saberão dar valor ao alimento, respeitarão a natureza e poderão reproduzir hábitos saudáveis às futuras gerações.

:. Sobre o debate

No dia 10/06/15, especialistas de diferentes áreas se reuniram no Pavilhão da Bienal para discutir os impactos diretos da agricultura orgânica na saúde, educação, meio ambiente e economia. Esta percepção holística do tema é fundamental, pois comprova a urgência em reavaliarmos os hábitos alimentares adotados (e naturalizados) por grande parcela da população e, mais do que isso, os impactos destes hábitos para as novas gerações.

Saúde

O que a criança está ingerindo para formar e desenvolver seu sistema nervoso central e imunológico’? Com essa pergunta, a nutricionista clínica Denise Carreiro evidenciou a importância da boa alimentação na infância. “Entre o 3º mês de gestação e os 18 meses, o cérebro está em plena formação e desenvolvimento, por isso, é tão importante que as crianças consumam comida de verdade”.

A diferença entre a ‘comida de verdade’ e a ‘comida industrializada’ foi o fio condutor da fala da especialista, que citou a ligação direta entre a má alimentação (e a consequente falta de nutrientes) e o surgimento de doenças crônicas não transmissíveis e, até mesmo, transtornos como hiperatividade e déficit de atenção: “Se dermos os nutrientes necessários às crianças, não haverá necessidade alguma de darmos ritalina ou antidepressivos a elas”.

A nutricionista enfatizou, porém, que esses nutrientes só podem ser encontrados de forma plena em alimentos orgânicos, que não tiveram qualquer contato com agrotóxicos ou demais químicos, e ela reconhece: “O brasileiro, antes de não comer orgânicos, não tem o hábito de comer frutas, verduras e legumes. Primeiro é preciso ensinar o brasileiro a comer comida de verdade e, depois, introduzi-lo aos orgânicos”.

O desafio é grande e precisa ser endereçado o quanto antes, já que dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam um aumento de 600% nos casos de doenças crônicas não transmissíveis no mundo, associadas à alimentação inadequada.  Frente a esses dados, a OMS alerta que os filhos deverão viver menos do que os seus pais – e com menor qualidade.

Educação

Para transformar esse cenário, a educação aparece como espaço promissor. A criança é indutora de transformações e, se desde cedo, for apresentada a novas possibilidades alimentares, teremos a chance de reverter a crise alimentícia que atinge não apenas o nosso país, mas o mundo.

Foi pensando neste potencial transformador da educação que o Instituto 5 elementos desenvolveu o projeto ‘Dedo Verde na Escola’, que teve aplicação piloto nas EMEIs Escola de Educação Infantil Dona Leopoldina e Ricardo Gonçalves, com financiamento de FEMA – Fundo Especial de Meio Ambiente de São Paulo. O projeto, coordenado pela pedagoga Mônica Pliz, consiste em implementar hortas orgânicas pedagógicas nas escolas e está sendo discutido pelo GT que trabalha na regulamentação da Lei 16.140/2015, para que chegue a toda rede municipal de ensino.

Mônica afirma que o projeto demanda mudança de postura, que começa no momento em que a comunidade escolar passa a enxergar o espaço da escola de forma diferente, entendo que ali pode e deve entrar mais vida. “Hoje as escolas reproduzem os espaços urbanos, são cinzas e duras, não acolhem as pessoas ou demais seres vivos. Mesmo nas escolas que têm parques, os alunos não podem brincar  na natureza, pois irão se sujar”.

Isso os distancia da natureza de uma forma total e absoluta e o potencial transformador da escola se perde. “As hortas orgânicas propiciam a aprendizagem sobre os ciclos da natureza e despertam na criança o respeito aos seres vivos; crianças que antes matavam insetos passam a entender que eles são essenciais para as hortas e, portanto, para o alimento que irão ingerir na hora do almoço”. Segundo Mônica, o Projeto Dedo Verde, que inclui também a construção de terrarios, composteiras e minhocarios, tem um impacto transformador, inclusive, nas relações interpessoais, que ficam mais amorosas, respeitosas e pacientes.

Meio ambiente

Dois produtores orgânicos também deram seus depoimentos. Fernando Ataliba, do Sitio Catavento, é militante do movimento orgânico e está nesse mercado há mais de 20 anos. Ele trouxe ao debate reflexões sobre os impactos da agricultura no meio ambiente e ressaltou que a agricultura tradicional, que funciona em grande escala, desmatando, usando grandes máquinas e utilizando insumos químicos, contribui para a alteração do ciclo das aguas, resultando, inclusive, em crises hídricas, tal qual vivenciamos atualmente. Na agricultura orgânica, o solo, por sua vez, é vivo, e as características são praticamente iguais as das florestas nativas: “A agricultura orgânica tem uma postura humilde frente à natureza, ela venera os mecanismos naturais e aprende com eles”.

Economia

Nelson Krupinski, da Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre (COOTAP), que reúne aproximadamente 2mil famílias agricultoras, afirmou que o mercado orgânico é promissor e está crescendo. A COOTAP é a maior produtora brasileira de arroz orgânico do Brasil e fornecedora de produtos para alimentação escolar de várias cidades brasileiras. Em São Paulo, atende 20 prefeituras, inclusive, a capital. A ideia é que esse movimento se expanda e leis como a 16.140/2015 favorecem esse fortalecimento. Além de impactar diretamente a saúde das crianças da rede municipal de ensino, a lei impacta a geração de renda e manutenção do homem no campo.

Departamento de Alimentação Escolar e a compra de orgânicos

No dia 11 de junho, segundo dia de debate sobre o tema, o Departamento de Alimentação Escolar (DAE) expôs o trabalho que vem desenvolvendo junto à rede municipal de ensino, que contempla aproximadamente 1 milhão de crianças (O Ensino Médio não entra nesta conta, pois está sob gestão do Governo do Estado).

Danuta Chmielewska, assessora do DAE, contou aos presentes que produtos in natura já contemplam grande parte das compras realizadas pelo departamento e que, após a Lei nº 11.947, aprovada em 2009, as compras realizadas diretamente com agricultores orgânicos foi favorecida. A lei de 2009 estabelece que pelo menos 30% de todo o recurso do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para alimentação escolar deve destinar-se à compra direta de produtores da agricultura familiar.

Com isso, em 2012, o DAE realizou a primeira compra deste caráter e, desde então, vem articulando estratégias para tornar os pratos das crianças 100% orgânicos. Em 2012, 1% do FNDE destinou-se a compra direta da agricultura familiar e, em 2014, 17% dos recursos foi destinado para esse fim. Para 2015, a estimativa é que 28% dos recursos sejam direcionados à agricultura familiar. Um grande avanço que certamente crescerá com o apoio da legislação.

Para o DAE, porém, o alimento que chega a escola deve ir além do prato, entrando também nas discussões em sala de aula. Assim, já existem conversas para que as escolas reconheçam e valorizem o processo da agricultura familiar e incluam o tema em suas práticas pedagógicas.

Slow-Parenting: entenda o movimento dos pais sem pressa

Qual a sua lista de atividades para hoje? Provavelmente, será imensa e o tempo disponível não dará conta das tantas tarefas a serem cumpridas.  Se você morar em um grande centro urbano, então, esqueça. A probabilidade de realizar tudo aquilo a que se propôs será ainda menor, já que o ritmo da cidade e as expectativas geradas em torno do ‘fazer’ são incompatíveis com aquilo que está ao alcance de uma pessoa ‘comum’, dentro das suas 24h diárias.

Vivemos em um mundo que valoriza a velocidade, a produtividade e a quantidade. É preciso entregar o máximo possível, em tempo recorde. Trata-se da lógica capitalista, que rege a sociedade de consumo, na qual estamos todos inseridos.

Esse ritmo veloz interfere em nossa relação com o mundo e com nossos pares, afeta, inclusive, a possibilidade de conhecermos – e respeitarmos – nosso próprio tempo. Viver sob essa constante pressão também abre caminhos para que sentimentos como a ansiedade, a angústia e a desmotivação se manifestem.

Dentro dessa dinâmica acelerada, a competitividade assume papel relevante. São muitas empresas, muitos produtos, muitos funcionários, muitas tarefas: é preciso ser o melhor, sempre. E esse recado é reforçado pelo discurso publicitário, que cria expectativas irreais, ao apresentar um modelo de “perfeição” para tudo e todos que participam da sociedade. A “família perfeita”, o “pai perfeito”, a “mãe perfeita”, o “filho perfeito”, o “funcionário perfeito”, a “casa perfeita”, o “carro perfeito” e daí em diante.

slow-parenting

Para desacelerar a rotina das crianças, os pais precisam pensar em como estão organizando suas próprias vidas.

É preciso ser perfeito. Os pais vivem essa pressão e, pensando em preparar o filho para o mundo, também desejam que eles alcancem a perfeição. Contudo, a ideia de perfeição construída pela indústria da propaganda, em dialogia com o mercado, pode ser extremamente cruel e não endereçar as reais necessidades do humano, tanto em sua fase adulta, como também na infância.

Pensando em dar o melhor aos filhos, os pais estão incentivando o superagendamento da infância. Crianças de 3 anos dividem-se entre a escola, aulas de natação, inglês e música. Mas, será realmente necessário estabelecer essa rotina intensa e corrida? Será que o ritmo da criança acompanha as exigências de horários e atividades desta agenda?

Para a psicóloga Adriana Fóz, coordenadora do Projeto Cuca Legal (UNIFESP), é preciso respeitar o tempo da criança. “Até os 5 anos os estímulos têm que ser mais naturais e, dos 6 aos 12, pode-se pensar em aprender de forma mais sistematizada, porém, sempre respeitando o ritmo e as escolhas da própria criança”, afirma a psicóloga.

Esse respeito ao tempo da criança exige um exercício profundo, que deve começar quando o bebê ainda está na barriga. Os pais mostram-se ansiosos desde a concepção do filho e criam muitas expectativas em torno da maternidade/paternidade e da vida futura desta criança que, diga-se de passagem, mal chegou ao mundo. Na cabeça deles, precisam ser “superpais” e criar ‘superfilhos’.

Esse comportamento conversa com o modelo de vida que nos é imposto (e que deve ser questionado). Alguns estudiosos, como o jornalista canadense Carl Honoré, passaram a pensar respostas a esse estilo de vida ultra-acelerado. Honoré foi um dos precursores do movimento “Slow-Parenting”, cujo objetivo é desacelerar a rotina dos pais, para que consigam conhecer a si e, principalmente, conhecer e respeitar o tempo da criança. Pais ansiosos certamente passarão tal sentimento aos filhos.

Honoré explica que a ideia do “Slow” não significa ir “a passos de tartaruga”, mas sim encontrar o tempo certo para realizar determinadas atividades. Devido à ansiedade em dar sempre as melhores oportunidades aos filhos, os pais tendem a antecipar descobertas que aconteceriam naturalmente em outro momento, provavelmente com mais sentido e com maior potencial para um real aprendizado.

O movimento Slow também questiona a relação entre quantidade e qualidade. É preciso tempo para descobrir o mundo e crianças sabem disso; elas são naturalmente exploradoras, têm impulso por conhecer tudo o que as cerca e o farão, mas no tempo delas. Portanto, uma agenda lotada não necessariamente significa mais oportunidades para um desenvolvimento saudável, que garantirá melhores oportunidades no futuro. Muito pelo contrário. O Superagendamento pode interferir no desenvolvimento da criança, impossibilitando espaços para o exercício da criatividade e gerando ansiedade e estresse, por exemplo.

Por isso, é essencial que os pais escutem suas crianças e entendam como elas apreendem os estímulos externos. O tempo da criança, que surge dela própria, é fundamental para o desenvolvimento e a construção de sua autonomia e identidade.

A verdade é que, em tempos de aceleração da vida, deixar crianças serem crianças parece algo extremamente estrangeiro, quando deveria ser tão simples e natural.

Para o Pedagogo Paulo Fochi, um dos porta-vozes do Movimento Slow-Parenting no Brasil, educar passou a ser compreendido como um empreendimento do futuro. “Os pais entendem agendas lotadas como sinônimo de qualidade de vida”.

Em busca de oferecer o melhor, questionam-se: “Quais serão os novos produtos, aulas e afazeres que o mercado criou para o meu filho?” – Com essa pergunta, que tem sua origem no capitalismo e na sociedade de consumo, acabam colocando a criança no ritmo do capital e interferindo naquilo que a criança tem de mais genuíno: a espontaneidade!

Fochi defende que o tempo livre é essencial. “São nesses momentos que a criança irá experimentar, testar, abandonar, retomar um projeto. O tempo dá espaço para o inédito.”

Os pais precisam permitir aos filhos que construam suas próprias histórias. Crianças com rotinas que reproduzem agendas da vida adulta são submetidas a estilos de vida que podem interferir em sua autonomia, em sua autodescoberta e na descoberta do mundo.

O Slow-Parenting, portanto, configura-se como um movimento que incentiva o tempo livre e que busca equilibrar as expectativas familiares e as reais necessidades da criança. Defende a ideia da valorização dos pequenos prazeres em família.

Para desacelerar a rotina das crianças, porém, os pais precisam pensar em como estão organizando suas próprias vidas, o que estão priorizando e como estão se relacionando consigo mesmos. Vale a reflexão, não?

Longa metragem ‘Território do Brincar’ tem pré-estreia durante abertura da Ciranda de Filmes

Dia 20 de maio de 2015 ficou marcado por encanto e alegria. Na noite de abertura da Ciranda de Filmes, mostra de cinema focada em infância e educação, veio ao mundo o filme “Território do Brincar”, de Renata Meirelles e David Reeks. Uma produção da Maria Farinha Filmes e Ludus Vídeos e Cultura.

Em uma exibição para 800 convidados, o Auditório do Ibirapuera virou cenário para celebrar a infância. Os presentes foram recebidos com um cocktail inspirado na rota traçada pelos diretores do filme: durante dois anos eles percorreram diversas regiões do Brasil, ali relembradas pelos sanduiches de rabada, cuscuz paulista, beiju e saladinhas de feijão. Um primeiro gosto do que seria aquela noite.

E que noite! Se pudéssemos resumi-la em uma palavra, a escolhida seria ‘encontro’. Encontro de pessoas queridas e o encontro consigo mesmo. A sensibilidade do Projeto Território do Brincar, agora registrado em longa-metragem, tem o poder de nos transpor ao universo da infância e nos reconectar à nossa essência; nos faz refletir, acima de tudo, sobre o humano, pois é na criança que vive, da forma mais pura e genuína, a potência de todos nós.

Um filme que arranca lágrimas e risadas e que desenterra lembranças profundas. São 90 minutos de puro encantamento. Ao final, os convidados assistiram ao pocket show do grupo mineiro Uakti, responsável pela trilha sonora do filme. E a noite se encerrou com uma linda ciranda na voz de Tião Carvalho.

Além da pré-estreia, o filme Território do Brincar também entrou na programação da Ciranda de Filmes, que ocorreu no Cinesesc e no Cine Livraria Cultura, entre 21 e 24 de maio. No dia 21/05 o filme foi exibido ao público da Ciranda e, no dia 22, a equipe do longa ministrou a Oficina ‘Desvendando o Processo Cinematográfico’, oportunidade em que conversaram com o público sobre os bastidores do filme.

O Território do Brincar chegará aos cinemas de São Paulo e Rio de Janeiro no dia 28 de maio e, no dia 4 de Junho, será lançado nos cinemas de Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis, Brasília, Belo Horizonte, Salvador, João Pessoa e Santos.

Lançamento do longa-metragem 'Território do Brincar'. Foto: Aline Arruda.

Lançamento do longa-metragem ‘Território do Brincar’. Foto: Aline Arruda.

Texto publicado originalmente no site do Projeto Território do Brincar.

Manoel, guardião de todos nós.

‘Quem se aproxima das origens se renova’.

Manoel de Barros é aquele tipo de pessoa necessária ao mundo. Faz parte do grupo de ‘guardiões da humanidade’ e dedicou sua vida para que pudéssemos resgatar a nossa essência. Quem somos? Por que somos? Onde estamos e para onde vamos?  O que realmente importa?

Os biólogos poderiam nos dar boas respostas, assim como os filósofos ou até mesmo os matemáticos, mas prefiro contar com os poetas. Prefiro contar com O poeta. Para essas e outras perguntas, minha escolha é consultar Manoel de Barros, um homem de miudezas e infinitas belezas.

Poesia, quando não causa ruído, melhor deixar pra lá. Mas esse não foi o caso com Manoel. As palavras dele grudaram na minha alma e me fizeram entender que não havia problema em ver beleza nas pequenezas da vida, afinal, são elas que engrandecem o nosso existir.

Como ele mesmo dizia, sua poesia emana da infância. Foi ali, no baú de memórias inventadas da infância, que ele encontrou todo o alimento de seu trabalho. Um poeta que sempre escutou as crianças com respeito e admiração e foi com elas que aprendeu a ‘ouvir a cor dos passarinhos’, ‘apanhar desperdícios’ e ‘carregar água na peneira’.

Um homem imenso, costurado pelos detalhes do mundo. Além da sua obra completa, um outro jeito de se encantar por Manoel de Barros é por meio do documentário “Só dez por cento é mentira“, dirigido por Pedro Cezar.

São 82 minutos de carinhos que tocam o profundo da alma. Ali, o próprio Manoel nos conta de sua vida e de suas palavras. Temos a alegria de conhecer quem foram os seus heróis e grandes inspirações. O filme, assim como seus poemas, é um agrado que todos nós merecemos, pelo simples fato de estarmos vivos.

Manoel é coisa séria, e não à toa emprestou – e ainda empresta – sua sensibilidade a tantos educadores do Brasil e do mundo. A educação, mais do que nunca, precisa beber do universo ‘Manoelês’, pois, para construirmos um mundo mais acolhedor e sensível, é necessário que o ritmo das tartarugas tenha mais valor do que o dos mísseis.