É preciso respeitar o ritmo da criança

“Nós aprendemos a controlar; podemos aprender a respeitar?”

Esta pergunta está no livro “Artistas do invisível“, de Allan Kaplan, em que ele discute o desabrochar dos sujeitos e do vir a ser no mundo social. O livro apresenta inúmeras provocações sobre como podemos construir relações baseadas no afeto, possibilitando novas maneiras de estar no mundo – ou ainda – novas maneiras de construir o mundo de modo a gerir, com harmonia, a mescla de caos e ordem, tão própria das sociedades humanas.

Aqui, porém, não faremos uma resenha ou uma análise critica do livro, mas nos pautaremos na pergunta destacada para pensar sobre o que estamos oferecendo às crianças. Será que, como educadores e educadoras que somos, conseguimos, de fato, respeitar o tempo, os desejos, o ritmo das crianças? Ou será que tentamos, a todo o momento, enquadra-las na tão costumeira pressa que marca nossas relações?

Conviver com crianças é ter a oportunidade de voltar às profundezas da humanidade, já que são elas –  as crianças – o estado mais puro do ser humano. Para elas, tudo é nascente, tudo é encantamento.

Repare na alegria de uma criança ao descobrir o próprio corpo: o nariz, a boca, os pés; ou ao perceber que, ao bater as mãos, as palmas acontecem; ou, ainda, a alegria que sentem quando descobrem que (SIM!) é possível mudar a entonação da voz – e, então, lá vão elas, passar longos minutos nessa brincadeira.

Crianças repetem, incessantemente, as brincadeiras que despertam alegria: Cadê? Achou! Ao ouvir música, soltam o corpo, dançam, cantam, querem mais. Entregam-se verdadeiramente às experiências. Escavam a vida até a última gota. São pesquisadoras natas. Possuem um bonito compromisso com cada momento de sua existência.

Ao passear na rua, desviam do caminho “correto”, fazem pausas longas, recolhem flores e plantas ou, ainda, enxergam aquelas pequeninas formigas e também as borboletas e suas asas coloridas. Mas, não param por ai. Desejam, sempre, partilhar seus achados: chamam, então, os adultos para, junto com elas, contemplar os encantos do caminho.

Mas será que ainda sabemos nos entregar a este tipo de contemplação? Será que estamos prontos para respeitar este tempo das crianças? Ou, ao contrário, será que estamos, a todo o momento, barrando suas possibilidades de descobertas e encantamento?

“Chega”, “Não”, “Ai é perigoso” e tantas outras pequenas palavras que, provavelmente, não precisariam ser ditas se nos permitíssemos compreender a alma de uma criança – ou, ainda, se nos permitíssemos reencontrar a essência de nossas próprias almas.

Ao contrário disto – imersos na cultura da pressa, da produção, das telas, do imediatismo – tentamos, quase que de forma inconsciente, trazer as crianças a este mundo desajeitado em que vivemos, afinal, é mais fácil ligar um tablet e entregar à criança do que acompanha-la em uma caminhada que terá inúmeros desvios, perguntas e que provavelmente consumirá alguns longos minutos de seu dia. É mais fácil ligar a TV, todas as manhãs, do que dar uma volta na praça mais próxima. (preciso dizer, porém, que defendo experiências equilibradas. Vivemos em uma sociedade mediada por telas; é extremamente difícil isolar as crianças desta realidade. Devemos, então, apresentar essas interfaces comunicacionais com responsabilidade, pensando, inclusive, no bem-estar das crianças que, se restritas às telas, podem apresentar comprometimentos tanto físicos, como sociais e emocionais).

São escolhas que fazemos cotidianamente, e que nos convidam a pensar sobre o que estamos priorizando ao lidar com as infâncias.

Acredito que, comumente, priorizamos uma noção de tempo que há muito nos foi imposta (o tempo da era industrial – demarcado por processos repetitivos, delimitados, sempre insuficientes e digno de nosso controle. Será?). A verdade é que somos todos frutos destas revoluções industriais, urbanas, tecnológicas e, sim, é difícil resistir a uma estrutura tão calcificada e dominante. Queremos controlar o tempo e também a vida. Acreditamos ser capazes disto, mas a verdade é que ambos, definitivamente, fogem ao nosso controle.

Para acompanhar uma criança e estar de corpo presente ao seu lado precisamos abdicar desta falsa ideia de controle que guia nossas vidas, nossas escolhas e nossas relações. Precisamos romper com a angústia provocada pelo relógio e pelos calendários e ponderar que, no tocante às infâncias, a ideia do controle – geralmente – liga-se à limitação de experiências fundamentais às crianças.

Correr. Ir pra natureza. Entrar em contato com outras crianças. Movimentar-se. Viver o ócio. O controle, muitas vezes, tira as crianças de seu habitat natural e esvazia, por fim, sua alma desbravadora e contemplativa. A troco de quê?

Salta aos olhos a contraposição que Allan Kaplan faz. Ao lançar a pergunta:  “Nós aprendemos a controlar; podemos aprender a respeitar?”, ele apresenta o ‘respeito’, como oposto ao ‘controle’. Uma colocação que nos tira do lugar comum. Naturalmente, pensaríamos que o oposto do controle é o descontrole, o caos, a barbárie. Mas isto seria válido somente se concebêssemos o controle como um conceito fixado à ideia do poder.

Se nos abrimos a compreender os processos que nos cercam, ou, ainda, os processos que nos constituem, poderemos, enfim, conceber ‘respeito’ como oposto à ideia de ‘controle’. Uma febre passará. Trata-se de um processo natural, com etapas que precisam ser respeitadas para que seja possível, finalmente, alcançar a cura. Uma criança precisa brincar livremente, respeitando seu tempo interior. Faz parte de sua constituição como sujeito.

Se aprendermos a respeitar o tempo e o ritmo dos processos que nos tornam humanos – ou ainda – dos processos naturais – e nos libertarmos da angústia provocada pela falsa ideia do controle, teremos chances maiores de aproveitar as tantas belezas que estão diante de nós, diariamente. Uma dessas belezas? O compromisso de uma criança com a vida.

 

Imagem: Pixabay

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