Minimalismo x consumismo

O documentário Minimalismo: um documentário sobre as coisas importantes foi lançado em 2016, nos Estados Unidos, e oferece uma reflexão sobre os hábitos de consumo dos sujeitos pertencentes às economias capitalistas.

Para o britânico Nikolas Rose, que estuda narrativas de autoajuda, diferentes épocas produzem humanos com diferentes características psicológicas, com diferentes emoções, crenças e patologias. Sob esta lógica, o documentário coloca em pauta uma patologia de nosso tempo: o consumismo, caracterizado pelo excesso e pelo acúmulo, e propõe ao espectador um estilo de vida minimalista, que seria oposto a este consumo exacerbado que se revela, principalmente, nos grandes centros urbanos.

A construção narrativa do documentário, a fim de convencer o espectador sobre as vantagens do minimalismo, se estrutura sobre vozes de psicólogos, sociólogos, historiadores, empreendedores e, principalmente, daqueles que mudaram de conduta, abandonando o comportamento consumista e assumindo o minimalismo como um novo estilo de vida. Temos, portanto, uma construção narrativa baseada, prioritariamente, em relatos autobiográficos: histórias de superação são contadas, na busca por inspirar e auxiliar aqueles que ainda se encontram presos a um comportamento de consumo baseado na lógica das adições.

Tais características nos levam a pensar que o documentário tem como um de seus principais objetivos a regulação social e moral dos sujeitos, já que, para a estudiosa Judith Butler, o ato de relatar a si mesmo, entre outras funções, tem o objetivo de persuadir.

Aos que estudam as práticas de consumo sob olhar critico e atento, o conteúdo deste documentário é bastante provocativo e revelador de um sistema de privilégios naturalizado: aqueles que se propõe a mudar de vida, adotando o estilo minimalista, necessariamente experimentaram o excesso e, ao adotarem novos hábitos, seguem um roteiro de vida previsível: viram autores de livros motivacionais, palestrantes, personagens de documentários, e assumem a missão de levar a mensagem para o maior número de pessoas possível, na tentativa de mostrar qual a receita de uma vida feliz. O projeto pessoal, ou biográfico, portanto, torna-se referência para a adoção de novos padrões de vida. Assim, o “eu” passa a funcionar como um ideal regulatório, como afirma Nikolas Rose.

Palavras como “receita” ou “ajuda” são utilizadas com frequência por personagens que aparecem no documentário. Os americanos Josh e Ryan, amigos de longa data, bem sucedidos no trabalho e donos de salários bastante altos, são um ótimo exemplo de como o “eu” pode atuar como agente regulatório. Ambos decidem abrir mão de uma vida consumista e adotar o minimalismo como um novo padrão para se viver: juntos, lançaram um site (theminimalists.com), escreveram livros, rodaram os Estados Unidos para, nas palavras deles: “inspirar e ajudar outras pessoas” ou, ainda, para “espalhar uma receita para uma nova vida”.

Nas palestras que proferem, a narrativa autobiográfica é a linha central; eles contam ao público como a vida era superficial e vazia quando viviam para trabalhar e consumir e afirmam que, ao adotarem o minimalismo como nova conduta, encontraram a verdadeira felicidade e o sentido da vida.

A dupla se autodenomina “os minimalistas” e possui não apenas site ou livros publicados, mas também canais nas redes sociais e podcasts, em que busca divulgar sua mensagem e sua receita para uma nova vida. Podemos enxergar neste fenômeno um nítido alinhamento com o discurso da autoajuda, já que, segundo Francisco Rudiger, estudioso do tema:

“A literatura de autoajuda constitui uma das mediações através das quais as pessoas comuns procuram construir um eu de maneira reflexiva, gerenciar os recursos subjetivos e, desse modo, enfrentar os problemas colocados ao indivíduo pela modernidade” (RUDIGER, 1996, p.13)

Assim como as histórias de Josh e Ryan, outros depoimentos autobiográficos sustentam o argumento do documentário. Pessoas que abandonaram suas casas enormes, para viver em locais minúsculos e compactos, dão seus testemunhos. As pequenas casas, por sua vez, são projetos arquitetônicos altamente especializados. No filme, não se fala em valores, mas podemos imaginar que muitos dígitos definem o preço dessas casas, já que elas pertencem a um universo de consumo exclusivo. É para poucos. E isso que incomoda no documentário. Também incomoda a forma como os discursos são construídos, sobre uma lógica bastante egocêntrica, em que personagens falam de suas vidas e escolhas pessoais com a certeza de que elas são as melhores para todos e, ainda, que são capazes de resolver questões sociais um tanto amplas e complexas.

O minimalismo é apresentado, no documentário, como um caminho fácil, algo que está na mão, pronto para ser adotado por qualquer cidadão comum, mas, na realidade, é para poucos, pois ele perpetua e reforça um circulo de privilégios e, ao mesmo tempo em que prega uma vida mais simples, fecha-se no circuito de um mercado com produtos e serviços que prometem uma vida descomplicada e que, exatamente por isso, tendem a apresentar valores exorbitantes.

O minimalismo na moda, por exemplo, prega por um guarda-roupa enxuto, mas com peças de boa qualidade. Sua lógica defende, por exemplo, a compra de um sapato artesanal, feito à mão, que dure longo período e que, por tais características, apresenta um valor de aproximadamente R$900,00. O mesmo vale para as residências minimalistas, como apartamentos de 14m2 na Av. Faria Lima, em São Paulo. O valor destes imóveis ultrapassa a casa do milhão e o condomínio também atinge um valor alto e pouco acessível.

Assim, o minimalismo como oposição ao consumismo soa como uma proposta um tanto intrigante. No documentário, ele é apresentado como uma receita pronta para a felicidade e, como na típica literatura de autoajuda, caracteriza-se por um discurso prescritivo, que tem como principal objetivo propor regras de conduta e fornecer conselhos – como afirma Rudiger. Mas, é preciso questionar estes estilos de vida ‘enlatados’ que chegam a nós, cotidianamente, por meio das produções e dos discursos midiáticos.

Acredito que precisamos, sim, consumir de maneira consciente, repensar acúmulos e excessos, compreender o valor e os significados imbricados naquilo que consumimos ou naquilo que deixamos de consumir. Porém, abrir um novo circuito de consumo e oferecê-lo como uma opção contrária ao consumismo, me parece uma saída um tanto contraditória para resolver as angústias e patologias das sociedades capitalistas.

Para termos uma organização social prioritariamente minimalista, contrária à sociedade de hábitos consumistas que vemos atualmente (como propõe o documentário), precisamos fortalecer os pilares que sustentam nossas sociedades.

Ser minimalista, a meu ver, passa pela criticidade de cada sujeito ao refletir sobre o seu papel na sociedade; passa pelo nível de entendimento que se tem desta mesma sociedade. E, para que tal reflexão seja possível, é preciso garantir oportunidades educacionais de qualidade a todos, sem distinção.

O minimalismo só fará sentido quando for um discurso capaz de tocar a todos, caso contrário, será apenas uma ideia restrita a um grupo privilegiado, que por experimentar o excesso, optou por descarta-lo, mas possui o conforto de voltar a ele, sempre que sentir necessidade. Isso não transforma estruturas, apenas mantém privilégios.

 

Textos consultados

BUTLER, Judith. Relatar a si mesmo: crítica da violência ética. Tradução Rogério Bettoni. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

ROSE, Nikolas. Como se deve fazer a história do eu? Revista Educação e Realidade. Nº 26 (1). P. 33-57. jan/jul 2001.

RUDIGER, Francisco. Literatura de auto-ajuda e individualismo. Porto Alegre: Editora da Ufrgs, 1996.

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Um pensamento sobre “Minimalismo x consumismo

  1. Existe mesmo um paradoxo da simplicidade, onde ela vem sendo usada para causar efeitos de exclusividade e luxo, inclusive comentei sobre isso no primeiro post do meu blog! Porém, estou vendo surgir também produtos locais mais acessíveis influenciados pelo minimalimo.

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