A responsabilidade com o mundo

‘A moral dominante desumaniza a natureza e desnaturaliza o homem”

Cristiane Yuka

Ontem tive o privilégio de assistir uma aula inesquecível. Uma aula daquelas que mexem com a gente e fazem a diferença. O tema era ‘Ética e Sustentabilidade’ e, confesso, não consegui segurar as lágrimas. A professora propôs reflexões que já fazem parte da minha vida, mas pensar junto é sempre gratificante, ainda mais quando a oradora é sensível e consegue passar verdade e emoção em suas palavras.

“Ética” e “sustentabilidade”, palavras que escutamos com frequência. Mas, sabemos o real significado de ser “ético” e “sustentável”? Agimos de acordo com esses dois ideais?

É difícil ser integralmente ético: quem nunca colou na escola ou furou o sinal vermelho numa madrugada qualquer? Sim, essas são atitudes que vão contra uma postura considerada ética. E, se falamos em ‘ética’, falamos em integridade e responsabilidade. Responsabilidade com você, com o mundo, com o próximo. Falamos de valores.

Colar parece muito natural; quem nunca? Mas, trata-se de uma mentira que você conta a si próprio e, assim, coloca em questionamento a sua integridade.  O mesmo raciocínio vale para queles que furam o sinal vermelho, ao fazê-lo, você coloca em risco a sua vida e a vida do próximo. São atitudes que parecem pequenas, mas que já possibilitam uma primeira discussão sobre ética e também sobre sustentabilidade, uma vez que a ideia central desta última é a preservação da vida. Temos que agir de modo a preservar e cuidar da nossa morada, mas, dentro da nossa arrogância, acabamos desnaturalizados, separados da nossa essência e raiz, que é a natureza e, desta forma, perdemos a consciência de que devemos cuidá-la e amá-la.

Sustentabilidade e Ética

A ética baseia-se em valores e difere-se da moral no sentido em que está última está calcada em normas. Ambas são necessárias para uma vida em sociedade, mas a ética destaca-se, já que é genuína à pessoa, que, se for íntegra, não precisará de normas para guiá-la; agirá de acordo com seus valores, que devem ser baseados no olhar ao próximo e ao mundo, sempre de forma a beneficiá-los. Ou seja, valores que priorizem a sustentabilidade da vida.

Ética é uma construção, aprende-se dentro da comunidade em que se está inserido, aprende-se dentro de casa, na escola, na mídia. Aprende-se a partir das relações estabelecidas e, neste momento, podemos pensar no tamanho comprometimento que existe quando decidimos colocar uma pessoa no mundo.

Os adultos, a partir do momento em que decidem ter um filho, devem estar cientes de que estabelecem uma enorme responsabilidade com o mundo, visto que devem educar esse filho para servir a comunidade da qual fazem parte, de modo a desenvolvê-la de forma justa e sustentável. Esse é o maior sucesso que os pais podem alcançar: tornar seus filhos pessoas éticas e responsáveis. Mas, para que isso seja possível, existe um trabalho delicado (e árduo).

A construção de valores é diária, e vem de exemplos, de experiências, de conversas, de interações. Pais que não são responsáveis ou éticos, dificilmente conseguirão criar filhos com sentido de comunidade e compreensão holística sobre o mundo e a importância de sua preservação.

A construção de valores está nos detalhes. E já que estamos próximos do dia das crianças, usarei a data como exemplo.

Sábado, shoppings lotados. Pais levam seus filhos para escolher o brinquedo ‘mais bacana’. Soltam as crianças dentro daquelas lojas megalomaníacas, repletas de cores, sons e cheiros que induzem única e exclusivamente ao consumo. O filho escolhe o que quer, os pais compram. Chegando em casa, a criança, animada com o presente, brinca uma, duas, três, cinco vezes. Depois coloca a geringonça de canto e já pede o próximo e, assim, constrói-se um comportamento de consumo desenfreado. Qual valor foi criado neste contexto? O valor do consumo e todas as suas implicações, por exemplo: ansiedade, desejo e insatisfação.

Bom, mas não podemos negar a data, certo? Ela existe, foi imposta pela lógica de mercado e reforçada pela mídia. Contudo,  há outras formas de vivenciar o dia das crianças. Ao invés de dar um brinquedo, construa uma experiência. Faça um brinquedo junto com seu filho, pinte um quadro, leve ele a um parque ou museu, crie uma experiência compartilhada que, além de estreitar os laços entre pais e filhos, ficará marcada na vida da criança e poderá modificá-la, de modo a construir valores que levarão a uma postura ética e sustentável.

Uma experiência, como pintar um quadro ou construir um brinquedo em conjunto, criará o senso de comunidade, de compartilhamento, valorização da arte e de pequenos prazeres da vida, que podem ser simples, porém grandiosos. Um passeio no parque, por exemplo, pode contribuir para que a criança desenvolva o seu entendimento sobre a natureza e se aproxime dela. Enfim, são escolhas. E essas escolhas, feita pelos pais, terão grande influencia nas escolhas e na postura que os filhos tomarão na vida adulta.

Por isso, ao colocar um ser humano no mundo, pense cuidadosamente em suas escolhas e exemplos, pois eles irão influenciar a construção de valores (a construção ética) de seus filhos e, dependendo dessa construção, o mundo será beneficiado ou prejudicado.

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