Dilemas da Publicidade Infantil

Discussões acerca da relação entre consumismo e infância estão ganhando cada vez mais espaço no meio acadêmico, midiático e até mesmo legislativo. Organizações como o Instituto Alana, por exemplo, travam lutas diárias a fim de regular o conteúdo publicitário dirigido às crianças e adolescentes e buscam conscientizar educadores, pais e instituições políticas sobre a importância do tema.

E, de fato, trata-se de um tema digno de ser debatido, principalmente por ser extremamente atual e estar presente no dia a dia de todos nós.

As empresas, naturalmente, querem vender e, por meio da propaganda, divulgam suas ideias, produtos e mensagens que têm como grande objetivo levar o espectador à compra. Cabe a este espectador ( e potencial comprador) processar o recado e entender se aquilo lhe cabe ou não, ou seja, se deseja (ou se precisa) realizar a compra e quais serão os prós e os contras de sua ação. Mais do que isso, cabe ao espectador fazer uma leitura crítica do conteúdo que lhe é oferecido via publicidade, só assim ele poderá assumir posição de consumidor consciente e ativo, que não se deixa envolver facilmente pelas estratégias de sedução típicas às mensagens publicitárias.

As crianças, porém, fazem parte de um grupo que ainda está desenvolvendo criticidade. Ainda estão conhecendo o mundo e construindo suas habilidades cognitivas, que são baseadas, majoritariamente, em estímulos externos; todos os recados e exemplos que chegam às crianças serão importantes para a sua formação como ser humano.

A propaganda, por ser tão presente no dia a dia de todos, acaba entrando como uma referência aos pequenos, que por não compreenderem claramente a intenção de venda e as diferentes perspectivas entre vendedor e comprador, tornam-se um bom alvo para as empresas. Os estímulos visuais e sonoros são extremamente envolventes (inclusive em propagandas televisivas) e captam o público infantil de forma mais fácil.

As cores, jingles, personagens e histórias contadas são técnicas eficazes. As propagandas mostram que determinados produtos são sinônimo de felicidade, diversão, alegria e a criança, por não entender a dinâmica mercadológica, deseja somente uma coisa: o produto que vai fazê-la feliz.

Para as empresas o objetivo é claro – vender – e, no que diz respeito a atingir o público infantil, adota-se uma estratégia de marketing conhecida como “do berço ao túmulo”: captam consumidores ainda crianças, trabalham na construção de fidelidade à marca e, assim, garantem que estas crianças continuem consumidoras de seus produtos mesmo após atingir a idade adulta.

Além disso, o público infantil tem grande influência nas decisões de compra da família e, também por isso, chama a atenção das empresas. Os pais sentem-se tentados a comprar aquilo que o filho pede e, muitas vezes, a negação à compra pode gerar conflitos e comportamentos extremos na criança: hostilidade, choro, braveza ou até mesmo tristeza. Por isso é tão fundamental que os pais estejam sempre atentos à exposição dos filhos a certos estímulos que podem despertar atitudes como o consumismo e uma supervalorização material.

Fonte: Tribune Media Services, Boston Globe, Dan Waserman, 2000.

Tanto os pais como os educadores devem pensar sobre os benefícios e malefícios de deixar o filho/aluno na frente da TV, por exemplo. Muitos pais vêem na televisão uma ótima resolução para problemas como a falta de tempo para estar com as crianças. Nesse caso, porém, quem passa a educar é, muito mais, o conteúdo midiático do que as conversas em família e, assim, os jovens constroem valores, comportamentos e percepções que, muitas vezes, divergem da visão de seus pais.

Por isso é necessário estar perto. É preciso incentivar, desde sempre, um olhar crítico na criança. Pais e professores devem mostrar que nem sempre a mensagem publicitária tem a razão; que nem sempre o brinquedo X ou o restaurante Y é o melhor e mais gostoso, que há outras referências e possibilidades para se divertir.

Assim, quando a criança virar um adolescente e, posteriormente, adulto, terá tido outros referenciais em sua infância, o que a ajudará no processamento cognitivo do mundo e, inclusive, da publicidade.

Que fique claro, porém, que não se trata de um manifesto contra a propaganda, mas sim de uma mensagem de alerta para que os pais e educadores pensem na importância de educar as crianças e jovens para uma leitura crítica e consciente do mundo. Estamos inseridos em uma sociedade em que mensagens publicitárias e midiáticas colocam-se como grandes protagonistas de nossas vidas e, por isso, é importante conhecê-las para poder contestá-las.

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2 pensamentos sobre “Dilemas da Publicidade Infantil

  1. Pingback: ABAP abre espaço para debate sobre publicidade infantil «

  2. Gosto de pensar nessa relação entre propaganda e consciência, muitas vezes acusam os pais de não educarem os filhos, não percebendo que o alcance da propaganda vai muito além do âmbito familiar. São uma série signos símbolos, cores, músicas e todo tipo de apelo criando a necessidade de consumo. Se para o adulto já é prejudicial, imagine para as crianças.

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