Entrevista com professor Marcelo

O bate-papo ocorreu no dia 06/04/2010. Marcelo é professor de biologia e  dá aulas para alunos do Ensino Médio, na Escola Nossa Senhora do Morumbi. Conversei com ele sobre o possível papel pedagógico da propaganda! A conversa foi boa! Confira!

 

Carolina: Olá Professor! Para iniciar nosso bate papo eu gostaria de entender como (e se) o contato excessivo do jovem com a mídia interfere no aprendizado no aluno em sala de aula?

Marcelo: Ela aparece de formas múltiplas, alguns pontos positivos e outros negativos. Múltipla no sentido de que hoje você não pode descartar a idéia de que a mídia esta lá e ela é um concorrendo seu, isso é fundamental, você ta concorrendo com todos os tipos de mídia, internet, televisão, filmes, comercias, então, primeiro ponto, você tem quer mais atraente do que isso, o que é impossível, mas você tem que se aproximar demais disso. Então, sabendo disso, você tem que se aprimorar sempre, antigamente as suas aulas poderiam ser as mais convencionais do mundo, hoje em dia não podem ser.

O aspecto negativo, se por um lado é bom se bombardear de informações e estratégias novas, ao mesmo tempo você não tem sossego, você esta o tempo inteiro correndo atrás de um prejuízo, e o positivo é que eles são mais bem informados, eu não falei que são mais formados, eles são bombardeados de informações constantemente…

O problema é que eles não tem uma reflexão sobre o processo, esse é outro ponto negativo, esse bombardeamento da mídia são baús cheios de informações, agora, se eles sabem trabalhar com isso é outra historia, e ai entra o nosso papel, tem que fazer um filtro e reflexão. Antigamente demoraria mais para o aluno ser mais informado, no entanto tinha mais tempo para reflexão, hoje você não tem muito tempo pra isso, o tempo todo você está correndo atrás do processo, é como e estivesse sempre no prejuízo, contra a concorrência ou pela carga de informação, cria-se um perigo terrível, se o professor não for um cara antenado, ele perde pro aluno rapidamente em termos de informação, a madrugada que ele ficou a mais na internet você já não sabe a informação que ele tem, agora se ele sabe analisar é outra história.

Carolina: E essas informações que eles têm, que são tantas, contribuem durante a aula?

Marcelo: Contribuem, mas o fato de estar carregado de informação não torna esse aluno mais bem preparado de uma forma geral para trabalhar com cultura. Eles lêem tudo, recebem um pouco de tudo, mas não se aprofundam. Para idéias, de uma forma geral, até que sim, vamos falar de tal assunto… Nesse sentido a aula se torna um pouco mais rico, mas se você não souber conduzir isso fica uma aula de generalidades, e você acabando não usando para nada. Eis aí uma grande diferença daquilo, que, um bom professor ou uma boa linha pedagógica da escola onde você sabe realmente filtrar aquilo que chega desse aluno.

É que existem mídias hoje em dia que continuam sérias, mas que continuam com muita resistência para eles que é o jornal, eles praticamente não lêem jornal, que é onde você consegue ter uma análise mais aprofundada, no entanto eles sabem ler mil blogs, revistas dessas mais triviais do dia a dia, recebem informações desses filmes que se dizem documentários científicos, mas acabam não sendo, então a idéia principal é “contribui de uma forma geral?” Sim, mas se você não souber conduzir isso não vai levar a nada. Como existem muitas mídias eles usam as diferentes mídias conforme cada um tem melhor e maior acesso, agora; ainda cito, que a mídia menos utilizada e que deveria ser mais utilizada é o jornal.

O rádio também é uma coisa que vem caindo em desuso, muito pouco usada, o vinculo maior é com musica, praticamente não ouvem radio. Eles lêem blogs, alguns lêem ate alguma coisa de jornal eletrônico, não lêem jornal escrito de uma forma geral, são poucos que lêem, acompanham revistas semanais, mas muito superficialmente ( e isso que eu to falando não é só desse colégio, mas dos outros também) então o rádio e jornal escrito muito pouco usados, revistas semanais, porque são mais levem, os blogs eles obviamente utilizam, as pesquisas de internet de uma forma geral e ai é um grande problema, por que tem mil coisas boas e 10 milhões de porcarias. É impressionante como as mídias padrões continuam sendo ferramentas terríveis de influencia para os alunos, Fantástico, a novela das 20h, elas nos remetem a termos que corrigir erros quase cotidianos, é uma contribuição por um lado negativo, eles vem com um tema muito superficial, é o que uma novela cita, é o que um jornal nacional faz, eles jogam a informação, não se aprofunda…

O Fantástico faz uma edição de 20% das noticias então eles vem com as informações, se não erradas, com informações incompletas e trazem para a gente para tentar elucidar. Esses mecanismos influenciam de uma forma quase que cotidiana, mas normalmente influencia de uma forma errada, não vem com a noticia bem feia. O excesso de informação acaba deixando eles perdidos, eles resolvem pegar tudo ao mesmo tempo, eles não tem paciência, eles não foram treinados, como a maioria das pessoas um pouco mais velhas, onde não existia internet, por exemplo, onde as mídias eram bastante limitas, até a ida ao cinema era mais limitada, você lia mais, você lia, jornais, revistas de forma mais aprofundada, eram os mecanismos que você tinha e faziam com que você gastasse mais tempo nesse processo.

A diferença nesses últimos 20/25 anos é brutal em termos de diferença em como você recebe informação. Quando eu era criança a programação da televisão acabava 23h, hoje é full time, você ta cansado da TV você vai pra internet e assim por diante. Fora as outras mídias modernas que com certeza eles sabem muito mais do que a gente, eles atropelam a gente o tempo inteiro, nesse sentido.

Carolina: E agora focando na publicidade, você acredita que ela pode ser utilizada em sala de aula?

Marcelo: Ela pode ser usada sim, mas com muito critério. Por que a publicidade não tem vinculo formal com a formação, com a cultural, é um mecanismo de divulgação e venda, então qual o melhor artifício que ela tem na mão? Ela vai usar aquilo que é conveniente a ela. Tanto é que tem propagandas que você acha artística e outras que têm um caráter quase ofensivo. Ela pode ser utilizada por vários aspectos, como uma peça de analise, não acredito que seja para contribuir no sentido de informação e formação, ela leva para um processo de analise, uma peça que deve ser analisada por vários enfoques. São raríssimos formas de publicidade, seja pelo radio, tv, que trazem informação.

Carolina: E você já utilizou em sala de aula?

Marcelo: Já, particularmente na minha aula, propagandas relacionadas a meio ambiente, SOS Mata Atlântica, só para te dar algum exemplo, propagandas que permeiam situações que mostram racismo, para discutir genética, se racismo é genético ou social, então existem alguns aspectos que você pode trabalham. Mas fora isso eu não vejo a publicidade como um mecanismo de informação e formação, ela é uma peça a mais daquele mundo de bombardeamento de informação que pode ser utilizada como um objeto de analise, ela não vem para educar, ela é um mecanismo do capitalismo, e isso não é uma critica, é um processo de venda, de uma forma geral. Tudo bem, tirado alguns aspectos quem sabe, campanhas institucionais, por exemplo, ai é um caso um pouco diferente, mas de qualquer forma esta vendendo um nome, uma marca.

Carolina: E campanhas governamentais?

Marcelo: Nesse sentido sim, mas são extremamente restritas. Mas aí a gente pode encarar que não é nem tanto o mecanismo de publicidade, mas a publicidade está muito mais na intenção que se tem de ordem política do que torna o processo educacional. Um folder, por exemplo, ele é uma peça de publicidade, mas quando você vai analisar o conteúdo, se for uma campanha da dengue, por exemplo, o objeto em si é informacional, não seria um mecanismo da publicidade.

Carolina: E pensando na publicidade além do objetivo de venda, você enxerga ela como produção cultural?

Marcelo: A publicidade está vinculada a um mundo cultural, quanto mais cultura tem o publicitário, melhor a qualidade do objeto. Agora, ela não é, no papel fundamental, para ampliar a cultura daquele que é o receptor. Quem recebe a publicidade não necessariamente vai se enriquecer com isso, a não ser que seja campanhas institucionais, de ordem educacional, mas a publicidade de forma geral não tem esse papel, até porque não é a finalidade dela, ela tem um objetivo claro, não sei como a publicidade vai ampliar esse processo cultural.

Ela pode fazer referencias de outras produções, fazer menções À literatura, por exemplo, mas ela não está produção nova literatura, nova escrita, novas artes, propriamente dita… Ela por si só não pode ser encarada como uma produção. Quer dizer, se nós formos entender cultura por qualquer expressão produzida por um ser humano, que seja vinculada a comunicação e a ampliação de conhecimento, mas ela não é nova no sentido de produzir culturas novas, ela faz referencia a outras culturas… Ela não é uma inovadora cultural, ela participa do mecanismo cultural. Ela pertence ao mundo cultural, mas não é produtora de uma ferramenta cultura propriamente dita.

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