Entrevista com Davi, professor de Português

A entrevista a seguir foi realizada em 29 de março de 2010 por @CarolPrestes. O entrevistado é o professor Davi, que dá aulas de Português para 1°s e 3°s anos do Ensino Médio no Gracinha.

Carolina: Olá professor, boa tarde! Para começar gostaria de entender como o contato excessivo do aluno com discursos midiáticos, televisão, cinema, publicidade, interfere, ou não, no aprendizado em sala de aula?

Davi: É difícil a gente precisar, por que eu não sei exatamente, a gente tem só suposições. Muitas vezes aparece na produção do texto, principalmente dos mais novos, frases prontas, clichês, bordões, e a gente sabe que isso é a exposição a um discurso midiático. Eu particularmente não acho que isso seja um problema, muitas vezes o problema é ele não ter contraponto, é só a linguagem da TV, ou a linguagem de portais de relacionamento da internet. Especificamente eu não vejo problema nem em uma coisa nem em outra, mas a falta de contraponto é um problema.

Carolina: Eles não discutem aquilo que colocam no papel…

Davi: Não há discussão e também não há outras referências, então o bordão publicitário às vezes passa a valer como uma expressão legitima para tudo, por que é assim que ele aprende. Agora, eu não sei dizer se isso é assim mesmo ou é só uma suposição nossa, de professor, que não acompanha tanto assim a publicidade, então a gente imagina que seja isso… Aparece muito.

Carolina: E sob o ponto de vista da linguagem midiática, que é mais imediata, isso interfere na concentração em sala de aula, por exemplo?

Davi: Na sua pergunta você já embutiu uma idéia que seria um prejuízo para eles, mas às vezes, depende da situação, pode ser um beneficio. A linguagem imediata, rápida, ágil, sintética, a publicidade lida muito com um discurso sintético, precisa, pelo tempo que tem lá. E isso pode ser um grande beneficio. Eu acho que houve um tempo que didaticamente isso já foi mais explorado, hoje menos, não sei se por uma nova postura da publicidade ou então esses discursos um pouco mais moralistas sobre os prejuízos que a mídia pode causar para a juventude, não sei se é isso ou não é isso, mas eu lembro de um tempo em que o discurso publicitário ele era muito mais aproveitado, não só o publicitário, o discurso da mídia, para o trabalho de síntese, então o que aparentemente é pobreza ele pode ser também riqueza de estratégia para o aluno. Ainda acho que, pode ser um erro meu, só uma suposição, mas o que a gente assiste é um empobrecimento do vocabulário, é difícil julgar também pelo empobrecimento de estratégia, acho que não.

Carolina: Mas o empobrecimento do vocabulário, não seria estranho, já que, teoricamente, eles estão lendo todo esse conteúdo…

Davi: Mas os veículos são veículos que, no que diz respeito ao vocabulário, se repetem muito. Há estruturas que são fixas, mesmo no texto jornalístico. Hoje mesmo em aula eu expus alguns artigos de jornal e a gente começa a reconhecer estruturas muito iguais em assuntos diferentes, do esporte a política… Deve ser a loucura do trabalho do sujeito que precisa entregar a matéria em algumas horas sempre, então ele precisa desse apoio, e não prejudica muito o texto que quer só transmitir uma noticia ou informar o lançamento de alguma coisa, mas acaba reduzindo o espectro semântico do aluno, que esta em fase de desenvolvimento.

O Profissional já sabe que naquele momento ele precisa usar situações mais urgentes, tem que fazer um apelo ao clichê, ao bordão, a frase feita, ele precisa se livrar da situação, precisa transmitir a mensagem, é o mais importante. No momento de aprendizado, de contato com a língua isso pode ser ruim, pode ser um prejuízo, mas insisto, hein, não é em si que é o prejuízo, é quando não tem contraponto, é quando o cara é só televisão, só videogame ou só internet, ai fica difícil mesmo, mas quando ele tem contraponto com outras situações de leitura um pouco mais sofisticadas e com um pouco mais de tempo também, ai eu não vejo nenhum mal nesse contato excessivo, desde que ele consiga reconhecer “ah, isso aqui é um a linguagem mais imediata”

Carolina: E para discussão em aula eles trazem esse conteúdo?

Davi: Muito, muito! A gente vê que se criou um padrão, por exemplo, aquele tipo de programa de auditório com criança, com estudante, quando a gente cria uma situação parecida, perguntando coisas rápidas, eles imediatamente dão respostas repletas de clichês.

Carolina: E eles chegam a fazer referências do tipo “li no jornal”?

Davi: Isso aparece muito raramente. Mas muitas vezes o ambiente de escola propicia isso também, então entra o professor de geografia com artigo de jornal, o professor de filosofia com artigo de revista, o professor de história também. Então eles usam…

Carolina: E propaganda?

Davi: Não, é menos. Acho que isso estava muito a cargo do professor de português e que aos poucos foi saindo de cena, foi deixado de lado. No fundamental tem mais, a gente nota que se aproveita muito mais esse discurso para aprendizado.

Carolina: E por que você acha que no ensino médio isso se perde?

Davi: Eu acho que é falta de espaço mesmo, para encaixar conteúdo programático, ou um pouco de preconceito, como eu falei há um tempo atrás, com relação a esses discursos que hoje é comum a publicidade, limita um pouco, empobrece um pouco o pensamento da juventude, sei lá. A gente vê muito isso, quando vai se falar, por exemplo, sobre o machismo e o movimento feminista, a primeira coisa que se apresenta para exemplificar estereótipos é propaganda de cerveja, ai aparece, subliminarmente, o discurso publicitário é um discurso machista, redutor dos debates, o interesse do publicitário é vender o produto.

Carolina: Mas, se ele é redutor, não é interessante desmembrar esse discurso?

Davi: Ele vem à tona, mas para ser destruído, é isso que acaba acontecendo. Acontece muito.

Carolina: Invariavelmente?

Davi: Invariavelmente quando ele vem a tona num debate. Agora, de vez em quando aparece sim, mas é raro, hoje em dia é raro, um exemplo de aluno, quando se coloca em questão, por exemplo, o jogo de hipocrisias, jogo de verdades e mentiras, eu recentemente, esse ano, dando aula a partir de um trecho de Machado de Assis, falando do jogo de mascaras, de como o discurso pode construir verdades a partir de mentiras, alguém lembrou de uma propaganda da Folha, se não me engano, que falava exatamente isso. Depois eles não entraram no mérito da questão, mas o jornal, quando encomendou essa propaganda queria dizer o que exatamente? Nós não fomos até ai, mas o discurso publicitário veio à tona nesse momento.

Acontece muito raramente, e como acontece muito raramente, qual é a conclusão, é que muito raramente o discurso publicitário quer ser critico normalmente ele quer evitar isso, por que a intenção maior, assim como o do jornalista é transmitir noticias a do jornalista é vender produtos… O lance das idéias, por exemplo, passa ao largo… “Publicitário não pensa”, uma coisa assim, mas ele é genial, por que ele cria coisas geniais, mas quando você vai esmiuçar o que são essas coisas?

Carolina: E quando a propaganda vende uma idéia? Ou por exemplo, propagandas políticas, que o conteúdo dela não é vender produto…

Davi: Mas é conversar com o espectador? Essas coisas são muito particulares, né? É uma compra direta e muito explicitada, é o candidato que contrata, e isso é a propaganda política e ela ganha um olhar preconceituoso já, em minha opinião, “ah, isso ai é propaganda política”, sabe? Como quem fala “ah, isso ai é encomenda”. Na propaganda política ele fala o que ele quer.

Carolina: E propagandas contra AIDS, por exemplo? Governamentais.

Davi: Campanhas de sensibilização, e de ONGs também, né? Isso ai sempre atrai mais o interesse do jovem, ele se apóia nisso, Isso de vez em quando aparece em redação, inclusive, mas é de vez em quando. A gente nota isso, não sei se são os tempos, não sei se inclusive essa juventude não esta muito em contato com a seqüência da televisão, não é como a televisão de um tempo em que a gente parava no sofá e assistia a programação com todas as propagandas que a programação incluía, eu tenho a impressão, posso estar bem errado, que não é assim mais que se assiste televisão, então, há um cancelamento dessa coisa, acabou o jornal ou o capítulo da novela, ou a sequência, vou zapear. Isso é tudo uma suposição minha, por que eu não sou muito de assistir televisão no dia a dia, mas eu fico imaginando essas coisas, e esse tipo de situação que se concentra muitas vezes em emissoras como, emissoras publicas, ou de canais pagos como National Geographic e Discovery, eu acho que não esta no prato do dia, não esta no cardápio da meninada, então é mais raro, e por isso que não vem com freqüência, aparece, mas é raro.

Carolina: Então eles acabam não tomando como referencia o discurso publicitário?

Davi: Não, o discurso publicitário, a referencia ainda é, acho que o melhor, é a síntese, muitas vezes a gente evoca com tranqüilidade isso, “como é que faz o publicitário numa situação dessas?” Ele tem alguns segundos, ou o espaço de duas linhas para transmitir tal coisa… Na hora a menina responde, sintetiza!

Carolina: E se você tivesse que propor uma atividade que envolvesse a produção publicitária, qual seria a abordagem?

Davi: Ah, desse jeito mesmo! Exigiria a linguagem de síntese. Por isso que eu acho, se você conversar com os professores do fundamental você vai conseguir mais riqueza na entrevista porque eles têm trabalhos, eles têm resultados.

Carolina: Discutir conteúdo, por exemplo?

Davi: Isso! Eles fazem mais isso, no nosso não aparece assim. Mas sabe que tem uma coisa interessantíssima, agora você me fez lembrar. A gente lida com a literatura, e é uma máxima social que a literatura oferece um texto complexo, rico, importante para a humanidade. Eu estava lendo Dostoievski com eles e aparece uma propaganda de um dentista no meio do texto, que o narrador tinha visto e ele esta com dor de dente, e ele fica pensando no cartaz publicitário e a partir do cartaz, das poucas informações ele começa a viajar na vida do dentista, ele põe isso na cabeça para equilibrar aquilo que ele sente. A atenção dele foi despertada pela dor de dente, então é claro que ele deu visibilidade para o discurso publicitário no meio do jornal, para ele o anúncio, classificado do dentista, é interessante.

Carolina: E a partir disso teve alguma discussão ou passou batido?

Davi: Ai eu paro para chamar a atenção deles, isso aqui é publicidade de época, quando que a gente da bola pra publicidade? Quando ela interessante para o seu desejo, na hora a personagem tem necessidade, ela acaba vendo isso. Se ele não estivesse com dor de dente ele nunca iria olhar para aquele “cartaizinho” no meio dos classificados, mas você tem duvidas? Se aconteceu uma morte, você vai para a pagina dos obituários, aquilo também é um texto publicitário, de certa forma por que é de encomenda, de anuncio, bem diferente, bem particular, mas é. Quer dizer, eu não estaria minimamente preocupado com isso se não tivesse necessidade nenhuma, se nada me despertasse para isso, e esse é o jogo. O debate é: o publicitário cria necessidades ou ele se vale das necessidades que existem? Isso que é a coisa que gera uma rejeição ao discurso publicitário normalmente…

O publicitário se aproveita de uma situação de mercado e desenvolve desejos, que não tem nada a ver com necessidades. Por exemplo, há uma necessidade do homem de hoje ser mais solidário, porque é o discurso… Ser solidário é importante, ter saúde é importante, ser ecológico é importante, publicitário se aproveita disso muitas vezes, campanhas de solidariedade trabalham com esse apelo. O apelo verde, por exemplo, a gente vê os publicitários trabalhando com uma coisa completamente barroca na minha maneira de ver, que é vender automóvel com símbolo de “save de planet”. Como é possível fazer isso se é um automóvel? Automóvel vai destruir o planeta pela lógica.

Esse aliciamento do público consumidor, acho que isso é perverso na publicidade e acaba afastando o discurso publicitário do ambiente acadêmico. Enquanto a gente trabalha com as técnicas isso é muito eficiente, porque acho que não tem gente mais eficiente que publicitário para fazer síntese, para descolar vocabulário, mas ao mesmo tempo o conteúdo e o objetivo daquilo acabam destruindo um pouco a imagem, e ai eu acho que é por isso que a gente deixa um pouco de lado. Mas também tem esses fenômenos, como esse exemplo do Dostoievski, a visibilidade veio a partir da necessidade, mas é autentico demais aquilo, é muito legitimo, não foi o cartaz que fez ele ter dor de dente, foi o contrario, a dor de dente fez ele enxergar o cartaz ali no meio.

Carolina: Mas mesmo com esse distanciamento do mundo acadêmico pelo seu apelo mercadológico, ainda dá para conversar?

Davi: Claro que sim! Mas é obvio… Eu tive um professor que trabalhava com história em quadrinhos, ele dizia “esse estudo é um estudo repleto de preconceitos, porque as pessoas acham que isso é baixa literatura, é arte de puro comércio, de banca, de puro entretenimento, mas até por isso é muito importante que a gente tome posse desse estudo, até para entender o fenômeno”. Acho que isso é o máximo! O preconceito é que destrói muito as coisas, não pode ser preconceituoso, por um motivo ou por outro, por mal ou por bem, é preciso estudar…

Carolina: E a posição do professor é muitas vezes preconceituosa, ele se nega a trazer para a sala de aula…

Davi: É, pode ser… Às vezes sim. Mas o professor trabalha muito com o índice de sedução, e isso que não acontece muito mais hoje, o discurso publicitário não seduz tanto, já houve um tempo que sim, você trazia uma coisa assim para a sala de aula, todo mundo se ligava, agora não, foi perdendo esse espaço de sedução.

Carolina: Você chegou a usar bastante?

Davi: Ah, sim, em outros tempos sim. Era mais fácil, a gente conseguia ensinar mais. Eu dava muitos exemplos, “olha que nem naquela propaganda, acontece isso, isso e isso”, hoje a propaganda não tem mais essa busca, são muito mais imediatistas, esta mais fácil hoje, para dar exemplos assim rápidos, do dia a dia comercial, de desenhos da Disney, é mais fácil hoje do que exatamente a publicidade. E também tem uma outra coisa, a propaganda de jornal, revista e TV ficava mais tempo no ar, hoje ela se renova muito rapidamente, não fixa. Então você vai dar um exemplo o moleque, se ele chegou o ano passado, dançou, já nem sabe do que eu to falando!

Antes não, as propagandas ficavam, o bordão do Bombril, por exemplo, aquilo ajudava a gente a beça na sala de aula! Hoje em dia não tem como, tem outra idéia, as pessoas são outras, o consumidor pensa diferente, esse tipo de situação já ta superada, e ai dançou um pouco pra gente, mas ai continua o discurso da síntese e eficiente discurso de síntese, trabalho com ambigüidade. Quando havia outdoor em SP, bom, no resto do Brasil ainda tem, o texto publicitário de outdoor trabalhava muito a ambigüidade, porque não só é o tempo imediato como é o tempo do cara que vai passar de carro ali, então a ambigüidade era importante, isso era bem bacana trazer para a sala de aula sempre. Aqui já era, mas pode ser que esteja vivo por aí, para trabalhar ambigüidade, discursos duplos, intencionais falsas mensagens, o discurso de outdoor era o ideal, era um setor que pensa muito essa questão, da montagem dos períodos.

Carolina: Para finalizar, você vê a propaganda como uma produção cultural?

Davi: Eu vejo tudo como produção cultural, minha posição é essa, tudo é cultura. Se você me perguntar se a propaganda é artística, se ela tem inclinação à arte, ao olhar critico ai eu vou dizer que não. Se é cultural? Vou dizer sempre que sim, claro que é, é cultural tanto é que acompanha e se modifica com o tempo, isso pra mim é cultural, e ela tem que ser, se não dança na hora. Há lugares em que não existe publicidade, por que a cultura local rejeita, por que a cultura local não tem consumo, então não tem publicidade, então é cultural, nós temos consumo e a propaganda esta ali, para as vezes, simplesmente informar, noticiar uma novidade, conversar, despertar nas pessoas certas coisas interessantes, provoca muitas vezes, a publicidade faz muito isso.

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