Minimalismo x consumismo

O documentário Minimalismo: um documentário sobre as coisas importantes foi lançado em 2016, nos Estados Unidos, e oferece uma reflexão sobre os hábitos de consumo dos sujeitos pertencentes às economias capitalistas.

Para o britânico Nikolas Rose, que estuda narrativas de autoajuda, diferentes épocas produzem humanos com diferentes características psicológicas, com diferentes emoções, crenças e patologias. Sob esta lógica, o documentário coloca em pauta uma patologia de nosso tempo: o consumismo, caracterizado pelo excesso e pelo acúmulo, e propõe ao espectador um estilo de vida minimalista, que seria oposto a este consumo exacerbado que se revela, principalmente, nos grandes centros urbanos.

A construção narrativa do documentário, a fim de convencer o espectador sobre as vantagens do minimalismo, se estrutura sobre vozes de psicólogos, sociólogos, historiadores, empreendedores e, principalmente, daqueles que mudaram de conduta, abandonando o comportamento consumista e assumindo o minimalismo como um novo estilo de vida. Temos, portanto, uma construção narrativa baseada, prioritariamente, em relatos autobiográficos: histórias de superação são contadas, na busca por inspirar e auxiliar aqueles que ainda se encontram presos a um comportamento de consumo baseado na lógica das adições.

Tais características nos levam a pensar que o documentário tem como um de seus principais objetivos a regulação social e moral dos sujeitos, já que, para a estudiosa Judith Butler, o ato de relatar a si mesmo, entre outras funções, tem o objetivo de persuadir.

Aos que estudam as práticas de consumo sob olhar critico e atento, o conteúdo deste documentário é bastante provocativo e revelador de um sistema de privilégios naturalizado: aqueles que se propõe a mudar de vida, adotando o estilo minimalista, necessariamente experimentaram o excesso e, ao adotarem novos hábitos, seguem um roteiro de vida previsível: viram autores de livros motivacionais, palestrantes, personagens de documentários, e assumem a missão de levar a mensagem para o maior número de pessoas possível, na tentativa de mostrar qual a receita de uma vida feliz. O projeto pessoal, ou biográfico, portanto, torna-se referência para a adoção de novos padrões de vida. Assim, o “eu” passa a funcionar como um ideal regulatório, como afirma Nikolas Rose.

Palavras como “receita” ou “ajuda” são utilizadas com frequência por personagens que aparecem no documentário. Os americanos Josh e Ryan, amigos de longa data, bem sucedidos no trabalho e donos de salários bastante altos, são um ótimo exemplo de como o “eu” pode atuar como agente regulatório. Ambos decidem abrir mão de uma vida consumista e adotar o minimalismo como um novo padrão para se viver: juntos, lançaram um site (theminimalists.com), escreveram livros, rodaram os Estados Unidos para, nas palavras deles: “inspirar e ajudar outras pessoas” ou, ainda, para “espalhar uma receita para uma nova vida”.

Nas palestras que proferem, a narrativa autobiográfica é a linha central; eles contam ao público como a vida era superficial e vazia quando viviam para trabalhar e consumir e afirmam que, ao adotarem o minimalismo como nova conduta, encontraram a verdadeira felicidade e o sentido da vida.

A dupla se autodenomina “os minimalistas” e possui não apenas site ou livros publicados, mas também canais nas redes sociais e podcasts, em que busca divulgar sua mensagem e sua receita para uma nova vida. Podemos enxergar neste fenômeno um nítido alinhamento com o discurso da autoajuda, já que, segundo Francisco Rudiger, estudioso do tema:

“A literatura de autoajuda constitui uma das mediações através das quais as pessoas comuns procuram construir um eu de maneira reflexiva, gerenciar os recursos subjetivos e, desse modo, enfrentar os problemas colocados ao indivíduo pela modernidade” (RUDIGER, 1996, p.13)

Assim como as histórias de Josh e Ryan, outros depoimentos autobiográficos sustentam o argumento do documentário. Pessoas que abandonaram suas casas enormes, para viver em locais minúsculos e compactos, dão seus testemunhos. As pequenas casas, por sua vez, são projetos arquitetônicos altamente especializados. No filme, não se fala em valores, mas podemos imaginar que muitos dígitos definem o preço dessas casas, já que elas pertencem a um universo de consumo exclusivo. É para poucos. E isso que incomoda no documentário. Também incomoda a forma como os discursos são construídos, sobre uma lógica bastante egocêntrica, em que personagens falam de suas vidas e escolhas pessoais com a certeza de que elas são as melhores para todos e, ainda, que são capazes de resolver questões sociais um tanto amplas e complexas.

O minimalismo é apresentado, no documentário, como um caminho fácil, algo que está na mão, pronto para ser adotado por qualquer cidadão comum, mas, na realidade, é para poucos, pois ele perpetua e reforça um circulo de privilégios e, ao mesmo tempo em que prega uma vida mais simples, fecha-se no circuito de um mercado com produtos e serviços que prometem uma vida descomplicada e que, exatamente por isso, tendem a apresentar valores exorbitantes.

O minimalismo na moda, por exemplo, prega por um guarda-roupa enxuto, mas com peças de boa qualidade. Sua lógica defende, por exemplo, a compra de um sapato artesanal, feito à mão, que dure longo período e que, por tais características, apresenta um valor de aproximadamente R$900,00. O mesmo vale para as residências minimalistas, como apartamentos de 14m2 na Av. Faria Lima, em São Paulo. O valor destes imóveis ultrapassa a casa do milhão e o condomínio também atinge um valor alto e pouco acessível.

Assim, o minimalismo como oposição ao consumismo soa como uma proposta um tanto intrigante. No documentário, ele é apresentado como uma receita pronta para a felicidade e, como na típica literatura de autoajuda, caracteriza-se por um discurso prescritivo, que tem como principal objetivo propor regras de conduta e fornecer conselhos – como afirma Rudiger. Mas, é preciso questionar estes estilos de vida ‘enlatados’ que chegam a nós, cotidianamente, por meio das produções e dos discursos midiáticos.

Acredito que precisamos, sim, consumir de maneira consciente, repensar acúmulos e excessos, compreender o valor e os significados imbricados naquilo que consumimos ou naquilo que deixamos de consumir. Porém, abrir um novo circuito de consumo e oferecê-lo como uma opção contrária ao consumismo, me parece uma saída um tanto contraditória para resolver as angústias e patologias das sociedades capitalistas.

Para termos uma organização social prioritariamente minimalista, contrária à sociedade de hábitos consumistas que vemos atualmente (como propõe o documentário), precisamos fortalecer os pilares que sustentam nossas sociedades.

Ser minimalista, a meu ver, passa pela criticidade de cada sujeito ao refletir sobre o seu papel na sociedade; passa pelo nível de entendimento que se tem desta mesma sociedade. E, para que tal reflexão seja possível, é preciso garantir oportunidades educacionais de qualidade a todos, sem distinção.

O minimalismo só fará sentido quando for um discurso capaz de tocar a todos, caso contrário, será apenas uma ideia restrita a um grupo privilegiado, que por experimentar o excesso, optou por descarta-lo, mas possui o conforto de voltar a ele, sempre que sentir necessidade. Isso não transforma estruturas, apenas mantém privilégios.

 

Textos consultados

BUTLER, Judith. Relatar a si mesmo: crítica da violência ética. Tradução Rogério Bettoni. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

ROSE, Nikolas. Como se deve fazer a história do eu? Revista Educação e Realidade. Nº 26 (1). P. 33-57. jan/jul 2001.

RUDIGER, Francisco. Literatura de auto-ajuda e individualismo. Porto Alegre: Editora da Ufrgs, 1996.

A cultura do consumismo e suas implicações na infância

O crescente mercado de consumo voltado à infância traz à tona muitos questionamentos e preocupações àqueles que se se ocupam em garantir os direitos da criança e preservá-las de determinados abusos, tais como os abusos comerciais.

Um vasto leque de produtos e serviços é oferecido cotidianamente aos pais e seus filhos e, nesta dinâmica, torna-se urgente a reflexão sobre o lugar da criança: será que elas precisam ser inseridas no contexto do consumismo desde o berço?

A indústria de bens de consumo diz que sim e aos pais, pesquisadores e educadores, resta a árdua tarefa de questionar, criticar e, em última instância, desconstruir uma cultura que olha para a criança, desde muito cedo, como consumidora.

Em sociedades permeadas pela lógica do capital e sustentadas pelos argumentos da mídia, a experiência do brincar – momento potente, em que a criança investiga o mundo e constrói vínculos profundos consigo mesma e com os seus pares – inunda-se pelos valores da cultura do consumismo. Tais valores – como a supervalorização da posse material  – passam a ser referências expressivas para a construção da subjetividade e do imaginário dos participantes destas sociedades.

Aos atentos e preocupados com a infância, cabe refletir sobre como esta cultura afeta a construção do imaginário das crianças e quais implicações traz às experiências vividas por elas.

O brinquedo, artefato que ganha sentido profundo quando produzido pelas mãos das próprias crianças, viu-se apropriado por um mercado de consumo cada vez mais especializado, que passou a oferecer ao ‘público infantil’ uma ampla variedade de produtos alinhados às narrativas midiáticas, prioritariamente aos personagens dos filmes e desenhos dos grandes conglomerados de entretenimento, como as indústrias Disney.

Esta é uma realidade que está posta – a ideia hegemônica de infância é aquela construída pelas grandes marcas. Um pouco na linha do pensamento: “Toda criança precisa realizar o sonho de ir à Disney”.

Regras e condutas de comportamentos são ditadas diariamente pelos discursos midiáticos, por meio de mecanismos culturais, como filmes ou os próprios brinquedos. Assim, cabe aos adultos e cuidadores eleger com lucidez o que será apresentado às crianças, pois elas tomarão o oferecido como importante referência na construção de sua identidade e de seus valores sobre o mundo.

Se nos propusermos a entender a essência da infância compreenderemos que crianças não precisam dos excessos da indústria (talvez nem os adultos, certo?). O que elas necessitam com urgência é de liberdade, que é condição contrária à cultura do consumismo.

Essa liberdade que defendo pode ser encontrada, por exemplo, na vastidão da natureza. Os ciclos, os espaços e os materiais da natureza oferecem à criança um ambiente propício à investigação e às descobertas. Também oferece partes soltas, como folhas, troncos, água, terra, que estão sempre dispostos a virar tudo aquilo que a criança imaginar.

É importante dizer, porém, que não temos aqui um manifesto contra o brinquedo da indústria, mas sim um alerta frente à cultura do acúmulo que permeia nossas experiências de vida. Não se trata de banir o industrializado, mas de consumi-lo com criticidade, pois não falamos apenas de um consumo material, mas principalmente simbólico: quais as mensagens que determinados brinquedos carregam?

Também devemos pensar sobre o que transmitimos às crianças quando limitamos suas experiências ao circuito de consumo.  

Ao oferecer somente o pronto e o industrializado ou restringi-las a circular apenas nos ‘templos’ do consumo, como os shoppings, legitimamos os valores de uma cultura consumista, que preza pela posse e minimiza as possibilidades de experiências de protagonismo e autoria.

As crianças precisam viver o que, aos olhos dessa sociedade regida pelo capital, parece banal ou pouco produtivo: visitar parques ao ar livre, sentir a textura de uma flor ou simplesmente vivenciar o ócio. Estas são experiências que não carregam consigo os valores de um mundo alinhado ao consumismo e, exatamente por isso, possibilitam liberdade para que as descobertas da infância ocorram a partir de desejos que surgem de dentro para fora e não a partir daqueles provocados pelos discursos da mídia e pelo mercado de consumo.

Foto: Pixabay

Bebês brincam?

Bebês brincam? Como? E qual a melhor forma de estimulá-los?

Para refletir sobre essas perguntas, sugiro recorrermos aos estudos da pediatra húngara Emmi Pikler (1902-1984), fundadora  do Instituto Loczy, em Budapeste. O Instituto funcionava como uma espécie de orfanato e ali ela passou a observar bebês e estudá-los profundamente. De forma bastante resumida – e introdutória – passarei por alguns pontos defendidos pela abordagem desenvolvida por E. Pikler e, ao final do texto, deixarei sugestões de leitura para aqueles que desejarem conhecer mais a fundo o trabalho dela.

A abordagem desenvolvida pela pediatra valoriza, sobretudo, o protagonismo do bebê e discute com profundidade a questão do corpo, e como ele, muitas vezes, é o próprio brinquedo da criança.

Ela acredita que todo o potencial de exploração está no corpo. A criança ter a possibilidade de movimento, para Emmi Pikler, é fundamental e todo o seu estudo baseia-se numa perspectiva que considera a criança como capaz (muitas vezes os adultos acham que um bebê não é capaz ou que não tem muito que aprender). Essa visão, que concebe o bebê quase como uma ‘marionete’, vai travando as possibilidades de um desenvolvimento autônomo.

A abordagem Pikler sugere que os bebês sejam colocados em uma superfície firme e plana, numa posição em que fiquem livres para mexer todas as articulações. Para Emmi Pikler, a liberdade para movimentar as pernas, os braços ou para virar/desvirar o corpo é fundamental para um desenvolvimento saudável.

Colocar a criança em uma posição confortável que lhe dê liberdade, deixá-la em espaços amplos, disponibilizar diferentes tipos de materiais com texturas, temperaturas, cheiros, cores diferentes (como bacias, colheres, panos) são algumas formas de estimular um bebê e contribuir para o desenvolvimento de sua autonomia, já que as descobertas e as curiosidades partirão dele, assim como as escolhas. Ele que escolherá com o que deseja interagir e por quanto tempo deseja ficar naquela experiência… E, por falar em tempo, esse é outro ponto fundamental a ser discutido.

O tempo de um bebê (e o da criança no geral) é diferente do nosso (na realidade cada ser humano tem um tempo próprio, não é mesmo?). Um bebê pode passar um longo tempo olhando e tocando um pano, descobrindo cada detalhe, sentindo o cheiro, a textura, a temperatura… E, sob a abordagem Pikler, o ideal é que o adulto respeite esse tempo e tente interferir o mínimo possível no momento de investigação do bebê (o que pode ser um tanto difícil, já que nosso impulso inicial é oferecer ajuda, oferecer novos brinquedos, etc). Como adultos, e cuidadores, devemos respeitar o tempo e também os interesses do bebê. A ideia é que o brincar aconteça o mais livre possível, como uma atividade de investigação.

Se o bebê está com dificuldade de pegar um objeto que está próximo, o ideal é esperar um pouco até facilitar a entrega do objeto, pois nos minutos seguintes, quem sabe, ele pegará por conta própria… E, então, terá realizado uma tarefa a partir de seu próprio esforço Será uma conquista! São essas experiências, à primeira vista tão simples, que contribuirão para toda a história que virá pela frente. As experiências da primeiríssima infância (0 a 3 anos) são, todas elas,  fundamentais e terão implicações para toda a vida.

Complementando a reflexão, vale dizer também que muitos brinquedos que são vendidos nas lojas sob o rótulo de “brinquedos para crianças” ou “para bebês” na realidade não atendem essas necessidades de descoberta e não proporcionam essas experiências de autonomia e escolha. Muitos destes brinquedos industrializados são recheados de cores, barulho, luzes e, geralmente, sempre de plástico (o que reduz muito as possibilidades de descoberta – a não ser que o plástico seja disponibilizado com outros tipos de materiais).

Talvez o bebê precise do silêncio, ou esteja interessado em observar o movimento de suas próprias mãozinhas e, ao colocarmos um brinquedo repleto de informações logo acima de sua cabeça, ou tampando a sua visão no berço e no carrinho, tiramos toda a possibilidade de exploração e de autonomia da criança. Ela se vê restrita a essa única experiência oferecida pelo brinquedo (que tantas vezes provoca uma hiperestimulação desnecessária).

Ainda sobre esta questão dos brinquedos industrializados, é importante destacar  que a abordagem Pikler sugere que sejam explorados os objetos do cotidiano (como exemplificado anteriormente) – ou seja – além de contribuírem de forma mais relevante ao desenvolvimento da criança, esses objetos já estão em nossas casas – não precisamos gastar fortunas com brinquedos que, tantas vezes, são repletos de botões e informações, mas vazios no que se refere às experiências oferecidas aos bebês.

Como dito no início, este foi apenas um breve resumo, que passou rapidamente por algumas das principais ideias defendidas pela abordagem Pikler. Abaixo, como prometido, compartilho alguns conteúdos para aprofundamento.

 

Foto: Pixabay

Criança, do latim “creare”.

Em uma breve retomada etimológica da palavra ‘criança’, descobrimos que sua origem vem do latim ‘creare’, do mesmo radical que derivam as palavras ‘criação’ e ‘criatividade’. Uma raiz bastante pertinente, que dialoga intimamente com o universo da infância.

Em seu contato com o mundo, as crianças são extremamente imaginativas. Estão, a todo o momento, atentas e curiosas ao seu entorno, numa relação constante de construções e desconstruções. Elas transformam-se em pássaro, monstro e flor, simultaneamente. De uma caixa de papelão, fazem um castelo, inventam histórias para as borboletas e para o sol; criam seus mundos.

Porém, será que nós, adultos, estamos permitindo que as crianças exerçam essa criatividade, que lhes é tão inata, de forma livre e espontânea? Em uma sociedade conduzida pela lógica do capital, essa pergunta é importante e cabe, principalmente, aos grandes centros urbanos, em que a dinâmica do consumo já se naturalizou, influenciando o ritmo de vida de muitos.

Vivemos sob discursos que se direcionam claramente ao consumismo. A ideia central é consumir, descartar, consumir novamente e entrar de cabeça neste ciclo, responsável por alimentar e sustentar indústrias dos mais distintos produtos e serviços.

Dentro desta lógica, deixamos de ser autores e nos tornamos exclusivamente proprietários; usufruímos daquilo que nos é apresentado como necessário e, assim, mergulhamos numa dinâmica consumista. Precisamos estar atentos e questionar se realmente necessitamos de tudo aquilo que o discurso do consumo nos propõe, principalmente quando pensamos nas crianças e em como estamos lidando com a questão do consumismo na infância.

A indústria voltou-se com empenho ao público infantil, principalmente a partir da década de 60, quando estudiosos do marketing perceberam que a construção do consumidor começava ainda na infância e que crianças influenciavam, inclusive, decisões de compra dos adultos.  Estudo realizado em 2015 pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) com mães das 27 capitais apontou que seis em cada dez mães (64,4%) atendem aos apelos dos filhos quando eles pedem algum produto considerado desnecessário, como brinquedos, roupas e doces.

O mercado diz que tais produtos são fundamentais para a vivência de uma infância plena e feliz, e aos educadores (leia-se pais, professores e demais adultos que participam da vida da criança) resta questionar esse discurso da necessidade, apresentado em cada propaganda e embalagem de produto infantil.

Cachorros-robô que latem e pedem carinho; bonecas e suas vozes mecânicas; replicas de celulares, casinhas e comidinhas de plástico. Todos envoltos por embalagens ‘extraordinárias’, carregadas de promessas que levam à ideia da felicidade. São brinquedos com tantas funções, que o manual de instruções se faz necessário, trazendo o passo a passo sobre como utilizá-los.

Além disso, o brinquedo oferecido pela indústria vem repleto de sentidos e significados, intimamente ligados aos valores, símbolos e crenças do mundo dos adultos. Assim, antes de pagarmos pelas imensas embalagens e seus produtos de plástico, precisamos entender o que significa o brincar na vida de uma criança: será que ele ocorre apenas na presença destes brinquedos industrializados?

A brincadeira é a forma como a criança se expressa, como ela descobre o mundo e como descobre a si mesma. Durante o brincar a criança acessa seu imaginário; cria, recria, monta e desmonta, entra em contato com seus sentimentos e vontades; investiga, constrói hipóteses, organiza suas fantasias e exerce a sua criatividade.

Brincar traz a possibilidade de autoria e autonomia, é um percurso necessário e extremamente rico; é a própria linguagem infantil. Ao entregarmos um brinquedo repleto de botões e funções pré-determinadas tiramos a riqueza do percurso, oferecemos o pronto, empobrecendo as possibilidades de criação; a criança vira proprietária e não construtora.

O excesso de brinquedos industrializados também contribui para o distanciamento com os materiais simples que estão presentes ao seu redor, como os elementos da natureza. Com brinquedos extremamente rebuscados em termos de funções e tecnologia, as brincadeiras tendem a limitar-se a espaços internos e, assim, a criança perde a oportunidade de explorar os tantos sentidos que a natureza oferece e que são tão fundamentais ao enriquecimento dos processos de aprendizagem e ao próprio desenvolvimento humano.

A criança, sobretudo entre os 0 e 6 anos, período definido como ‘primeira infância’, precisa de experiências táteis e principalmente, afetivas; são essas as recordações e as vivências que, para ela, serão inesquecíveis. A educadora e antropóloga Adriana Friedmann, em seu livro ‘ Linguagens e Culturas Infantis’ provoca: “A infância é, ou deveria ser, um período de experimentações, sensações, sabores, cores, brincadeiras. Mas, no mundo atual, o que está interferindo para que esta infância não seja vivida de forma plena e saudável?”.

É preciso cuidar para que as crianças não vivenciem somente experiências de ter, que as tornem exclusivamente proprietárias. Elas necessitam de tempo, espaço e liberdade para potencializar sua linguagem mais genuína, que é o brincar. Deixemos que elas criem, e ergam seus próprios mundos.

Memórias de infância

Talvez esse seja um dos textos mais especiais deste blog, pois ele fala sobre a infância de uma pessoa maravilhosa que, com sua extrema sensibilidade, me ensinou a amar o mundo. São as memórias de infância do meu pai.

Após ler um texto que publiquei recentemente, ele me presenteou com o relato abaixo.

Compartilho aqui (com a devida autorização) pois trabalho – diariamente – defendendo mais infâncias como a de meu pai: repletas de afeto, natureza, diversidade, e distantes do consumismo.

Que honra poder ler tantas belezas e compreender as raízes que tornam meu pai o homem imenso que é.

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Por Pablo Yirula

O artigo “Do que as crianças precisam?” me trouxe muitas lembranças de infância. Uma infância sem abundâncias materiais, mas muito rica em aprendizagem, em experiências diversas, em convivências (sem restrições) com a natureza e os membros da comunidade.

Alguns fatos ainda estão muito vivos na minha memória, fizeram e ainda fazem parte da minha existência. As lembranças começam quando eu tinha por volta de 4 anos de idade.

Como filho de emigrante ucraniano, passei meus primeiros anos de vida em uma comunidade que estava sob o comando da “matriarca” da família, minha avó Sophia. A família era numerosa e havia um “bando” de crianças na comunidade, que vinham de diversos países: Ucrânia, Alemanha, Rússia, Polônia.

Lembro-me que, apesar da minha pouca idade, sempre acompanhava os mais velhos (que deviam ter por volta de sete anos de idade!). Vivíamos em consonância com a natureza, reconhecíamos os passarinhos pelo canto, conhecíamos os peixes que nadavam no rio pouco profundo, de águas claras e transparentes. Ficávamos horas observando os movimentos destes peixes, sem entender como conseguiam viver dentro da água sem se afogar, já que nós aguentávamos prender a respiração embaixo d’água somente por um curto tempo!

Os adultos ensinavam, especialmente para os meninos, as diferentes línguas faladas na comunidade e também a matemática. Esta última abrangia e esclarecia muitos “segredos” que a natureza e o universo escondiam a olhos nus.

Na escola, nos comunicávamos uns com o outros aprendendo o idioma das diferentes culturas: falávamos alemão, ucraniano, polonês, russo. O espanhol, língua do país que nos acolheu (a Argentina), era chamada de “língua nacional” e fazia parte da matéria principal. Ela que unificava o convívio entre tantos povos diferentes.

A vida fluía com liberdade e uma inocência sem qualquer desejo de consumo; não existia o desejo de possuir mais do que o outro. Os brinquedos eram fabricados por nós mesmos! Brincávamos com cavalos feitos de vara de árvore e charretes em miniatura. Vivíamos em contato com a terra, que tinha cor forte, vermelha! Era muito bom senti-la sob nossos pequenos pés descalços.

Jogávamos futebol com uma bola feita de pano, gritávamos de felicidade quando alguém fazia um gol, sem que outros se sentissem, por isso, perdedores. Deitávamos na grama de barriga pra cima, todos juntos, formando um círculo, e observávamos o céu com seus milhões de pontinhos cintilantes que se chamavam “estrelas”! Víamos as “manchas” das galaxias.

Alguns nos falavam que esses pontinhos luminosos no céu eram as almas dos mortos. Outros, porém, nos explicavam o que eles realmente significavam. Passávamos a noite nos perguntando como poderia ser o universo, sem entender com clareza essa palavra.

Nossas dúvidas despertavam uma curiosidade enorme, queríamos desvendar o verdadeiro significado do universo. Eu lembro, com muita clareza, que alguém nos explicava como funcionava nosso sistema solar, escutei pela primeira vez, com 6 anos de idade, o nome de Albert Einstein.

Construíamos nossos “telefones” com duas latinhas, um furo no meio e uma linha de algodão (que pegávamos escondida dos olhos da mãe ou da vovó). Era um prazer imenso escutar, a uma distância de 10-15 metros, a voz do nosso interlocutor! Surgiam novamente muitas perguntas sobre como isto podia acontecer, até que nosso “velho professor” nos explicava porque isto acontecia. Até hoje lembro o nome desta pessoa que nos ensinou tantas coisas maravilhosas, nos introduzindo em um mundo cheio de segredos, porém com tantas explicações.

Era o Sr. Jacob Würgles. Acho que era de origem suíça. Ele fabricava rádios e nos fazia escutar emissoras de outros países pelas ondas curtas; sempre nos explicando que isto acontecia através de ondas eletromagnéticas. Suas explicações eram tão claras que ficávamos de olhos arregalados ao conseguir compreender o porquê das coisas.

Nunca esquecerei  de quando fizemos nossos próprios rádios. Chamávamos de “rádio a galena” que, na verdade, consistia em um diodo (também construído por nós com enxofre e chumbo derretido). Fazíamos a bobina de ressonância, e o Sr. Jacob nos dava um “condensador”, além de nos emprestar fones de ouvido. Algumas vezes conseguíamos escutar ou sintonizar uma emissora de rádio ou escutar somente barulhos. Que maravilha! Sabíamos como e porque aconteciam as coisas, nada era segredo, tudo se explicava!

Eu me sentia tão atraído por estas maravilhas! O Sr. Jacob também me explicava como funcionavam as válvulas; ganhei até um livro dos anos 1939 sobre o assunto. Tenho este livro até hoje. Que belas lembranças!

Este senhor era um sábio! Ele também nos ensinou a usar a régua de cálculo (a máquina de calcular da época). Com esta régua fazíamos multiplicação, divisão, elevávamos a potência, calculávamos raiz quadrada, funções trigonométricas. Sempre tudo muito bem explicado e com a paciência de alguém que transmitia conhecimentos sem pedir nada em troca.

O Sr. Jacob morava sozinho, em meio a livros, rádios, fios. Era um “eremita”. Nunca soube porque levava uma vida dessa maneira. Alguns falavam que era um nazista que vivia com outra identidade. Só sei que seus ensinamentos mudaram a vida de muitos de nós.

Entre meus 7 ou 8 anos, ganhei um pequeno livro com a teoria da relatividade de Einstein, devo ter lido infinitas vezes sem compreender 1% do que lia, mas sabia praticamente de cor o conteúdo daquele livrinho.

Einstein virou o meu “Deus”, inclusive ate hoje sou fã dele como cientista. Tenho tudo o que pude e posso adquirir sobre ele! Livros, quadros com fotos em minha parede, etc. Só que hoje entendo um pouquinho melhor a profundidade da sua teoria. Quando fiquei sabendo que ele tinha morrido, em 1955, fiquei triste durante muitos dias, olhando a fotografia dele na capa do livro que eu tinha.

Um outro fato que me marcou muito foi observar  – nas noites claras – a passagem do satélite “sputnik”, lançado pelos russos. Ficávamos naquela mesma posição em que observávamos as estrelas e os planetas e, assim, víamos aquela luz que se deslocava rapidamente no céu e que emitia um sinal de “ Pip, pip…”. Que coisa mais extraordinária! O Sr. Jacob tinha um rádio com a frequência que captava este sinal. Que maravilha, que sensação de … não sei explicar.

Como éramos felizes, sem saber o significado de felicidade! Esta é uma conclusão que tiro hoje, ao relembrar meu passado. Não tínhamos ideia do que era consumismo, nos sentíamos felizes sabendo que no dia seguinte teríamos tantas coisas novas para aprender!

Festas de aniversário não eram para ganhar presentes. Eram encontros muito especiais. Nesses dias, as mães convidavam toda turma, meninos e meninas. Ordenhávamos o leite da melhor vaca, se raspava em cada casa um pouco de chocolate, de uma barra especialmente comprada para essa data. Então, mexíamos o leite quente que derretia o chocolate! Era uma grande festa! Aguardávamos com ansiedade o aniversário de alguém da colônia para saborear esse delicioso chocolate, que vinha acompanhado por um pedaço pão, feito no forno da própria casa. Que saudades!

Gostaria de continuar contando muitas outras lembranças, estão todas guardadas na minha mente, porém daria um livro muito extenso. Os detalhes permanecem vivos!

As crianças, olhando para minha retrospectiva pessoal, precisam de liberdade! Viver em contato com a natureza, aprender a língua para se comunicar e se informar, apreender matemática para entender muitos dos “segredos” do universo. Precisam do carinho de uma família. Precisam de um bom orientador, um professor, um guia. Precisam de cuidado!

Foto: Flickr

O direito ao amor

Declaração Universal dos Direitos das Crianças (UNICEF)

Princípio VI – Direito ao amor e à compreensão por parte dos pais e da sociedade.

Amor; um sentimento que deve ser garantido a todas as crianças do mundo! Só assim elas poderão viver o presente em harmonia, e serão capazes de conduzir um amanhã semeado por sonhos, justiça e igualdade.

Estamos falando sobre um direito mas, sobretudo, de um alimento para a vida.

Uma criança amada e amparada terá forças para lidar com as dificuldades do mundo e crescerá com a capacidade de acreditar em si mesma e nos outros. Valorizará o respeito às diferenças e o bem ao próximo.

Nós, adultos, precisamos, a todo o momento, e sem descanso, dar exemplos de carinho e amor às crianças, criando espaços de escuta e compreensão. Parece simples, parece natural, mas, infelizmente, ainda vemos pais batendo nos filhos, punindo, gritando; ainda vemos adultos individualistas e egocêntricos.

Somos todos educadores e nossa responsabilidade com o mundo é contínua: ao educar crianças, estamos cuidando delas e do mundo, simultaneamente.

Sem o afeto, porém, não conseguiremos construir um mundo mais digno e bonito de se viver. A vida é delicada e o amor está entre os principais combustíveis para a sobrevivência humana.

Que todas as crianças tenham seus direitos respeitados e possam ser verdadeiramente amadas, por todos aqueles que participam da sociedade.

Foto: Pixabay

 

 

 

Consciência negra é…

Estamos no Novembro Negro, mês da consciência negra. Mas – afinal – o que é consciência negra? Deixamos aqui um olhar sobre o tema e convidamos todos a refletirem sobre a pergunta e sobre as estruturas sociais que constituem e regem nossa sociedade. Uma causa de ontem, de hoje e de todos os dias, até que possamos ter uma sociedade que negue estereótipos e caminhe rumo à uma estrutura justa, capaz de acolher a todos de forma humana, digna e respeitosa. Uma militância de todo brasileiro.

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Consciência negra é…

Consciência negra é entender que o mundo a todos pertence; que não há uma única cultura, mas sim o encontro entre várias. É entender que a grandeza da cultura de nosso país deve-se exatamente a esses encontros, que aos poucos modelaram e enriqueceram a nossa culinária, nosso vocabulário, nossas práticas religiosas, nossa música, dança e, sobretudo, o nosso modo de viver a vida.

O encontro com a cultura-afro foi  – com certeza – um dos mais significativos para a história de nosso país. Quando os negros africanos foram deslocados para o Brasil (de maneira forçada e extremamente desumana – trazidos na forma de mercadoria) trouxeram consigo um mundo inédito, repleto de hábitos e costumes jamais vistos antes: a música, a comida, a dança – tudo tão novo; tão encantador.

consciencia-negraA cultura dos negros escravos não tardou em ultrapassar os limites da senzala e a todos conquistar. Tornou-se um dos grandes pilares da cultura brasileira e hoje podemos enxergar a influência afro em nossa culinária (vatapá, acarajé), música (samba, maxixe, bossa-nova), vocabulário (dengo, cafuné, cachimbo, batuque), nas práticas religiosas (candomblé, umbanda) e no próprio corpo brasileiro: os traços negros, a cor da pele, o cabelo, o jeito de mexer, de andar, de dançar.

Claro que pensar na presença dos negros africanos no Brasil é também pensar na exploração, no sofrimento e no preconceito racial, que marcaram de forma tão intensa a nossa sociedade. Ainda hoje vemos as raízes desse sistema escravocrata: o negro sofre preconceito, muitas vezes é marginalizado, representado sob visões estereotipadas e visto como subalterno.

Essas raízes calcadas no preconceito e marginalização, porém, estão perdendo força, já que não se justificam. Mas não podemos negar que ainda enfrentamos, em nosso cotidiano, fortes marcas do período escravocrata. Um retrato escancarado dessa herança é a “cultura da empregada”. Elites brasileiras têm alguém para passar, cozinhar, limpar; um alguém que, geralmente, fica restrito aos limites da cozinha e lavanderia. (Isso te remete a algo?)

Trata-se de um problema social: o Brasil se desenvolveu apoiado em uma ordem que nunca favoreceu os negros. Mesmo após a abolição da escravatura, em 1888, os ex-escravos não tiveram qualquer tipo de assistência do Estado – não eram mais escravos, mas tão pouco eram reconhecidos como cidadãos. Ficaram às margens da sociedade.

Outro ponto: como mudar a mentalidade daqueles que, há pouco, os escravizavam? A cultura servil naturalizou-se e, por mais absurdo que pareça, ainda hoje (2015!) escutamos discursos que valorizam a lógica da exploração (e claro que as pessoas que levantam essa bandeira, levantam também a bandeira do preconceito).

Cultura, política, economia… Esferas sociais que caminham juntas, que são inseparáveis e, por isso, ao falarmos da influência da cultura-afro em nosso país acabamos caindo em questões políticas e econômicas, mas devemos voltar à pergunta inicial: O que é Consciência Negra?

Termino este texto dando a resposta que, para mim, parece mais adequada: Temos a cultura-afro no sangue, no corpo e na alma. Ser brasileiro é ser afro e, por isso, consciência negra nada mais é do que reconhecer e respeitar o que somos: afro-brasileiros.

E para você? O que é Consciência Negra? Deixe sua resposta no espaço para comentários!

Mapa da Infância Brasileira lança plataforma colaborativa de aprendizagem

Pensar a infância com a atenção e o cuidado necessários, esse é o grande diferencial do Mapa da Infância Brasileira (MIB), uma comunidade colaborativa de aprendizagem  que tem como missão articular, mobilizar e criar sinergias entre os diversos atores e iniciativas que visam gerar impacto positivo na qualidade de vida das crianças brasileiras.

Idealizado e coordenado pelo NEPSID (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Simbolismo, Infância e Desenvolvimento),
o projeto iniciou suas ações em 2013 com a pesquisa “Espaços e Programas humanizados para as crianças
de São Paulo”, que reuniu ações inovadoras na cidade e alimentou o desejo de ir além: olhar não apenas para São Paulo, mas para as diferentes infâncias brasileiras.

Assim surgiu o MIB; um convite ao diálogo, reflexão e  inspiração sobre a infância e suas linguagens. Um lugar para acolher os gestos e ritmos infantis e refletir sobre eles. Uma comunidade para aprender, trocar, pesquisar e, sobretudo, para alimentar a alma.

São muitas as iniciativas inspiradoras voltadas à infância Brasil afora! O MIB surge para reunir essas iniciativas e permitir que pessoas interessadas pelos temas da infância se encontrem e troquem informações.

Qualquer um pode participar da comunidade. Se você tem interesse em se aprofundar no tema e conhecer boas práticas, ou se deseja compartilhar uma iniciativa ou conteúdo, acesse a plataforma e inscreva-se.

Além da plataforma online, o MIB desenvolve e aplica instrumentos de pesquisa junto a crianças e seus cuidadores, com o objetivo de buscar indicadores às diferentes iniciativas das quais as crianças participam. Os instrumentos do MIB já foram utilizados em iniciativas como o Movimento Boa Praça, Sacolão das Artes e Projeto Casulo.

Acompanhe o Mapa da Infância Brasileira!

 

Experiências perdidas

Ontem conheci uma garota muito simpática. Entre um assunto e outro, ela me contou que fora professora durante alguns anos em uma escola voltada à classe alta (super alta! muito alta!) de São Paulo. Com uma mensalidade ‘salgada’, a escola atende famílias de milionários paulistanos. Até aí, nada tão problemático, mas, quando o excesso de dinheiro vem acompanhado do excesso de ignorância e ausência de criticidade, questões graves podem surgir. Muitas destas famílias parecem mergulhar a fundo na lógica do consumo, defendendo e perpetuando valores supérfluos, que reafirmam comportamentos preconceituosos, excludentes e pouco acolhedores.

A própria escolha pela escola dos filhos parece estar baseada na lógica do consumo. A instituição de ensino da qual falamos tornou-se um status importante entre os milionários de São Paulo e, colocar os filhos ali tem um peso simbólico considerável. Em entrevistas com diretoras, parece que são poucos os pais que indagam sobre o Projeto Pedagógico adotado pela escola, mas todos afirmam “meu filho tem que estudar aqui”.

Não pretendo criticar ou discutir o projeto da escola, até porque não o conheço em profundidade. Quero pensar sobre os ambientes pelos quais essas crianças circulam. Os relatos que ouvi me assustaram. Tive a impressão de serem ambientes que tendem a marginalizar e transfigurar valores importantes ao desenvolvimento humano, como a empatia e a tolerância, e impor enormes barreiras para que essas crianças e jovens experimentem o mundo livremente, a partir das diferentes interações com seu entorno.

picjumbo.com_IMG_5498Algumas crianças dessa escola, por exemplo, são proibidas (pelos pais) de estabelecer contatos próximos com aqueles que não pertencem a sua classe social. Tomei conhecimento da história de um casal que proibia a filha de 4 anos a entrar na cozinha da própria casa e estabelecer qualquer contato com os empregados. Meu coração partiu nesse momento. Foi ai que eu entendi como o dinheiro, somado à ignorância, pode privar crianças a experimentarem o mundo e todas as suas surpresas, belezas e diversidade. O dinheiro, somado a valores mesquinhos, pode ser tão grave quanto a falta dele.

Privar uma criança de entrar na cozinha da própria casa? O que sustenta esta regra? Proibir que conheça seu próprio lar, que aprenda como é feito o alimento que consome todos os dias, que conheça quem está fazendo a sua comida e que possa fazer junto… Impedir que descubra texturas, sabores e cheiros, que conheça o processo de preparação do alimento, até que ele chegue ao prato. Quantas privações, quantas experiências perdidas! E por quais motivos?

A mesma reflexão cabe à proibição do contato com os empregados da casa. Uma escolha insustentável, que perpetua uma lógica excludente, limitando e empobrecendo o mundo e as experiências da criança. A troca e a convivência entre os seres humanos – principalmente entre aqueles que dividem o mesmo espaço – deve ser algo natural e saudável, capaz de trazer inúmeros aprendizados, como o desenvolvimento da empatia e da capacidade de negociação.

Muitos pais, ao impedirem essas vivências, ferem a infância dos filhos com seus valores invertidos e equivocados. As crianças, vítimas destes contextos, tendem a reproduzir as falas e os comportamentos dos pais, assumindo-os como verdades, e correm o grave risco de tornarem-se adultos egoístas, preconceituosos e consumistas. É preciso cuidar dessas crianças, preservar suas infâncias e seus futuros!

Essa situação me fez reviver uma experiência de anos atrás. Eu estava na casa de uma amiga cuja família é muito rica. Muitas coisas na dinâmica daquela casa me chamavam a atenção; uma delas era o fato de ter um interfone no quarto, que tocava diretamente na cozinha. Bastava tirar o telefone do gancho, pedir um suco e, em poucos minutos, o pedido estava lá (sim, parecia mais um hotel!). Mas o que me chocou profundamente foi a fala da irmã da minha amiga. Ela se aproximou de mim e perguntou: “Você sabe qual carro o meu pai tem?” Eu respondi: “Não”. E ela retrucou: “Uma Mercedes”. Essa menina tinha por volta de 5 anos. Eu também era criança na época, devia ter 12 anos. Quando ouvi aquilo fiquei sem reação e, depois de muito tempo, entendi que, naquele momento, eu senti compaixão. Como uma criança, com aquela idade, poderia estar com essa narrativa? Algo muito errado estava acontecendo ao seu redor.

E tive novamente essa sensação durante a conversa de ontem.

Mães que, após darem a luz ‘colocam peito’, minicomputadores como lembrancinhas em festas infantis, bullying com aqueles que não possuem avião ou casa fora do país; ‘andar de ônibus’? ‘fazer a própria comida’? – Fatos e perguntas que fazem parte da realidade dessas crianças e que contribuem para o seu desenvolvimento como ser humano. E, que ser humano será esse? O excesso parece causar esvaziamentos profundos e não podemos permitir que esse processo afete a infância, fase tão importante na construção daquilo que seremos no e para o mundo.

Precisamos de pessoas inteiras, que sejam tolerantes, amigáveis, compreensivas e transformadoras. Ambientes com tantas cercas e dogmas, com certeza não são os mais saudáveis para o desenvolvimento pleno de nossas crianças.

Mobilização livre e lúdica celebra os 25 anos do ECA

Em julho de 2015 o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente – completa 25 anos. Para comemorar a data diversas organizações da sociedade civil se uniram no movimento “Juntos pelo Brincar”, uma mobilização livre e lúdica que ocorrerá no dia 5 de julho no Largo da Batata, zona oeste de São Paulo, das 10 às 16 horas. O objetivo é transformar o Largo em um grande espaço para o livre brincar, destinado às crianças e suas famílias.

CARTAZ DIGITAL COM PROGRAMAÇÃO OKA mobilização “Juntos pelo Brincar” foi construída coletivamente com base em três eixos importantes garantidos pelo ECA: o direito ao brincar, fundamental no desenvolvimento da criança e do adolescente; o direito à convivência familiar e comunitária como forma de inserção no meio social para que eles interajam com o mundo de maneira saudável e segura; e o direito ao espaço público para encorajar as crianças e adolescentes a se reconhecerem como cidadãos e sujeitos de direitos.

Já estão programadas mais de 20 atividades como brincadeiras de rua, oficinas de bicicleta, contação de histórias, apresentações musicais, sarau e yoga para crianças. Há uma ficha de inscrição prévia, mas no dia o espaço estará aberto e livre para quem quiser levar suas próprias brincadeiras.

A iniciativa conta com o apoio da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo e da Subprefeitura de Pinheiros. Os órgãos oferecerão as estruturas necessárias ao acolhimento das crianças e suas famílias, contribuindo para uma ocupação segura do espaço, onde todos possam exercer livremente o direito ao brincar, ao espaço público e à convivência comunitária.

A importância do ECA

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) foi o resultado de um intenso processo histórico de consenso e articulação da sociedade brasileira. O documento instituído pela Lei 8.069 no dia 13 de julho de 1990 foi inspirado pelas diretrizes fornecidas pela Constituição Federal de 1988 e passou a assegurar tratamento social e jurídico especial para crianças e adolescentes.

Mesmo considerando todas as garantias inscritas no ECA e na Constituição Federal, enfrentamos um momento de ameaça às conquistas realizadas. Diante do contexto atual entidades da sociedade civil decidiram apoiar esse evento que celebra a importância histórica dos 25 anos do ECA.

Serviço

Mobilização em celebração aos 25 anos do ECA

Local: Largo da Batata – São Paulo, SP.

Data: Domingo, 5 de julho de 2015.

Horário: das 10h às 16h

Inscrição de atividade: https://pt.surveymonkey.com/s/5S28ZGT

Mais informações: facebook.com/juntospelobrincar

Quem apoia: Casa do Brincar; Colégio Equipe; Educacuca; Fundação Maria Cecília Souto Vidigal – FMCSV; Instituto Alana; Instituto Aromeiazero; Instituto Equipe; Instituto Natura; Mapa da Infância Brasileira – MIB; Núcleo São Paulo da Rede Pikler Brasil; REBRINC – Rede Brasileira Infância e Consumo; RE Educação e Cultura; Respire Cultura; SampaPé!; UNICEF.